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Assins & Assados

Assins & Assados

23
Set22

Anarchy Tuesday - Land vs The Wilderness

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Era  um dia de Anarchy,  ou seja uma terça feira, um dia em que no The Wilderness cozinham o que querem, e como querem, experimentam novos conceitos, convidam outros para trabalharem em conjunto, e oferecem algo diferente. São menus de seis pratos, que variam todas as terças feiras. 

Ouvi falar do The Wilderness, do chef Alex Claridge, há cerca de 5 anos. O que me chamou a atenção foram as propostas pouco convencionais. Não cheguei a ir lá. Entretanto, o The Wilderness mudou para um outro espaço e estava na minha lista de restaurantes a visitar. De facto ainda está, pois quero conhecer a cozinha deles - menus pré-definidos, comida divertida e provocadora com produtos sazonais. Desta vez fui num dia de anarquia, liberdade e colaboração.

O The Wilderness é definido pelo seu chef como Rock & Roll Fine Dining, um luxo que envolve diversão, inclusão e humor. Há quem reclame da música de fundo, Alex Claridge diz que para ele faz sentido que o ambiente reflita as personalidades e desejos de quem lá passa quase todas as horas. Assim, entra-se numa sala com uma cozinha aberta ao fundo, em que o preto é a cor dominante, com alguma sofisticação, mas coerente com o ambiente Rock & Roll. Um serviço descontraído, mas muito profissional. Um sommelier, Sonal Clare, também pouco convencional.   

A proposta para o jantar foi da minha filha, que é vegana, gosta de fine dining, mas não há muitos restaurantes que ofereçam menus veganos. O The Wilderness também não tem regularmente  (aqui uma reflexão de Alex Claridge sobre esse assunto), mas numa terça feira recente convidaram os chefes do Land, Adrian Luck e Tony Cridland, para um jantar conjunto. O Land é um restaurante com uma cozinha apenas baseada em plantas. Está no interior da lindíssima Great Western Arcade em Birmingham. Já lá fui algumas vezes (uma delas aqui), e há algum tempo que andávamos a planear ir de novo.  Não podíamos perder a oportunidade!

A proposta eram 6 pratos, 3 de cada um dos restaurantes. Foi divertido tentar adivinhar de quem era cada um (olhar para a cozinha ajudou nalguns casos...), mas acho que acertámos em todos. Para acompanhar foi-nos sugerido um vinho laranja romeno, de intervenção mínima, o Solara Orange Natural Wine.

Os dois primeiros pratos foram aqueles de que gostei mais.

 

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Thai Green Ramen - Chilli Xo - Courgette

 

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Squash Terrine - Koji Sunflower  - Rayu

 

Os sabores do primeiro prato eram fortes, muito limpos, era delicioso, de ver e comer. Pensei que ficava difícil para o que viesse a seguir. O prato seguinte chegou e o impacto visual não foi tão grande, mas ao comer... estava à altura do anterior! A terrina de abóbora, em fatias finíssimas, com um sabor relativamente neutro, mas o puré de sementes de girassol fermentado com koji era delicioso, e o rayu, um molho japonês de malaguetas e outras especiarias, complementava o conjunto na perfeição.

Depois deste começo ficava difícil, e os pratos seguintes, apesar de muito bons,  não me encheram as medidas da mesma forma.

 

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Dashi Potato - Yeast & Peppercorn - BBQ Seaweed

 

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Aubergine - Massaman Curry - Chilli Jam

 

E chegou a hora da sobremesa...

 

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Beetroot & Cherry Cake - Miso Oat Ice Cream - Cherry Caramel

 

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Sticky Koshihikari Rice - Caramelised Banana - Coconut - Jaggery

 

Gostei mais da primeira sobremesa do que da segunda,  o miso conferia ao gelado uma componente de umami que o tornava muito agradável, e contrastava com o sabor terroso da beterraba e as notas de benzaldeído da cereja.  Uma sobremesa com sabores com mais personalidade do que a seguinte, que acabou por perder por vir em segundo lugar.

Globalmente um ótimo jantar, pratos muito interessantes e bem diferentes do habitual. Há um mundo a explorar com os vegetais e com formas de tornar os pratos repletos de sabor! Um "mundo" cada vez mais interessante e uma evolução que é fascinante acompanhar.

 

1ª Foto DAQUI

 

 

15
Set22

As minhas experiências em restaurantes de sobremesas

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À minha frente estava o meu Spanish Iced Latte, a tarefa seguinte era construí-lo a partir das partes. Depois bebê-lo.  Era a minha primeira experiência num dos muitos restaurantes de sobremesas que via um pouco por todo o lado no UK, uma realidade que até há pouco desconhecia, ou pelo menos de que não tinha tomado consciência, nem entendido.

Primeiro intrigou-me o número de restaurantes de sobremesas, sobretudo em determinados bairros e cidades. Depois o horário de abertura, quando a maioria das coisas fecha pelas 16 horas, eles abrem por essa hora mais ou menos e estão abertos até tarde, e até muito tarde durante o Ramadão. Tinham todos interiores relativamente glamorosos, claro que uns mais que outros. Depois comecei a ver que nos clientes havia uma percentagem elevada de jovens muçulmanos.

Com alguma busca, finalmente comecei a entender. Muitos jovens muçulmanos não vão pubs ou bares onde vendem álcool, e são este os locais onde se encontram com os amigos, nestes espaços fazem parte da sua vida social, são também locais adaptados para saídas em família. Também lhes permitem não estar preocupados com o facto de as sobremesas terem algum ingrediente que não seja compatível com as suas dietas (por exemplo gelatina). Há ainda outros espaços idênticos, pelo que entendi mais dirigidos para hindus vegetarianos, que não comem ovos pois são potencialmente seres vivos e portanto não são considerados vegetarianos. Nestes os bolos têm leite, natas, mas não têm ovos. No resto parecem-me terem características idênticas. Os espaços são atraentes, sofisticados, e luxuosos (pelo menos alguns deles). Com as bebidas e as sobremesas passa-se o mesmo, prometem momentos especiais, mais do que alimentar pretendem proporcionar experiências.

Há tempos, passei à porta de um destes restaurantes de sobremesas, junto a um poster, no exterior, com uns apetitosos mocktail, estavam duas jovens muçulmanas, e uma delas dizia "Tenho que beber isto!". Foi isso que eu também disse quando olhei para o menu, um espesso livro com muitas páginas de um papel de qualidade e muito ilustrado, num Heavenly Desserts e vi a foto do Spanish Iced Latte e a sua descrição "Our spin on the Spanish Iced Latte. Espresso ice cubes, steamed milk and sweet condensed milk are combined to deliver a decadent coffee-based beverage like no other.".

 

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Precisava mesmo daquela experiência! Primeiro o encantamento com a apresentação. Bolas... um erlenmeyer não tem nada de original para mim, mas aquele com o leite exercia uma enorme atração. Ainda bem, pequenos prazeres que são importantes. Misturei tudo e o meu Spanish Iced Latte soube-me maravilhosamente bem!

Há tempos abriu um espaço destes num bairro onde vou frequentemente, o The MilkCake Man. Olhando para o instagram deles prometiam um luxo de sobremesas... Passei lá, o espaço não era tão luxuoso como o que o instagram e as sobremesas levavam a prever... Será que as sobremesas estavam à altura das fotos ou do espaço? A primeira foto que vi de sobremesas deles foi da Cherry Blossom Tree, e quando a vi também pensei "Tenho que comer isto!". Levei muitos meses até lá ir... mas um dia, finalmente, tinha a minha Cherry Blossom Tree...

 

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Nada como satisfazer um desejo... mesmo que seja um pouco infantil... E a sobremesa também o era. Um gelado de uma mistura comercial (que precisava de estar um pouco mais frio), bolachas Oreo esmagadas, um biscoito de chocolate e uma nuvem de algodão doce cor de rosa vivo. O copo de um plástico não muito forte, a colher de plástico... Não esteve à altura do interesse que despertou (para dizer a verdade nunca tive muitas expetativas). Mas um desejo satisfeito abre lugar para outros, mais interessantes, ou não... O que importa? 

 

 

11
Set22

BONO - um jantar que me soube muito bem, tal como me soube bem recordá-lo

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Os pensamentos são como as cerejas, e o artigo do Público que referi no post anterior fez-me também lembrar outro projeto de um ex-aluno. Um projeto que fui acompanhando desde o início, o restaurante BONO, ali perto do Chiado.

Pensar nos dois restaurantes (Tasca Baldracca e BONO)  em simultâneo acabou por me fazer tomar consciência da diversidade de projetos que os meus alunos têm desenvolvido. No caso dos restaurantes, são todos muito diferentes, ambientes, conceitos e propostas do menu. É muito interessante verificar como a personalidade de cada um deles está refletida no respetivo projeto. Assim, de repente, pensei em seis restaurantes, se não soubesse de quem eram e me pedissem para adivinhar, acho que acertaria em todos.

O Robson Oliveira é brasileiro, trabalhou alguns anos em restaurantes França, e escolheu agora Portugal para viver. Para além de cozinheiro, é licenciado em História e tem um mestrado em Ciências Gastronómicas. Todo o seu percurso está refletido no BONO, em que a cozinha é de inspiração mediterrânica, utiliza as técnicas clássicas que aprendeu em França, e procura no passado aspetos positivos que valorizam o trabalho desenvolvido, como é o caso da cozinha com brasas. O espaço é bonito, com um pé-direito alto, arcos de pedra, uma iluminação que o valoriza e uma decoração simples, mas sofisticada. O BONO estava preparado para abrir as portas quando a pandemia chegou, tudo se atrasou, mas logo que foi possível começaram a receber clientes.

Estive lá há uns meses e soube-me muito bem recordar a visita.

Para começar:

 

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E continuámos com:

 

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Legumes Mediterrânicos

 

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Ceviche de Peixe Fresco, Flores e Pérolas de Tapioca 

 

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Salada de Cenoura com Cores de Outono

 

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Burrata Italiana com Creme de Tomate e Pesto Genovês

 

 

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Polvo na Brasa, Puré de Grão de Bico, Tomate e Limão Confitado

 

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Posta de Bacalhau com Broa

 

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Arroz Negro com Frutos do Mar

 

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Borrego au Vin com Creme de Hortelã e Couscous Marroquino

 

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Lombo de Novilho, Gnocchi, Molho de Parmesão e Demi-Glace

 

E para terminar:

 

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Pannacotta de Flor de Laranjeira e Fisális

 

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Kinder Bono

 

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Tiramisù 

 

Era um grupo grande, tivemos oportunidade de provar muita coisa. Um verdadeiro banquete!  Comida muito boa que, no meu caso, ainda se tornou melhor por ver na cozinha, que é à vista, algumas caras que habitualmente encontrava na sala de aula. Lá, em geral, eles estavam sentados e eu de pé. Aqui eu estava sentada e eles de pé. E o resultado do trabalho deles era muito mais saboroso do que o do meu... Um jantar que me soube muito bem, e agora voltou a saber bem recordá-lo.

 

BONO - Calçada do Ferragial, 9 - Lisboa

 

08
Set22

Tasca Baldracca - sabor feito de influências várias

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A Fugas do Público desta semana tem um artigo, Há uma "invasão brasileira" na gastronomia portuguesa, de Rafael Tonon. Gostei de ler, e é uma realidade de que já me tinha apercebido, uma vez que muitos dos meus alunos do Mestrado em Ciências Gastronómicas são brasileiros e grande parte deles trabalha na restauração, ou acabam por iniciar projetos próprios. O Pedro Monteiro, referido no artigo, é um deles e desejo-lhe muito sucesso. Se normalmente o desejo a quem inicia novos projetos, aos dos meus alunos, que conheço bem, ainda mais. 

O artigo fez-me lembrar uma visita à Tasca Baldracca na Mouraria há uns meses. Uma visita que me apeteceu recordar. Um ambiente descontraído, muito animado e barulhento, porta aberta para a rua. Não será para todos, nem para todas as ocasiões, mas é um dos aspetos fortes que caracteriza o restaurante e lhe dá personalidade. No dia em que fui estava cheio, e apareceu muita gente sem marcação que não teve mesa. Os pratos são para partilhar, e assim fizemos.

 

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Pão, manteiga fermentada, paté de fígado, azeitonas panadas

 

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Scotch egg, morcela, chutney de maçã

 

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Tártaro de novilho, mayo de anchova

 

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Escabeche de língua

 

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Moelas em tempura

 

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Choco, chouriço, Bérnaise

 

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Línguas de bacalhau al pil-pil

 

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Leitão, laranja, funcho

 

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Polvo à galega

 

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Abóboras

 

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Beterraba, cabra, rábano

 

Sabores com influências várias, ditadas pelos percursos de vida de quem cozinha. Uns pratos serão mais consensuais, outros requerem um espírito mais aventureiro, mas há opções para todos. Um projeto que reflete a atitude de uma nova vaga de cozinheiros, o Pedro é um dos membros do Coletivo New Kids on the Block (NKOTB), um grupo de jovens cozinheiros que partilham uma forma diferente de encarar a vida e a cozinha.

 

Tasca Baldracca - Rua das Farinhas - 1, Lisboa

 

04
Set22

Heaneys's - o luxo e a magia de uma boa refeição

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Há palavras que são semelhantes em quase todas as línguas, restaurante é uma delas. Mas há exceções, e dos lugares onde tinha estado a única que tinha encontrado era em finlandês, onde a palavra para restaurante é ravintola. Recentemente encontrei outra exceção, no País de Gales, em galês restaurante é bwyty (ou fwyty, mas ainda não entendi a diferença). Seja como for, foi num restaurante num bairro periférico de Cardiff, o Heaneys's, que tive uma das boas refeições dos últimos meses.

Começou logo quando entrei. Tinha acabado de transpor a porta e o empregado dirige-se a mim e diz "É a Paulina, não é? Eu sou o Roman.". Simpático! Como é que ele soube? Possivelmente porque das pessoas que marcaram para aquela hora, eu era a única que marquei só para uma pessoa.

Escolhi a opção de três pratos do menu de almoço. Mas haviam ofertas complementares que não estavam incluídas, pedi uma para começar - uma ostra. O prato não tinha acompanhamento e sugeriram umas batatas. Com isto, ao preço do menu de almoço dos três pratos já tinha acrescentado mais 40%, mas tudo bem... último dia em Cardiff, não estava ali para poupar.

 

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Pickled Oyster | Fermented Chili

 

A ostra era linda... mas não tinha o forte sabor a mar que esperava, e era ligeiramente adocicada. Era boa, mas o que comi com os olhos, superava o que senti na boca... 

 

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Prawn Ravoli | Xo Sauce | Sourdough Consomme

 

O ravioli também tinha uma presença visual marcante, mas havia mais para descobrir do que a observação inicial deixava prever. Por baixo havia pequenas esferas de pickles de pepino, e o molho Xo (um molho, criado originalmente em Hong Kong, feito de marisco desidratado - camarões e vieiras - picante, salgado, rico em umami). Sabores fortes que complementavam e contrastavam com os sabores bem definidos do ravioli. A textura da massa era perfeita. Aqui aconteceu o contrário do que tinha ocorrido com a ostra, o que senti na boca superava em muito o que comi com os olhos.  

 

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Cornish Hake | Courgette | Buttermilk | Smoked Cod Roe

 

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Crispy Potato Terrine | Truffle | Beef Fat Hollandaise

 

Tive medo quando pedi as batatas, receei que me acontecesse o que tinha acontecido uns dias antes, em que numa situação idêntica as batatas bulhavam com o peixe, mas não. Neste caso, não eram neutras mas os sabores complementavam-se e eram excelentes. A terrina com camadas muito finas, o exterior crocante, o interior quase cremoso, o molho holandês com um leve sabor a carne, por causa da gordura usada, valia por si só... fiquei mesmo contente por ter pedido. Estava à altura do peixe, também  muito bom.

 

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Vanilla Parfait | Strawberries | Prosecco

 

A sobremesa enchia os olhos, mas o que senti ao comer, a frescura, os sabores delicados e bem definidos, e a complexidade superaram as expetativas. Muito bom! Uma excelente forma de terminar.

 

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Mas... há sempre um mas... no final pedi um chá. De saquinho... Tetley... Não estava mesmo à altura do resto da refeição. Mais uma vez, a confirmação de que, mesmo nos restaurantes exigentes na qualidade e forma de apresentação dos produtos que servem, o chá continua a não ser tratado com a atenção que merece.

No final, lembrei-me do que poucos dias antes tinha lido no A Waiter in Paris: Adventures in the Dark Heart of the City, de Edward Chrisholm: 

Nothing beats the luxury of the restaurant. You walk in, someone shows you to your table, a menu appears and then you sit back and relax and watch as the parade of plates, glasses and bottles appears and disappears before your very eyes - like magic.

 

19
Ago22

Fogo - o final foi inesperado...

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Vou começar pelo fim... por uma situação que nem sequer é habitual ser referida. Acabámos de jantar, pagámos e antes de sair fui à casa de banho. Entro e oiço um poema a ser declamado. Não me lembro que parte ouvi quando entrei, mas reconheci-o de imediato e passados breves instantes ouvi o início:

 

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

 

Fiquei por ali a ouvir o Cântico Negro do José Régio dito pelo João Villaret. Fui dizendo os versos ao mesmo tempo. Tive uma professora de português fantástica entre os 10 e o 15 anos. Só bem mais tarde percebi muita coisa e a sorte de a ter tido com professora. Foi ela que nos introduziu alguns escritores e poemas, entre eles este. Sei lá... devia ter uns 14 anos, uma idade de uma certa rebeldia, decorei-o, muitas vezes o repetia. Fiquei ali encostada a sorrir, a lembrar-me disso, e de que a rebeldia afinal não era assim tanta...  

O restaurante era o Fogo, do Alexandre Silva. Posteriormente também pensei na razão da escolha do Cântico Negro para a casa de banho. De certa forma esta moda de cozinhar com fogo pode ser associada a alguma rebeldia, tem algo de aventura, heróico, teatral...  quem sabe esteja aí alguma relação.  

Falando da moda de cozinhar com fogo, tenho que reconhecer que não me suscita grande simpatia. Às imagens de regresso às origens, natural e romantismo associadas, e que intuitivamente passam, sobreponho imagens de poluição ambiental, pouca eficiência energética, elevado risco e falta de sustentabilidade. Tudo isto é muito complexo e, curiosamente, tenho procurado informação, e ainda não encontrei nada de sério. Gostava mesmo de um dia ver uma análise aprofundada dos efeitos em cozinhas de restaurantes de fine dining, com os equipamentos de cozinha e extração que usam, que penso que devem ter alguma sofisticação e otimização para reduzir riscos, melhorar o processo de combustão e a transferência de calor. Estudos há muitos, mas sobre cozinha familiar de quem não tem acesso a outras formas mais saudáveis de preparar os alimentos. Tanto se falou de cozinha molecular e dos efeitos nefastos, e tenho sempre a sensação de que é uma brincadeira ao lado do que é cozinhar com fogo de lenha. 

Apesar de tudo isto, na vida não podemos fazer só o que é isento de riscos, e consigo compreender que possa ser um estímulo interessante para alguns chefes e que, com um grande investimento, se consigam minimizar os efeitos negativos. Cozinhar com fogo permite introduzir sabores e aromas próprios agradáveis. Além disso, conseguir uma certa delicadeza de sabores em várias preparações é um desafio que compreendo que cause entusiasmo. 

Há muito tempo que queria ir ao Fogo, pois tinha curiosidade de ver o que era possível fazer. Não tinha dúvidas de que gostaria. E gostei do que comi...

 

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Já foi há muitas semanas, mas lembro-me muitas vezes deste arroz de forno. Verdadeira comida conforto! Digamos que o arroz e a o Cântico Negro na casa de banho foi o que mais emoções me despertaram em todo um jantar que me soube muito bem e em boa companhia.

Foi bom depois procurar a gravação do João Villaret a recitar o Cântico Negro, mas estas buscas são como as cerejas... vem sempre mais alguma coisa. Encontrei também a gravação da Procissão de António Lopes Ribeiro recitada pelo João Villaret. Não sei porque razão, associo-a ao verão, janelas abertas e muita luz, na casa dos meus Pais, que tinham o LP.

 

 

17
Ago22

The sexiest cabbage I have ever eaten

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Há pratos inesquecíveis. Por vezes não é muito clara a razão. Uma refeição pode ser excelente, por vezes até há pratos que se destacam, mas passado um tempo fica uma imagem geral, difusa, de que nada se recorda em particular. Outras vezes podem até nem ser tão bons, mas por qualquer razão nunca mais se esquecem.

Há muito que queria ir ao Eat Vietnam em Stirchely, em Birmingham, as referências eram ótimas. Num almoço de fim de semana escolhemos vários pratos do menu, e uma das pessoas na mesa sugeriu pedir a Hispi cabbage with black pepper sauce, que estava nos pratos do dia num quadro negro. Não fiquei muito entusiasmada. Talvez isso até tenha contribuído para tornar o prato inesquecível e o único de que me lembro da refeição. Quando provei foi como se tivesse levado um murro. O sabor forte, mas sobretudo a  sua complexidade, elegância, sofisticação... deixaram-me deslumbrada, mais que isso, emocionada. Foi mesmo uma surpresa!

 

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Hispi Cabbage with Black Pepper Sauce

 

Há mais quem achasse o prato bom. Acho mesmo que " The sexiest cabbage I have ever eaten" é uma descrição que lhe assenta como uma luva. Tanto que a "roubei" para o título do post.

 

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E não estava tão bonita como a minha. Então se estivesse...

 

 

14
Ago22

Folium - uma refeição que me permitiu dar atenção a todos os detalhes e a mim, que foi como que um presente. 

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Não é que os Jogos da Commonwealth me dissessem alguma coisa, só sabia mesmo que existiam pois há muito que via Birmingham a ser preparada e alindada para o efeito. Num sábado, sem programa nem companhia, pouco antes de começarem os jogos, decidi ir até Birmingham. Ainda não havia tanto movimento como durante os jogos, mas já se via muita gente, e também os resultados de tantos meses de obras.

 

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O programa, para ser completo, envolvia um bom almoço. Gosto de ir a restaurantes sozinha, gosto muito de ir a restaurantes de fine dining sozinha, é uma relação diferente com a refeição e com o que como. Não partilhar aqueles momentos com ninguém permite dar mais atenção a todos os detalhes da refeição e a mim, é como que um presente. 

A escolha recaiu sobre o Folium, um restaurante de que nunca tinha ouvido falar, mas do qual li boas referências. Ainda bem que assim foi. No site prometiam uma cozinha simples, com sabores limpos e usando ingredientes de alta qualidade. Foi isso que encontrei, num espaço também simples e com um serviço simpático e acolhedor.

Dois menus à escolha, um longo (14 pratos) e outro curto (9 pratos), escolhi o curto e fiquei com vontade de voltar para o longo.

 

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Lamb Tartare with English Wasabi

 

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Biodynamic Grains with Cultured Butter

 

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Amela Tomato with Bonito Vinegar and Shiso

 

O tártaro sobre uma pequena bolacha crocante de massa azeda. O pão, feito no restaurante, era excelente.  Quando trouxeram o tomate disseram-me que era um tomate japonês, com um maior grau de doçura e um sabor mais intenso. Posteriormente vi que os tomates Amela foram de desenvolvidos no Japão em 1996, são considerados tomates de alta qualidade e o método de produção define as suas características únicas. São produzidos em Espanha, e no site referem que associam a sofisticação e singularidade da cultura japonesa, com a vitalidade e força da cultura mediterrânica. Aqui eram servidos com um gel de dashi. Um prato muito fresco e delicado.

 

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Cornish Turbot cooked in Beef Fat with Baked Potato Butter

 

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Sirloin of Wagyu Beef with Yeast Béarnaise

 

O rodovalho servido de forma muito simples, apenas o peixe, mas com sabores fortes. A textura firme e o ponto de cozedura perfeitos. Na altura de servir regaram com um caldo rico em umami e com um sabor forte a batata assada. A combinação de sabores do peixe, gordura de vaca e batata assada, e a simplicidade e delicadeza do prato, resultavam em algo muito além do que a foto pode deixar adivinhar. Entretanto, enquanto comia, na mesa ao lado, onde serviam o menu longo com os vinhos sugeridos, apresentavam um vinho português, Pequenos Rebentos.

A carne, cozinhada a baixa temperatura 24 horas, era tenríssima, acho que a teria conseguido cortar só com o garfo. Acompanhava-a uma terrina de batata coberta com um molho Béarnaise, trufa negra de verão e um molho de carne. Mais uma vez sabores limpos, bem definidos e fortes.

 

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Iced Horseradish with Sorrel and Cucumber

 

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Sunflower and Birch Syrup

 

Primeiro um gelado de rábano com um molho de pepino e azedas, tudo muito pouco doce, por cima umas placas crocantes de leite, muito doces, que conferiam um contraste de textura e de doçura também. De seguida, um gelado de sementes de abóbora com um xarope de de bétula e crocantes de sementes de abóbora. Duas sobremesas leves, com sabores bem definidos, produtos e combinações pouco habituais. 

 

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Chocolate Tart with Cep Caramel

 

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Whiskey and Peat Butterfly Bun

 

O dois últimos pratos, muito pequenos, de facto podiam ser vistos como petit-fours, tinham a riqueza, complexidade e intensidade que associamos às sobremesas, assim como o detalhe da decoração, em apenas uma ou duas dentadas. O que acabava por os tornar leves, tal como o resto da refeição. Primeiro uma pequeníssima e intensa tarte de chocolate negro com um creme de caramelo de Boletus edulis, por cima um fragmento de uma espuma sólida de chocolate. Delicioso!

O seguinte, tinha sabores menos comuns para mim, um pequeno bolo com um creme com uma textura densa, sabores fortes de whiskey. Não sei como o peat é introduzido, talvez em fumo, talvez tenha sido usado um peaty whiskey. Também aqui os sabores fortes e o cuidado da decoração o tornavam delicioso.

Mas... há sempre um mas... no final pedi um chá. Não havia carta, a pergunta foi se queria preto ou verde, ou uma qualquer infusão de que não me lembro. Verde... mas a cor era estranha, e o sabor também. Não é que fosse desagradável, apenas não era o que esperaria de um chá verde. Perguntei que chá era e trouxeram-me um boião grande com o chá, sim eram folhas de chá verde, mas misturadas com flores e frutos secos. Mais uma vez, a confirmação de que, mesmo nos restaurantes exigentes na qualidade e forma de apresentação dos produtos que servem, o chá continua a não ser tratado com a atenção que merece.

 

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No final lembrei-me de um comentário que li. Dizia alguém que gostou muito, mas a quantidade da comida era pouca, que para não ficar com fome tinha pedido o prato de queijos que é oferecido opcionalmente (com um custo acrescido) com os menus. Compreendi... pensei que o pão me tinha salvo de terminar ainda com vontade de comer mais. Um pão daqueles era o que serviam numa mesa de duas pessoas. Eu tive a sorte de ter um só para mim, mas o que importava era que tinha tido uma refeição excelente, com combinações de produtos e sabores originais e de que tinha gostado muito. Uma refeição que me permitiu dar atenção a todos os detalhes do que comi e a mim, que foi como que um presente. 

Saí dali e fui dar um passeio nos canais. Dizem que Birmingham tem mais milhas de canais do que Veneza...

 

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10
Ago22

Ao tentar não ir a nenhum restaurante de cadeia, o menu veio com brinde!

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Estava um dia quente, estava a terminar um passeio de barco, era hora de almoço. Apetecia-me sentar a ver a baía, a beber uma cerveja e almoçar de seguida. Uma tarefa que não era tão fácil como parecia... apesar de haver imensos restaurante, com esplanadas e com cerveja...

O número de cadeias de restaurantes, cafés e coisas do tipo no UK é uma coisa quase inimaginável. Vi uma lista dos mais populares, onde estão mais de 100, e até era capaz de adicionar bem mais de uma dezena de nomes que lá não estão, talvez por terem menos restaurantes. Há de todos os tipos, para todos os gostos, e de preços variados. Estão por todo o lado, em qualquer cidade, sobretudo nas zonas mais frequentadas por visitantes, e nas zonas comerciais... os nomes são os mesmos, os menus também. Em Portugal também as há, algumas até são as mesmas, outras não, mas a escala é bem diferente.

Compreendo as vantagens - economia de escala nas compras e na produção da comida, acredito que são usadas cozinhas centrais e as refeições só são finalizadas nos restaurantes. Também permitem alguma consistência, os clientes sabem o que os espera, não só o que está disponível, como a qualidade, são consistentes em todas as lojas.

Reconheço até que algumas até têm propostas interessantes e ambientes engraçados, que por vezes dá jeito saber o que nos espera, que a relação preço qualidade também é boa em certos casos. Mas é tão bom experimentar coisas novas! Dou por mim muitas vezes a procurar restaurantes num dado local e a fazer a busca por "independent restaurants".

Uma semana de férias e uma decisão, tentar não ir a nenhum restaurante de cadeia, apenas independentes (ou pelo menos que os considerasse como tal, pois por vezes pertencem aos mesmos grupos).

No Mermaid Quay, na Baía de Cardiff, a tarefa não parecia fácil. Algumas dezenas de restaurantes e eu conhecia praticamente todos os nomes. Finalmente vi a Bayside Brasserie, uma esplanada num terraço, uma bonita vista, e  não conhecia o nome, não associava a nenhuma cadeia. A juntar a isto, um menu de almoço com um preço razoável. Estava decidido!

O menu até tinha coisas interessantes e adaptadas ao local. Olhei para a lista das bebidas, não tinha cervejas de pressão, e nem sequer artesanais. Mas... vinha com brinde! Uma das poucas cervejas de garrafa disponíveis  dizia-me muito!

 

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03
Ago22

As coisas que nos ficam na memória...

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Há tempos fui jantar ao Zindiya Streatery & Bar, um restaurante de street food indiana em Birmingham. O ambiente é descontraído e simpático, da comida podia dizer o mesmo. Já lá fui várias vezes, e o que comi não diferiu muito das vezes anteriores. 

Neste jantar mais recente, sentámo-nos, peguei na lista, olhei para a sala e vi passar um saco de plástico com uma palhinha e um líquido dentro. Veio-me imediatamente à memória o percurso para o cais em Singapura onde fui apanhar um barco para um passeio turístico. Lembro-me muito pouco do passeio, diria mesmo que nada me ficou na memória, aquilo de que claramente me lembro eram as dezenas de pessoas que iam apanhar outros barcos e que levavam na mão um saco de plástico com um líquido dentro e uma palhinha.

No Zindiya ao ver passar aquilo, disse de imediato "tenho mesmo que pedir esta bebida", também pensei "não é a forma mais sustentável de servir uma bebida". Mas o primeiro pensamento teve mais força. Chamei a empregada e pedi que me indicasse no menu o que era. Não era certamente o que vi nos sacos em Singapura, mas não importava, já era mais do que uma bebida, pois tinha associada uma camada de memórias e emoções.

Passado uns minutos tinha o meu cocktail de lima e limão, e uma série de pequenos pratos para o acompanhar, porque naquele dia a estrela foi mesmo a bebida, no saco de plástico.

 

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As coisas que nos ficam na memória... E como mais de uma década depois nos levam a tomar decisões....

 

 

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