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Assins & Assados

Uma inesperada visita ao Marrakesh

por Paulina Mata, em 20.07.19

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20 horas e 30 minutos. Estávamos numa aula. Passava um filme em que se viam imagens do Iftar (a quebra do jejum dos muçulmanos durante o Ramadão), uma família Marroquina preparava uma Bastilla.

 

O meu vizinho do lado disse baixinho:

Gosto tanto daquilo! Há tanto tempo que não como...

Respondi também baixinho:

Eu também. Sei de um restaurante onde há, a 5 minutos daqui. Vamos?

 

E foi assim que, de uma forma que não tinha sido planeada, pouco mais de meia hora depois estávamos sentados à mesa do Marrakesh. Pela decoração, e também pelas pessoas sentadas nas outras mesas, quase parecia que estávamos em Marrocos. A sala de aula, apesar de estar apenas a algumas dezenas de metros dali, parecia longe, longe...

 

O que pedimos? Obviamente uma Bastilla de Frango com Amêndoas, como a que tínhamos visto no filme:

 

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A massa exterior fina e estaladiça, o recheio de frango saboroso, por cima algumas amêndoas, mas também açúcar fino e canela. Soube tão bem! O meu companheiro de mesa chegou a dizer que era a melhor que tinha comido. 

 

Seguiu-se uma Tagine de Vitela com Ameixas e Amêndoas acompanhada com Couscous. Pena não ter chegado no tipo de recipiente que lhe dá o nome. Imaginámo-la vinda de um tacho... estava saborosa, mas faltava o recipiente...

 

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Para sobremesa partilhámos uma Laranja com Água de Flor de Laranjeira e Canela.

 

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O Marrakesh tem comida marroquina e indiana, o ambiente parece mais marroquino e nós estávamos ali pela comida marroquina. Valeu a pena a inesperada viagem à mesa até Marrocos.

 

 

Marrakesh - Avenida Conde de Valbom, 53, Lisboa

 

 

A Geórgia, aqui tão perto...

por Paulina Mata, em 13.07.19

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A conversa foi mais ou menos assim:

- Está-me a apetecer viajar.

- Agora!!!??? Queres ir onde?

- Acho que à Geórgia. Nunca lá fui...

- Então vamos lá à Geórgia...

 

Cerca de meia hora depois estávamos sentados à mesa do Treestory, prontos para a viagem. Esta é um das vantagens de viajar à mesa. 

 

Vimos a carta. Perguntei se não tinham vinho da Geórgia. Foi lá que provavelmente se produziram os primeiros vinhos, há cerca de 8000 anos. A origem da palavra vinho talvez até tenha sido gvino, a palavra georgiana para designar esta bebida. Não tinham. Fiquei com pena.

 

Para começar...

 

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Tarte de Gúria

tarte quente fechada recheada com ovo e queijo

 

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Ele achou um pouco pesado. Eu achei pura comida conforto. A massa macia, o queijo derretido do recheio, o sabor suave.

 

De seguida veio uma outra entrada que nos disseram ser uma das que mais sucesso fazia. 

 

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Sortido de pkhali, beringela e cenoura

espinafres, beringela e cenoura com nozes e especiarias

 

Fresca, colorida e exótica. Ele gostou mais da beringela - puré de beringela envolvido em tiras de beringela grelhada. Eu também. Gosto da romã nos pratos, da sua cor, da doçura e acidez, do exotismo da sua introdução num prato salgado. 

 

Partilhámos o prato principal.

 

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Carne de porco em molho de nozes com especiarias

 

Ele gostou muito, eu gostei, mas com menos entusiasmo.

 

Na vitrine do balcão havia várias sobremesas com aspetos interessantes. Estava calor, as doses são bem generosas, e resolvemos partilhar a que tinha um ar mais leve e menos doce.  Achei graça à figura de cisne.

 

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Acho que tínhamos ficado mais bem servidos com uma das outras. Mas cumpriu a sua função.

 

Fomos beber o café e o chá para o agradável pátio exterior ao fundo do restaurante. Um espaço simpático, cheio de pessoas que almoçavam.

 

Ficaram no menu várias coisas que gostava de experimentar. Talvez lá mais para o Outono volte para nova viagem à mesa à Geórgia.

 

 

Treestory  -  Rua Luciano Cordeiro, 46A, Lisboa

 

 

Boubou's - viajar para outras paragens, sem sair do Príncipe Real

por Paulina Mata, em 21.04.19

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Quando entrei no Boubou's a primeira sensação foi de surpresa, o pequeno bar na entrada, a sala interior, e depois o pátio, onde jantámos, cheio de plantas e muito agradável. Tinha vindo diretamente do trabalho, chegar ali foi como que entrar numa bolha, e tudo o resto ficou lá fora. Ao pensar nisso hoje, passados já uns dias, acho que tal sensação está relacionada com as características do espaço, que são um reflexo do percurso de vida de quem está por detrás dele. Alexis e Agnes Bourrat, ele francês mas com ligações familiares a Portugal, ela húngara com nacionalidade inglesa, ambos trabalharam em restaurantes e hotéis de renome em Inglaterra, e foi aí que se conheceram. Decidiram depois vir para Portugal e abriram o Boubou's no Príncipe Real. No comando da cozinha Louise, irmã de Alexis.  As suas vivências e percursos de vida refletem-se no espaço, mas também no menu. Tudo  nos faz sentir um pouco "de férias, num outro qualquer lugar". 

 

Quando recebi o convite para ir ao Boubou's, ainda não tinha ouvido falar no restaurante, e não fiz nenhuma pesquisa, portanto tudo foi surpresa. O que foi bom, ainda acentuava mais a tal sensação de férias e de descoberta. Éramos três pessoas à mesa e deixámos a decisão do que iríamos comer a Alexis Bourrat, que nos recebeu.

 

Pouco depois chegaram três entradas:

 

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Ceviche de Atum

 

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Tártaro de Salmão

 

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Croquetes de Coelho

 

As duas de peixe, saborosas, frescas e leves. A de atum, com o ovo por cima, mais interessante. Dos croquetes de coelho, baseados numa receita de rillettes da família Bourrat,  com a mostarda que lhes avivava o sabor, gostei muito. Uma entrada a remeter para sabores franceses.

 

Chegou depois um dos pratos com mais sucesso do Boubou's, o Kebab de Cordeiro com Pão Pitta e vários condimentos. Este é depois preparado na mesa para que cada um possa rechear o seu pão a gosto.

 

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Numa época em que as propostas de muitos dos novos restaurantes são dominadas por pequenos pratos que se partilham, gostei desta ideia do grande prato que fica no centro da mesa e se partilha também, mas comendo todos o mesmo. Neste caso, para além disso, a componente da preparação, com um certo carácter lúdico e informal, permite uma interação entre as pessoas na mesa que pode ser interessante e incentivar à descoberta dos vários condimentos oferecidos. Quase remete para uma refeição familiar, para um momento de descanso descontraído.

 

Chegou a hora da sobremesa, os meus companheiros decidiram-se por sobremesas frescas e leves, de que normalmente também gosto mais. Mas, decididamente, eu estava num dia de comida conforto. Ainda provei as agradáveis sobremesas deles, mas o que me soube mesmo bem, vinha mais na linha dos croquetes de coelho e do "kebab", e foi o Paris-Brest.

 

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Cremoso de Yuzu e Limão com Crumble

 

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Abacaxi, Gingerbread, Sorvete de Framboesa

 

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Paris-Brest, Praliné, Avelã

 

A descoberta do Boubou's foi uma agradável surpresa, em particular pelo tipo de propostas diferentes do habitual, e também pela influência francesa, não muito comum em Lisboa. Embora recorrendo tanto quanto possível a produtos portugueses, o Boubou's permite-nos viajar por outras paragens.

 

Boubou's

Rua do Monte Olivete, 32A,  Lisboa

 

Primeira Foto DAQUI

 

Uma aventura pelos sabores da Arménia

por Paulina Mata, em 10.04.19

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Nada sabia da cozinha da Arménia, mas também não procurei. Por vezes é bom ir sem expetativas, completamente à aventura, e depois desfrutar do que der e vier. Foi o que aconteceu quando fui ao Ararate pela primeira vez, logo após ter descoberto que havia um restaurante de comida da Arménia em Lisboa. Se a primeira visita foi uma ida às cegas, da segunda já sabia o que me esperava, e a motivação principal foi a de descobrir novos pratos.

 

Bem perto da Gulbenkian, portanto quase paredes meias com o legado que um Arménio nos deixou, o restaurante é grande, confortável e com um ambiente simples, mas com alguma sofisticação. No menu os pratos estão bem explicados e ilustrados.

 

Da primeira vez começamos a refeição com um  Khachapuri Barco, descrito como um pastel tradicional caucasiano recheado com queijo, gema de ovo e manteiga. Adorei o pão macio e saboroso, e a cremosidade do recheio. Gostei do serviço na mesa, em que o empregado mistura a gema com o queijo derretido e corta o pão em pedaços. Da segunda vez começámos também a refeição com o Khachapuri Barco.

 

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A primeira decisão na segunda visita foi, contudo, sobre o vinho a escolher. Na carta havia alguns vinhos da Arménia, um país com uma longa tradição na produção de vinhos, e que para nós eram completamente desconhecidos. Diz-se que após quarenta dias e quarenta noites de chuvas torrenciais, a Arca de Noé chegou à mais alta montanha da Arménia, o Monte Ararate, e que das primeiras coisas que Noé fez foi plantar vinha para produzir vinho. Estando no restaurante com o nome da montanha, e dado que não nos víamos há bem mais de quarenta dias e quarenta noites, não podíamos mesmo deixar de escolher um vinho da Arménia.

 

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A carta tem uma secção de petiscos. Foi por aí que começámos das duas vezes, o objetivo era experimentar diversas coisas. Sendo as doses relativamente generosas, mal saímos daí. Explorar melhor os pratos principais terá que ficar para próximas oportunidades. Entre as duas visitas, tive oportunidade de provar:

 

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Khinkali - saquinhos de massa recheados com carne picada e um caldo aromático

 

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Satsivi - peru em molho de nozes

 

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Dolmá - carne de vitelão picada com arroz, cebola, verduras e especiarias, envolvida em folhas de videira com molho de matsun e alho

 

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 Tjvjik - fígado, coração e pulmões de cordeiro estufados com cebola e tomatada

 

IMG_20190312_195604.jpgChacapuli - pedacinhos de borrego com vinho branco, ervas aromáticas e alho

 

Achei este último prato menos interessante, mas todos os outros me agradaram muito. Para os acompanhar pão, não só um pão levedado, mas também Lavash, um pão em folhas finíssimas, muito tradicional na Arménia.

 

Um dos "pratos fortes" do Ararate são os Khorovats ou seja as espetadas. Na segunda visita comemos uma espetada de costeletas de borrego acompanhada de uma espetada de batatas. A carne excelente e tenríssima.

 

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Para terminar, da primeira vez escolhemos o Ecler, uma sobremesa francesa adotada pelos Arménios.

 

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Já da segunda aventurámo-nos por uma maior diversidade de doces.

 

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Torta de Merengue com creme

 

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Bolo de mel

 

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Pakhlava - pasta de nozes trituradas com cravinhos e canela, envolvida em massa filó e banhada em xarope

 

E para terminar, enquanto acabávamos de pôr a conversa em dia, um brandy da Arménia.

 

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É bom ter em Lisboa oportunidade de desfrutar dos sabores de outras paragens, viajar à mesa é excelente, e desta vez foi por sabores completamente desconhecidos. Muito há ainda por explorar... ficou a vontade de o fazer. 

 

 

Ararate -   Avenida Conde Valbom, 70,  Lisboa

 

 

 

 

Um saltinho aos sabores da Argentina

por Paulina Mata, em 09.03.19

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As minhas viagens à mesa em Lisboa andam pouco variadas. Tenho-as feito, mas em geral revisitando destinos onde já estive. É altura de novas aventuras... uma, recente, foi para um destino há muito adiado.

 

Há anos que planeava ir ao Café Buenos Aires. E quando digo anos, eram mesmo muitos anos... já que o Café Buenos Aires abriu em 2002. Há dias estava ali perto, estávamos a pensar onde jantar, e o destino foi, finalmente, o Café Buenos Aires. Felizmente chegámos cedo, porque as mesas estavam quase todas reservadas.

 

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Gostei do ambiente e gostei da música. Há quem diga que lembra os cafés de Buenos Aires, não sei pois nunca lá estive. Mas o ambiente, as mesas com estrangeiros a beberem um copo de vinho, o ruído de fundo, davam a sensação de estar num outro local. Estava a precisar de fugir um pouco do quotidiano, por isso foi um bom começo.

Quanto ao menu, tem alguns pratos argentinos, outros de cozinha mais global, e pratos de outras cozinhas também. Era a primeira vez que estávamos no Café Buenos Aires, decidimos ficar pelos pratos da Argentina, que acompanhámos com um vinho também argentino. Aliás a opção da maior parte das pessoas que ocupavam as outras mesas foram também os pratos de carne.

 

Começámos com 

 

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Pastéis de Carne Argentina 

 

Para prato principal comi o bife indicado como "Especialidade"

 

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Tira de Carne Argentina  Grelhada. Com Chimichurri e Batata Doce de Aljezur 

 

Excelente carne e bem confeccionada. O Bife Argentino que foi para a mesa ao lado, tinha um óptimo ar também. Para terminar, uma sobremesa para partilhar, que acompanhei com uma infusão argentina, um Mate-Cocido.

 

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Bola de Gelado Caseiro de Dulce de Leche

 

Soube-me bem esta visita a outras paragens. Hei-de voltar, pela comida e pelo ambiente, e até para experimentar outros pratos.

 

 

Café Buenos Aires  -  Calçada do Duque - 31B, Lisboa

O pequeno-almoço Español

por Paulina Mata, em 03.02.19

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Gosto de longos pequenos almoços. Gosto da diferença de hábitos relativamente aos pequenos almoços. Fascinam-me a diferença de hábitos, mesmo quando a distância é curta. Há umas semanas fui com as minhas três irmãs a Badajoz. De tempos a tempos fazemos um fim se semana algures só nós quatro, sem famílias. Desta vez escolhemos Badajoz porque era lá que antes do Natal, ou quando precisávamos de roupa, ou quando precisávamos apenas de espairecer, os meus pais nos levavam em crianças. A "nossa" loja de brinquedos mágica era  Las Três Campanas, do supermercado Simago vinham os caramelos, os melocotones, os patés... Dos Preciados a roupa. Recordações que são certamente as de muitos portugueses, há quem as descreva de forma a que nos revemos completamente no relato.

 

Cerca de 50 anos depois dessas excitantes viagens a Badajoz, resolvemos voltar, na viagem fomos fazendo a lista de tudo o queríamos ver, como se o tempo não tivesse passado. Badajoz é outra agora, porque os tempos mudaram no quase meio século que passou e a cidade evoluiu, porque os portugueses deixaram de ir comprar caramelos e melocotones. Mas foi igualmente divertido.Estivemos à porta de Las Três Campanas, que já fechou, e o bonito edifício vai ser transformado num hotel. Fomos ao Simago, que já não é Simago, nem tem já os perritos calientes de que nos lembrávamos. Mas foi numa cafetaria lá que acabámos por tomar o nosso primeiro pequeno almoço. Tostadas com cachuela, tomate /hamón ibéricotomate/queso, aceite com miel.

 

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Gosto particularmente das de tomate com presunto que me fizeram lembrar outras (melhores) que tinha comido umas semanas antes em Sevilla.

 

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Há dias li que uma empresa espanhola tinha aberto na Baixa uma loja, que funcionava como charcutaria, mas também servia refeições ligeiras, incluíndo pequenos almoços. Vieram-me logo à memória estas lembranças e uma grande vontade de lá ir tomar o pequeno almoço. E assim foi...

 

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Soube-me bem! Recordou-me também que está na altura de voltar a viajar à mesa em Lisboa. Enquanto comia pensei no que diria se alguém me perguntasse como era um pequeno almoço característico de Portugal. Não sei bem. Algumas sugestões?

 

 

Beher - Rua da Prata, 249 - Lisboa

 

 

 

 

 

Bonsai - voltando ao Japão e recordando outras "viagens"

por Paulina Mata, em 16.01.18

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Gosto muito quando uma refeição não acaba no prazer que nos dá, mas faz pensar, faz procurar mais informações e conhecer mais ou faz despertar memórias.  Foi isto que aconteceu recentemente com uma refeição no restaurante Bonsai.

 

Não me lembro da primeira vez que comi sushi e sashimi, nem exactamente de onde, mas sei que foi em Londres. Mas lembro-me de onde comi pela primeira vez em Lisboa. Foi no restaurante Bonsai, onde comecei a ir há cerca de 25 anos. Até aí as minhas experiências de cozinha japonesa em Lisboa limitavam-se ao Kamikaze - O Vento de Deus, que não tinha pratos com peixe cru, mas tinha uma barriga de porco, que acho que era kakuni, que comi muitas vezes e que ainda hoje, 30 anos depois, me faz sonhar.

 

Estava a tentar situar-me no tempo e uma pesquisa na net ajudou, mas mais do que isso, ajudou a recordar. Encontrei o artigo "Eh pá, isto é peixe cru?" A história do Bonsai, o pioneiro do sushi em Portugal, do Tiago Pais. Gostei de o ler, muito do que ali está é-me muito familiar e despertou-me memórias. 

 

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Ao Bonsai devo ter começado a ir no início dos 1990. Penso que o restaurante já era da família Yokochi. Lembro-me de ver sempre Shintaro Yokochi no restaurante e Irma Yokochi a dirigir a cozinha. A Luísa Yokochi  estudava na minha universidade, no meu departamento. Tanto quanto me lembro nunca fui professora dela, mas conhecia-a de lá, e depois também do restaurante onde estava por vezes na sala. Durante mais de 10 anos fui lá muito frequentemente, depois começaram a abrir outros... não sei... acabei por deixar de ir.  Voltei lá há uns anos quando a Mio e o Ricardo Komori lá estavam. Quando entrei na sala, foi como que um regresso ao passado. Estava tudo mais ou menos na mesma, ou pelo menos como me lembro que era. Foi um excelente jantar, e encontrei lá o Lucas Azevedo que tinha ido a algumas aulas de uma cadeira que dou ao Mestrado em Ciências Gastronómicas. Quando os Komori foram para o Japão, soube que o Lucas Azevedo ficou a chefiar o restaurante e todas as referências que ouvia eram excelente. Ainda não tinha calhado lá ir, fui no mês passado. Fiquei na altura com a ideia de que a família Yokochi continuava ligada ao restaurante, confirmei agora no artigo do Tiago Pais que sim, que recuperaram a gerência do restaurante sendo a Luísa Yokochi a responsável.

 

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Entrar no restaurante voltou a ser como que um regresso ao passado, mas o que se come é diferente, e continua excelente. Pedi conselho ao Lucas, falou-me das beringelas, penso que da Quinta do Poial, compradas naquele dia no mercado do Príncipe Real. Penso que era a primeira vez que faziam aquele prato, e já só havia uma dose, pedi logo para a guardarem para mim. Estavam óptimas, assim como os outros pratos que foram vindo.

 

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Saí a pensar que tenho que voltar mais vezes, e quando voltar a Lisboa vou fazê-lo. 

 

 

Bonsai - R. da Rosa, 248, Lisboa

 

 

1ª Foto DAQUI 

2ª Foto DAQUI

Síria - o pão e muito mais sabores... no Mezze

por Paulina Mata, em 05.01.18

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Li uma vez, não sei onde, que nos emigrantes, nas gerações que já nascem fora do país, se perde mais rapidamente a língua do que os hábitos alimentares e as memórias dos sabores. Não sei se é verdade, mas sei que o que comemos, as memórias gastronómicas são parte intrínseca da nossa identidade. 

 

Compreendo perfeitamente a resposta de Alaa Alhariri, uma estudante síria de arquitectura, quando Francisca Gorjão Henriques e Rita Melo lhe perguntaram de que é  que tinha mais saudades - do pão. Esta resposta foi como que uma alavanca para o projecto Pão a Pão - Associação para a Integração de Refugiados do Médio Oriente, que esteve na base da criação do restaurante Mezze. Recorrendo a uma campanha de crowdfunding, e depois de um período de formação, o Mezze abriu em Setembro no Mercado de Arroios.

 

Jantei lá em Outubro, e estive lá mais recentemente para um workshop de cozinha síria, seguida de um jantar em que nos sentámos todos à mesa, partilhámos a refeição que tínhamos preparado e conversámos. Uma óptima experiência! É sempre bom aprender a criar novos sabores, conhecer novos pratos e técnicas. Mas foi sobretudo bom pois as pessoas que ali estavam, a partilhar as suas experiências e a mostrar a sua cozinha, eram quase conhecidos pois já tinha lido sobre eles, as caras eram bem familiares. 

 

A Fátima, o Rafat, o Yasser, a Alaa, e o orgulho e entusiasmo com que nos mostraram a sua cozinha, e o apoio constante da Francisca Gorjão Henriques tornaram a experiência inesquecível. 

 

Começámos, como não podia deixar de ser, pelo pão e o Yasser, um exímio padeiro, demonstrou-nos como se fazia o pão sírio.

 

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Tudo o resto esteve a cargo da Fátima, com o apoio de todos. O Rafat e a Alaa, ambos falando um português excelente, traduziam e explicavam.

 

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No final sobre a mesa tínhamos:  khubz (pão sírio), hummus (pasta de grão), tabbouleh (salada de salsa), baba ganoush (puré de beringela), mandi (arroz fumado com pimentos), meshawi (espetadas de frango), tudo acompanhado de sumo de tamarindo. E para concluir a refeição harissa (bolo de sêmola de trigo) com café sírio (com cardamomo e as borras do café).

 

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Tudo muito bom, mas se pudesse destacar uma só coisa, seria o arroz. Óptimo, como tudo o resto, mas sobretudo por ter aprendido a técnica usada para o fumar que nunca tinha visto. Quase no final faz-se uma pequena cova no meio cobre-se com papel de alumínio (que forma como que uma pequena taça), dentro deita-se uma brasa incandescente, por cima dela um pequeno fio de azeite e tapa-se o tacho. O fumo que se liberta vai fumar o arroz. No final retira-se tudo, mistura-se o arroz e serve-se. E o sabor é espantoso! E a técnica fascinante! Nunca deixa de me espantar o engenho e criatividade para transformar alimentos e criar sabores tão característicos da cultura de cada povo.

 

 

Mezze - Mercado de Arroios, Rua Ângela Pinto, 12, Lisboa

 

1ª Foto DAQUI

 

Índia - a street food que o Chutnify nos traz

por Paulina Mata, em 22.10.17

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Durante muitos anos os (poucos) restaurantes indianos que havia em Lisboa eram restaurantes goeses. Chegou depois um conjunto de restaurantes, indianos, paquistaneses e nepaleses, com uma comida diferente. Ultimamente, em Inglaterra, tenho ido a vários restaurantes com um outro tipo de comida indiana, referida em geral como street food. Uma comida que envolve também uma forma mais descontraída de comer. Quando li que tinha aberto um restaurante indiano em Lisboa com uma cozinha com influências de street food e um espaço que, embora com uma cozinha autêntica, era mais moderno e descontraído, fiquei com vontade de experimentar.

 

O Chutnify é de uma indiana, Aparna Aurora, designer de moda e que trabalhou muito muito tempo nessa área. Vive na Alemanha e, há três anos, abriu o primeiro Chutnify em Berlim, dois anos depois abriu um outro também naquela cidade, e este verão abriu um Chutnify em Lisboa. 

 

Chegámos a um espaço relativamente pequeno, com um longo balcão, pois têm também uma componente de bar, e começámos com duas entradas:

 

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Pani Puri

Puri recheado com grão, batata e romã, e acompanhado de água temperada com especiarias

 

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Shakarkandi Chaat

Batata doce em cubos e romã, regados com molho de iogurte, tamarindo e menta 

 

Como prato comemos

 

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Duck Dosa

Crepe de arroz e lentilhas (dosa) acompanhado de pato cozinhado num molho muito aromático, e chutney de coco

 

Visualmente bonito e diferente do habitual. Partimos em pedaços o crepe, muito fino e crocante, para com eles comermos o pato que estava por baixo. Tanto este prato como as duas entradas anteriores eram bastante saborosos. Acompanhámos tudo com lassi salgado, uma bebida de iogurte com especiarias de que gosto muito.

 

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No final dividimos a sobremesa:

 

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 Pistachio Kulfi

Gelado indiano de pistácio acompanhado de molhos de fruta

 

Um restaurante em linha com o tipo de restaurantes indianos que vejo agora abrir em Inglaterra. Uma refeição interessante e que permite conhecer outros sabores e uma outra comida indiana e ainda viajar à mesa. Para quem gosta de uma refeição mais tradicional há vários pratos de caril. 

 

 

Chutnify - Travessa da Palmeira, 46, Príncipe Real, Lisboa

 

 

Numa outra vida devo ter vivido num país asiático (III)

por Paulina Mata, em 15.07.17

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Não sei se temos várias vidas. Mas, se tal acontece, numa outra devo ter vivido num país asiático, já que as minhas visitas a países asiáticos foram muito poucas, e por vezes acordo ao fim de semana, tarde, e com uma irresistível de um brunch de dim sum

 

Um bule de chá, que será cheio mais uma ou duas vezes, sabores diferentes, e um gosto umami forte. Há dias foi assim no Grande Palácio:

 

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Sopa de Raviolis de Camarão

 

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Vieiras com Alho

 

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 Patas de Galinha com Feijão Preto (nunca podem faltar)

 

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 Fan Kor Zhiu Zhou

 

Estes nunca tinha comido, e pelo nome não sabia ao que ia, descobri no recheio, amendoim, porco, camarão seco e cogumelos shiitake. Vim a saber depois que são da região de Guangdong no sul da China.

 

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