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Vale a pena ler. E pensar...

por Paulina Mata, em 19.05.19

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Várias vezes já aqui falei de Jay Rayner, e alguns dos meus posts foram inspirados por artigos seus. Frequentemente leio críticas que faz a restaurantes, ou outros dos seus artigos, e tenho lido alguns dos seus livros. Gosto muito do que escreve, não porque concorde sempre com ele, embora em muitas coisas concorde, mas porque gosto da atitude irreverente e do humor, de ler a sua perspetiva (por vezes diferente da minha) sobre vários temas, e porque me faz pensar.

 

Ontem, ao dar uma vista de olhos ao The Guardian  dei com uma entrevista dele. Li-a com interesse, e passado umas horas voltei a lê-la. Houve coisas que me fizeram pensar.

 

Quando lhe perguntaram o que era mais importante transmitir ao leitor sobre a sua experiência num dado restaurante sobre o qual a crítica estava a fazer, respondeu:

My column is about how much pleasure (or otherwise) your money will buy you, and that’s what I have to communicate. But to do so, as with all journalism, I have to find the story. It might be about the rise and fall of Chinese restaurants, or the joy of stumbling across a great place by accident. I need an idea to hook it on. It’s definitely not a score-based forensic analysis, which would be tedious to read. It is, first and foremost, a writing job, not an eating job. You need to put the reader in the seat next to you.

 

De facto, frequentemente, me sinto quase à mesa dele, devido às expressivas descrições das sensações ao comer os vários pratos. Achei interessante a afirmação "It is, first and foremost, a writing job, not an eating job."  Penso que é essa a razão que me faz ler as suas críticas a restaurantes a que nunca fui, ou ponha sequer a hipótese de ir. Críticas como as que ele refere como "score-based forensic analysis", são de facto pouco interessantes. Mais do que saber se o prato estava no ponto, ou se tinha sal a mais ou menos, é importante entender o contexto, usar a crítica para fazer pensar, contribuir para alargar a perspetiva com que olhamos não só para aquele restaurante, mas para outros de que ele nunca falou. 

 

Há muitos, muitos anos, comprava a revista brasileira Gourmet e lia avidamente as críticas a restaurantes em São Paulo. Nunca estive em São Paulo e nessa altura nem sequer se punha a possibilidade de poder pagar aqueles restaurantes, mesmo que lá pudesse ir. O que me fazia lê-las com tanto interesse era o que aprendia nelas, pelo facto de quase me sentir transportada para aquela situação, a forma como o que lia expandia os meus conhecimentos e expetativas, para além do que as minhas próprias experiências permitiam. Ler aquelas críticas foi fundamental para a minha formação. Quando comecei a ir a restaurantes daquele nível, tinha uma experiência prévia pelos olhos de outros que me permitiam analisar e avaliar cada situação de uma forma diferente.

 

Quando leio no The Guardian online as críticas de Jay Rayner, chama-me sempre a atenção o número de comentários, algumas centenas. Raramente os leio, é quase impossível, de modo que foi com curiosidade que li a seguinte pergunta e respetiva resposta.

 

You have a consistent dialogue with readers about your column and your reviews. Can you tell us about that and why you think it’s important?

It’s not so much that I regard it as important as unavoidable. Failing to engage with commenters below the line or on social media is to ignore the way the world has changed. It’s a conversation, however much some of that conversation may drive me nuts.

 

Fui ver em diagonal os comentários a algumas das críticas mais recentes. Encontrei de facto alguns comentários de Jay Rayner, os que vi não correspondiam a um envolvimento em discussões sobre problemas levantados pelos comentadores, mas em respostas a questões postas pelos comentadores. Ainda assim transmite um pouco a sensação de que segue os comentários, de que eles são importantes.

 

Sempre que vou ao blog Salsa de Chiles reparo que  Carlos Maribona também participa muito nos comentários. Estes são muito menos do que as várias centenas nas críticas de Jay Rayner, mas ainda assim é uma coisa em que sempre reparei com admiração. Dantes escrever passava-se apenas num sentido e havia pouca possibilidade de interação com os leitores, hoje, como refere Jay Rayner, a falta de envolvimento nos comentários é ignorar a forma como o mundo mudou. Acredito que é importante haver regras sobre a forma de conduta nas respostas, mais do que ser a resposta de cada um, estão a representar o órgão de comunicação em que escrevem. Por mais exasperantes que os comentários sejam, é importante não "perder a cabeça", é importante respeitar os leitores (mesmo quando eles vão além do que seria desejável).

 

Já agora, e noutra área, sempre me chocou um pouco não só o alheamento, como também nalguns casos o descontrolo, revelados por restaurantes e chefes sobre o que é escrito sobre eles.  Várias vezes me questionei se não é uma forma de arrogância, e se não seria desejável estabelecerem uma maior empatia e cumplicidade com os clientes. É importante ouvir, mostrar que se ouviu e por vezes mostrar aos clientes outras perspetivas, mas respeitando-os. Mais uma vez é importante não "perder a cabeça", haver regras de conduta cuidadosamente estabelecidas e seguidas.

 

Divertiu-me ler as regras impostas por Jay Rayner a quem o acompanha nas visitas aos restaurantes cuja crítica vai fazer, o que lhe permite socializar com amigos, mas com regras.

It gives me the perfect opportunity to catch up with friends. They just have to know (a) that we’re having the works; you can’t say “no dessert for me”; (b) I get to taste everything they order; and (c) I’m the one writing the column, so while I’m vaguely interested to hear their thoughts, they’re only there to keep me company.

 

Em tempos tinha lido num dos livros dele que inclusivamente são informados daquilo que é aceitável que digam aos empregados de mesa quando perguntam se está tudo bem. Nada de muito explicito num sentido ou noutro. Nada que comprometa Jay Rayner no que vai escrever a seguir. Como ele diz, ele é quem vai escrever a crítica, as outras pessoas estão ali para lhe fazer companhia.

 

Também a resposta que dá à pergunta relacionada com comentários que por vezes se ouvem relativa à futilidade de comer fora é interessante. Trata-se de normalidade, e esta deve ser celebrada.

During difficult times in the world, what do you think is the importance of eating out?

I am a strong believer that we are capable of holding two thoughts in our head at the same time. We can be appalled by, say, the situation in Syria, while also being displeased by the poor cooking of a steak. The former does not make the latter irrelevant because at base we all aspire to living normal, comfortable lives, untroubled by conflict or social exclusion. A meal out is a mark of that normality, and normality should be celebrated.

 

Vale a pena ler. E pensar...

 

PS

O título da entrevista não é nada feliz...

 

 

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