Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Assins & Assados

Ingera - uma espera de 20 anos para o provar. Será que valeu a pena?

por Paulina Mata, em 12.05.19

IMG_20190406_142033.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

 

Passaram 20 anos desde que ouvi falar deste pão até o provar!  Mas a história é longa... Em 1995 foi lançado o site Epicurious da Condé Nast, que também tinha as revistas Bon Appétit e Gourmet. Talvez tenha descoberto o site porque por vezes comprava as revistas, não me lembro. Mas o que de facto despertou o meu interesse, e de que me lembro muito bem, foi o Forum de discussão e troca de receitas, o Gail's Recipe Swap.  Isto muito antes de sequer se pensar nas redes sociais atuais. Não havia dia que não acompanhasse (geralmente  várias vezes por dia) o que se passava no forum. Não participava muito, mas lia muito. Acho que foi lá que descobri que havia muita gente como eu, com uma grande paixão por cozinha e comida. Mas o que me fascinava era todo o conhecimento que tinham. Sabiam tudo! Foi com receitas de lá que no final da década de 1990 comecei a fazer fumados em casa e a cozinhar carne a baixa temperatura, e muitas outras coisas. Lá aprendi muitíssimo! Um dia fizeram mudanças no site, eu sei que tem que se evoluir, mas aconteceu-me ali o que já me aconteceu noutros locais, deixa de ser familiar, passo a ir menos, e um dia... nada dura para sempre.  Felizmente imprimi muitas das coisas que me despertaram a atenção e tenho vários dossiers com essas impressões. Hoje fui buscar um, fiquei com vontade de perder umas horas com eles.

 

Mas voltando ao assunto do post... Um dia alguém perguntou lá o que era Injera. Rapidamente apareceu quem soubesse tudo sobre Injera e o explicasse. Era um pão da Etiópia feito com farinha de Teff e fermentado. Uns crepes enormes (cerca de 50 cm de diâmetro), finos, mas esponjosos e macios. Esqueci-me de milhares de outras perguntas que fizeram, mas nunca da do Injera. Farinha de Teff era inacessível, nem sequer podia fazer para experimentar. Imaginei-o, mas apenas isso. 

 

Pouco tempo depois comprei o livro Flatbreads & Flavors de Jeffrey Alford e Naomi Duguid, um livro que me marcou muito. O Ingera era um dos flatbreads de que falavam e davam a receita. No meio de tantos pães se calhar nem teria reparado no Ingera, mas dado que antes as conversas no Gail's Recipe Swap me tinham chamado a atenção, reparei nele. Mas o livro tinha poucas ilustrações e nem uma foto tinha... Dizia contudo que o Injera era usada como uma superfície para comer, e que em pedaços era usado para recolher e embrulhar a comida que se ia metendo na boca. Interessante!

 

Há tempos a minha filha mais nova disse-me que tinha ido com uns amigos a um restaurante da Etiópia.Traziam um prato grande que punham no meio da mesa e toda a gente comia do mesmo prato com as mãos. Disse-me que achava que eu gostaria de lá ir. E gostava... a experiência parecia-me interessante, mas havia uma coisa que ela não tinha referido que me fazia ter muita vontade de lá ir. Certamente teriam Injera!

 

Foi assim que 20 anos depois entrei no Blue Nile em Birmingham com a grande expetativa de provar Injera.

 

IMG_20190406_135631.jpg

 

Pedimos, e pouco depois trouxeram um tabuleiro redondo grande coberto por um Injera e sobre ele a nossa refeição. Vinha também um cesto com metades de Ingera enrolados. 

 

IMG_20190406_141955.jpg

 

Começou a aventura!  Que acompanhei com uma cerveja da Etiópia.

 

IMG_20190406_140436.jpg

 

Primeiro fiz, para os meus acompanhantes, uma revisão das regras de boa educação para comer com as mãos:

- Tudo aquilo em que se pega é retirado e deve ser comido;

- Comer lentamente para não parecer que se está a querer ficar com a comida do vizinho;

- Comer só da zona do prato mais perto de nós;

- Só se usa mão direita e os dedos não tocam na boca;

- A porções que se levam à boca devem ser pequenas;

- Nunca se prepara novo pedaço, enquanto não se engolir o anterior.

 

Não digo que tenhamos cumprido rigorosamente todas as regras de boa educação. Mas não foi terrível também. No final não ficou nada para amostra, nem da comida, nem do Ingera sobre o qual ela estava,  nem dos Injera que nos trouxeram à parte.

 

Provar o Ingera foi uma experiência marcante! Valeu a pena, é um pão especial. Um sabor agradável, levemente ácido, mas sobretudo a textura extremamente macia e esponjosa, apesar de fino. Adorei!  

 

 

La Fauxmagerie - e os seus falsos queijos

por Paulina Mata, em 04.05.19

IMG_20190427_142038.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

 

Andava eu há dias a Flâner no Mercado de Brixton...

 

IMG_20190427_143850.jpg

IMG_20190427_141613.jpg

IMG_20190427_141646.jpg

IMG_20190427_143241.jpg

IMG_20190427_143247.jpg

IMG_20190427_143927.jpg

 

Quando de repente, inesperadamente, dou de caras com a La Fauxmagerie.

 

IMG_20190427_142028.jpg

 

A estória até podia ser assim, mas não foi. 

 

A La Fauxmagerie abriu em Londres no início de Fevereiro, surgiram de repente na imprensa imensos artigos sobre esta loja que vende "queijos" à base de plantas. Falavam do sucesso que fazia, das filas`porta... Fiquei curiosa e decidi que quando voltasse a Inglaterra lá iria com a minha filha. Aconteceu agora pela altura da Páscoa. Foi essa  razão que me levou ao mercado de Brixton. Já agora, depois de visitar a loja foi um prazer Flâner pelo mercado.

 

Voltando à loja, ela pertence a duas jovens irmãs uma delas intolerante à lactose e outra vegana. As duas gostavam de queijo e decidiram abrir um loja com produtos de qualidade, à base de plantas, desenvolvidos para substituir o queijo. O objetivo é oferecerem produtos para pessoas que por razões éticas ou de saúde não consomem queijo, e assim não tenham que ser privadas de um sabor e um hábito de consumo que tinham antes. Mas, para além disso, consideram que os produtos que vendem valem por si e que a sua qualidade os torna atraentes até para aqueles que comem queijo. Para além do falso queijo vendem também bom pão, compotas e um produto que imita o mel (dizem que muito bem).

 

Logo após a abertura a associação dos produtores de queijos ingleses (Dairy UK) contactou-as a pedir para removerem a palavra "cheese" e tudo o que estava relacionado com a loja. Dizem que é enganador. Elas responderam-lhes convidando-os a visitar a loja, pois teriam muito gosto em lhes mostrar e dar a provar os produtos que vendem. Disseram-lhes que havia espaço no mercado para todos.  Disseram ainda que a palavra "cheese" vem da palavras "kwat" do Proto-Indo-Europeu, que significa fermentado ou ácido, e que os queijos que vendem obtidos com base em cajus, ou outros frutos secos, e em soja, são também fermentados. Dá que pensar... E também dá que pensar porque é que os produtores de queijo se preocupam tanto com uma pequena loja no mercado de Brixton que vende produtos produzidos artesanalmente e em pequena escala, também por um conjunto de jovens.

 

Quando entrei na loja quase fiquei desiludida... era tão, tão pequena! Apenas um balcão com queijos que tinha menos de 1m2. Ainda tinha uma grande variedade, mas era meio da tarde de sábado e muitos já existiam em pequena quantidade. 

 

IMG_20190427_142226.jpg

IMG_20190427_142153.jpg

 

Provámos vários e fui ficando mais entusiasmada, valiam por si, eu comeria qualquer um deles com prazer. Saímos com um conjunto de queijos:

 

IMG_20190427_231447.jpg

 

Um tipo cammembert da Mouse's Favourite,  o Nerominded - Black Trufle da I Am Nut OK (uma base de caju fermentada, com carvão ativado e óleo de trufa negra). No interior uns veios dourados de curcuma e por cima também polvilhado com curcuma. Lindíssmo e bastante bom. Já que a minha foto não lhe faz justiça, aqui fica a foto do site.

 

NeroMinded_side.jpg

 

Trouxemos ainda outro queijo lindíssimo com espirulina da Kinda Co. 

 

Os quatro muito bons, com um aspeto atraente e que eu comeria por aquilo que valem.

 

Já tenho saudades...

 

IMG_20190427_143603.jpg

 

Hei-de voltar para Flâner mais um pouco no Mercado de Brixton e comprar mais uns queijos veganos.

 

 

Começar o ano com uma nova experiência gastronómica é um luxo! Apesar de tudo o resto...

por Paulina Mata, em 04.01.19

IMG_20190104_184500.jpg

 

cinzento.jpg

 

 

O ano começou bem para alguns vírus que resolveram achar que começar o ano comigo seria um bom programa... para mim não tão bem como para eles. Chegaram uns ainda em 2018 e instalaram-se. No início de 2019 chegaram outros. Consequências destes últimos? Nos primeiros 4 dias do ano só fiz uma refeição de jeito, o resto foi chá e torradas.

 

Tinha planeado logo no início do ano ir passar dois dias a Londres, conhecer coisas novas, revisitar antigas. Foram dois dias quase exclusivamente a chá e torradas. Mas havia que aproveitar! E como não vivemos só para comer, aproveitei para fazer outras coisas (não muito diferentes disso, muitas resumiram-se a comer com os olhos).

 

Tinha ouvido falar de uma zona que estão a recuperar por detrás da estação de King's Cross e resolvi ir até lá na manhã do 2º dia. Antes de ir fui ver exatamente onde era, o que haveria para o meu pequeno almoço de chá com torradas. Vi uma coisa que se chamava Le Café. Pesquisei o que diziam e se tinha a minha refeição favorita deste início de ano. Descobri coisas interessantes...

 

Cheguei e perguntei o que tinham para comer e a resposta foi: Nada. Precisava de comer. Depois de algumas voltas acabei por descobrir outro sítio. Torradas, manteiga e marmalade com um chá. Soube-me maravilhosamente. O pão era excelente e as torradas fantásticas.

 

Dei umas voltas por ali, tudo lojas de luxo, todas sem ninguém a não ser os empregados. Questionei-me quem são os clientes e a quem se dirigem. Existem certamente...

 

Queria voltar ao Le Café, mas quando ia a entrar lembrei-me que me tinha esquecido de levantar dinheiro e fui procurar uma máquina por ali. De repente, oiço muitas sirenes e vejo vários carros da polícia a chegar que se distribuem por todos os cantos da praça onde estava. Começaram a pôr fitas à volta da praça e gritavam para toda a gente sair dali. O polícia que estava mais perto disse-me para descer umas escadas e caminhar à beira do canal. Assim fiz. Quando hoje contei a história ao meu neto, que vai fazer este fim de semana 4 anos, ele perguntou-me se eram "Bad Guys". Também achei que fossem, mas depois de caminhar um pouco à beira do canal vi que havia outras escadas e muita gente em cima a olhar. Também subi para ver. Quando o estava a fazer ouvi um helicóptero que sobrevoou a praça e aterrou. Saíram umas pessoas com umas mochilas que entraram num carro da polícia, que arrancou com as sirenes ligadas a grande velocidade. Entretanto, como tudo estava calmo, consegui chegar mais perto do helicóptero e li "Advanced Trauma Team - Support London's Air Ambulance". Ficou tudo explicado. Curiosamente, e sobretudo considerando os tempos correntes, não houve nenhum pânico, as pessoas limitavam-se a ir embora calmamente.

 

IMG_20190103_125001.jpg

 

Voltei ao Le Café já com dinheiro na carteira. Sentei-me ao balcão (não tinha escolha, havia duas mesas na rua, mas estavam 4ºC). Uma tarefa complicada... ia caindo. Tenho falta de jeito para balcões, mas vi acontecer o mesmo a outra pessoa. Olhei para dentro e vi muitos panos da loiça e a garrafa do desinfetante, enquanto lá estive vi trocar a loiça da máquina de lavar. Nada que eu quisesse ver... Todas as razões para não gostar de balcões se aplicavam ali. 

 

IMG_20190104_185652.jpg

IMG_20190104_190022.jpg

 

O que é que me fez ali ir? Não foi castigar os vírus e ver se fugiam... Quando fui tentar ver o menu do Le Café, descobri que o proprietário era o Alain Ducasse. Há tempos resolveu rodear-se de pessoas competentes e lançar-se noutras áreas, a dos chocolates e, mais recentemente, na dos cafés. Compra aos produtores os grãos de ambas as coisas e faz todo o processamento em França para obter produtos com a qualidade que deseja. Abriu lojas monoproduto de chocolate em França, no Japão e mais recentemente em Londres. A de café é a primeira a abrir. Ali estavam, uma de chocolate e a de café, uma ao lado da outra. 

 

IMG_20190104_184809.jpg

 

Não bebo café, mas se me dizem que é de qualidade quero experimentar para ter referências. Comecei por entrar na de chocolates, mas os preços eram um pouco desencorajadores, tenho várias caixas de tabletes dos Cocoa Runners que ainda não abri, e a minha dieta de torradas com chá não os aconselhava. Sorte para a carteira.

 

Entrei no Le Café e vi a lista de bebidas:

 

IMG_20190104_185828.jpg

 

Os cafés expresso e de filtro, e mesmo cold brew, eu sabia o que eram, as bebidas com leite também (e não era qualquer leite, ouvi numa conversa com outros clientes que vinha da Normandia, pois só esse garantia a qualidade desejada), também não queria chocolate. Havia uma coisa que eu não fazia ideia do que era "Cascara", era certamente isso que queria. Perguntei o que era e explicaram-me que quando os grão de café são retirados das cerejas do café fica o resto da fruta que é muito pouco aproveitada, geralmente é um desperdício ou vai para compostagem. Mas fazem-se bebidas com os frutos nalguns locais e eles serviam-na. Foram buscar para ver, pareciam umas cerejas meio secas, tinham um cheiro agradável. Logo que vi o menu soube que era o que devia beber. Confirmava-se! Lá fora estavam 4ºC, pedi como chá quente. 

 

Foram buscar os frutos, pesaram-nos (tudo ali é pesado, o rigor para manter a consistência exige-o, vi pesar o café usado para cada dose), colocaram-nos num almofariz grande de pedra e moeram-nos com o pilão de pedra, depois meteram num filtro de vidro que que adaptava ao bule e por longos minutos foram deitando a água quente. Gostei do ritual, pena ter sido feito do outro lado do balcão com tanto pano da loiça e a garrafa do desinfetante pelo meio... Finalmente trouxeram-me a bebida, e um chocolate dos da loja ao lado para acompanhar.

 

IMG_20190104_185436.jpg

 

Deitei na chávena e quando ia a pegar quase entornei. A culpa não foi da minha falta de jeito... Achei que era vidro e a força com que peguei seria adaptada, mas a chávena era de um plástico muito leve. Pena... Mas adorei a bebida. Mais parecida com um chá do que com um café e muito frutada. Perguntei o que era "como whisky" disseram-me que era mais xaroposo e servido gelado (vi depois em fotos com pedras de gelo). No final foram ao frigorífico e ofereceram-me um pouco numa chávena para provar. O sabor era mais intenso.

 

Entraram e saíram várias pessoas, umas consumiram as bebidas ao balcão, outras levavam-nas em copos de papel para consumir fora. O empregado era excelente, explicava tudo com grande paixão.

 

Um produto bom, um bom empregado, rituais e histórias para contar que podem tornar o produto mais interessante. Preços (pelo menos alguns) de luxo. E servem-no a um balcão onde os panos da loiça, o desinfectante, o trocar da loiça (e até um técnico que foi ver o lava loiças) são o espectáculo que temos... Não!

 

Há investigação publicada que já provou que o peso do recipiente em que as coisas são servidas está relacionado com a percepção que temos da qualidade delas. Mais pesado e percepcionamos o produto como tendo mais qualidade. Aquelas chávenas leves (e os copos de papel) não ajudavam a incrementar a percepção de qualidade.

 

Em qualquer café Costa ou Starbucks, ou até Mc Donald, há pequenos recantos com sofás, mesas baixinhas e outras mais altas... que dão uma sensação de conforto. Como é que numa loja de um produto que é apresentado como de elevadíssima qualidade, e o preço de luxo, o conforto do cliente não é nenhum? As lojas que vendem produtos médios cada vez são mais confortáveis, lojas como esta que vendem produtos de luxo são cada vez menos confortáveis. Há aqui algo que não bate certo... Coisas que me intrigam. Coisas que não entendo. 

 

Hei-de voltar noutra visita, não fiquei com a referência do que é um café de filtro em que uma bebida custa 15 libras, e tenho que a ter...

 

 

 

Cotswolds Single Malt Whisky - ser o Batch 01/2018 (first ever) dá-lhe um sabor especial

por Paulina Mata, em 30.10.18

 

cotswold whisky.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

Enquanto escrevo estou a beber whisky, o que é pouco habitual. Nunca bebi este tipo de bebidas, não conhecia nada, e as experiências que tinha tido nunca me deixaram particularmente entusiasmada. Porém, tenho um genro que viveu sempre na Escócia, gosta de whisky, particularmente do escocês, e é bastante exigente com a qualidade do que bebe. No ano que passei em Inglaterra foi-me dando a provar vários bons whiskeis e, mais do que isso, tive oportunidade de saber mais sobre o processo de produção de cada um e também de comparar whiskeis com características diferentes.

 

Um dia, em Agosto, fomos até aos Cotswolds, um região lindíssima, com pequenas e belíssimas aldeias, em que tudo é em tons de amarelo dourado.

 

cotswolds 1.jpg

cotswolds 2.jpg

IMG_20180821_152300.jpg

IMG_20180821_152416.jpg

 

Foi para os Cotswolds que foi viver Dan Szor, um nova-iorquino que trabalhou no meio financeiro em Londres, quando decidiu que era altura de mudar de atividade e ter uma vida mais calma. Gostava bastante de whisky e decidiu juntar o útil ao agradável e fundar a sua própria empresa. Perto de sua casa construiu a sua destilaria e criou a sua equipa, todos sem experiência na área, mas com vontade de aprender. E bem aconselhados começaram a trabalhar em Julho de 2014, usando equipamentos e ingredientes tradicionais e conhecimento actual. 

 

Uma pequena destilaria, a Cotswolds Distillery, rodeada de jardins com plantações de lavanda, onde produzem essencialmente Whisky e Gin, mas também outras bebidas.

 

IMG_20180821_123855.jpg

IMG_20180821_123754.jpg

 

E é aqui dentro que quase tudo se passa:

 

IMG_20180821_113445.jpg

 

Usam apenas cevada produzida na região e maltada no chão. Em cada lote é indicada a proveniência do malte. O da minha garrafa veio da Barringhton Park Farm. A cevada é maltada pela empresa de maltagem mais antiga em Inglaterra pelos processos tradicionais, e levada para a destilaria onde é moída e misturada com água a quente em recipientes de aço. Sendo-lhe adicionados então dois tipos de fermentos, selecionados de forma a obterem o perfil aromático desejado. Ali fermenta 90 horas, nos primeiros dois dias a levedura transforma os açúcares em álcool até se atingir um teor alcoólico de 8%, e depois é a vez das bactérias fazerem o seu trabalho e serem produzidos compostos que contribuem para as características organoléticas do whisky.

 

IMG_20180821_113414.jpg

IMG_20180821_113140.jpg

 

É então a vez da primeira destilação ocorrer, em destiladores de cobre com 2500 litros de capacidade, em que a água é separada do álcool que tem dissolvido os compostos aromáticos.

 

IMG_20180821_113304.jpg

 

Em seguida, há um outro processo de destilação em que removem as frações menos desejáveis (o início e o fim) de forma a obter um produto de qualidade e com as características pretendidas. O produto obtido nesta fase tem um teor alcoólico de 75%, é misturado com água desmineralizada até atingir os 63,5%. É então colocado em cascos de carvalho que lhe vão conferir características próprias. Aí fica a envelhecer e maturar alguns anos.

 

IMG_20180821_113627.jpg

 

Descobri lá que os tanoeiros com que trabalham são portugueses, a empresa J. Dias de Espinho.

 

IMG_20180821_115004.jpg

IMG_20180821_114955.jpg

 

A destilaria abriu em 2014 e o 1º whisky foi comercializado em 2018. É este o lote que estou a beber - Batch Nr. 01/2018 the first ever!  É muito interessante estar a beber o primeiro produto de uma empresa, e ainda mais depois de associá-lo a um espaço e de conhecer o local onde foi produzido. Não sou grande conhecedora de whisky, mas o que sei é que gosto muito dele, muito suave e aromático.

 

Mas era preciso ir rentabilizando o espaço e ir fazendo algum dinheiro, lançaram-se assim na produção de gin, e também aqui o objetivo era ter um produto de qualidade, usando dez vezes mais botânicos do que é habitual.  O Cotswolds Dry Gin foi considerado o World's Best London Dry nos World Gin Awards 2016. 

 

IMG_20180821_113331.jpg

 

 

 

Eucryphia lucida, Tasmânia... a culpa é do mel!

por Paulina Mata, em 13.10.18

Leatherwoodhoneybee.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

Nunca tinha ouvido falar da Eucryphia lucida, também conhecida por Tasmanian Leatherwood.  Uma árvore de tamanho médio ou um grande arbusto comum na Tasmânia.

 

Eucryphia-lucida-Tasmanian-Leatherwood.jpg

 

Aliás, para ser franca, sabia que a Tasmânia era na Austrália, mas nem era capaz de a localizar, e muito menos sabia que era uma ilha separada do resto do território da Austrália. Pois esta árvore, nativa da Tasmânia, é a principal planta cujo néctar é lá usado pelas abelhas para produzir o mel, cerca de 70% do mel da Tasmânia é de Leatherwood. Há dias, deram-me a provar um mel Leatherwood da Tasmânia e o impacto foi tal que me levou a querer saber mais.

 

IMG_20181010_214611.jpg

IMG_20181010_214754.jpg

 

Eu gosto de mel, se me pedissem para dizer uma coisa que associasse a uma comida conforto, era provável que dissesse pão com manteiga e mel. A minha Mãe dava-nos frequentemente para o lanche pão com manteiga com um fio de mel por cima. De vez em quando ainda o como. Delicioso!

 

Bem, mas deixando estas memórias de lado, e voltando ao mel da Tasmânia... Era fluído mas espesso, com pequeníssimos cristais que o tornavam cremoso e se desfaziam na boca. O sabor era diferente de todos os outros, por isso foi até incluído na Arca dos Sabores do Slow Food. Muito floral, um leve sabor a especiarias, um sabor complexo. Delicioso!  Daqueles sabores cuja memória persiste ao longo do tempo, e de que de vez em quando nos lembramos, e nos apetece mais...

 

Não vou dizer quem me deu, senão ainda aparece toda a gente a pedir para provar o mel. Mas um dia destes, como quem não quer a coisa, apareço para almoçar e jantar... e quem sabe comer um pouco mais de mel da Tasmânia.

 

 

1ª Foto DAQUI

2ª Foto DAQUI

 

Leite de Camela e Tâmaras

por Paulina Mata, em 22.05.18

IMG_20180519_155324.jpg

 

beige.jpg

 

Eu sei que vivemos na época do local... também gosto, e acho que se deve valorizar o que é local. Mas também gosto muito do que vem de outras paragens. Não provei o leite de camela, mas foi a primeira vez que o vi a vender assim.

 

Na mesma loja, do lado de fora, estavam uns frutos do tamanho de ameixas. Suspeitámos o que eram, mas fomos confirmar. Tâmaras frescas.  Foi a primeira vez que as vi, trouxemos umas e provámos. Gostei mesmo muito! Fez-me lembrar uma pêra rija, mas com um aroma diferente.

 

IMG_20180520_101424.jpg

 

 

Caixas de tâmaras secas havia muitas. Está a decorrer o Ramadão e tradicionalmente o jejum quebra-se com tâmaras.

 

IMG_20180522_231636.jpg

 

Viva a diversidade! Adoro a possibilidade de ter acesso a todas estas coisas de outras culturas e de outras paragens deste mundo.

 

 

Comprei e abri com alguma ansiedade... Iriam as rillettes satisfazer as minhas expectativas?

por Paulina Mata, em 10.03.18

 

rillette.png

 

castanho escuro.jpg

 

Se me perguntarem as memórias de sabores mais marcantes das minhas primeiras idas a França, digo sem hesitar: Rillettes e Saucisson. Relativamente ao saucisson, o sabor e aspecto tão diferentes dos nossos enchidos, era mesmo uma descoberta. É que se agora uma grande variedade destes produtos está disponível, há quase 40 anos não eram acessíveis. Quanto às rilletes, aquele sabor rústico, os pedaços de carne a desfazerem-se, a cremosidade da gordura... uma delícia! Por vezes vou comprando rillettes, mas nem sempre me satisfazem as expectativas.

 

Hoje, no supermercado, houve uma embalagem na prateleira que me chamou a atenção, era mais ou menos assim:

LN_682759_BP_11.jpg

Comprei, e quando cheguei abri, com alguma ansiedade... Iriam satisfazer as minhas expectativas? Iriam estar à altura das minhas memórias (eventualmente romanceadas) das primeiras viagens a França? E não é que estavam! Maravilhosas!

 

Enquanto as comia fui vendo a embalagem e encontrei o endereço do site da empresa que as comercializa, a unearthed. O fundador,  depois de muito viajar pelo mundo, resolveu, em 2008, tornar acessíveis no UK algumas das coisas que tinha comido. Para isso procuram pequenos produtores, tentam descobrir os melhores, as coisas são produzidas nos países de origem com a marca deles, que as trazem para Inglaterra, sendo a distribuição limitada (Waitrose e Ocado). Quanto às rillettes, são feitas por um produtor premiado de Le Mans. 

 

Gostei muito do site, estive a ver os vários produtos e fiquei com vontade de experimentar mais. Também pensei que gostava de ver ali algumas coisas nossas, mas não consegui decidir o quê...

 

 

PS

Fui ao site do Ocado e gostei muito de ver isto: Ocado Modern Slavery Statement

 

As duas fotos são DAQUI

 

Como é que eu vivi sem isto até hoje? As coincidências que me abriram a porta para o mundo do chocolate.

por Paulina Mata, em 13.02.18

IMG_20180206_121610.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

Há duas semanas no suplemento sobre comida do The Guardian  que sai ao sábado - Feast - li uma secção que se chama How I Eat, em que há uma pessoa que diz o que geralmente come ao pequeno almoço, almoço, jantar e em snacks. Lia aquilo e só pensava "Mas porque carga de água foram escolher para isto uma pessoa que obviamente não gosta de comer?". No final, já na parte dos snacks, referiu, com algum entusiasmo, uns chocolates que andava a comer. Eram quatro e vinham na última caixa que tinha recebido da Cocoa Runners. Apesar de ser a única parte interessante do que disse, não voltei a pensar nisso. Uma semana depois comprei a National Geographic Food, que tinha um artigo sobre chocolate. No final do artigo sugeriam cinco sites a visitar. O primeiro de todos era dos Cocoa Runners e dizia "Members' club selling bean-to-bar chocolate from around the world, plus smart gifts and tasting courses." Imediatamente me lembrei do senhor que odiava comer, mas pertencia a este club. Fui ver do que se tratava.

 

No site falavam do que está a mudar no mundo do chocolate, a que chamavam a revolução do chocolate. Falavam de pequenos fabricantes que adquirem cacau a pequenos produtores, e que transformam as favas do cacau em tabletes numa escala pequena, falavam dos altos padrões de qualidade e da diversidade dos chocolates que produziam. Diziam que adquirir estes chocolates não era fácil, e por isso eles iniciaram o projeto Cocoa Runners. Sendo a missão deles descobrir e tornar acessível. Assim, correm o mundo para conhecer quem produz o cacau e fabrica as tabletes. Dizem que desde 2013 já provaram mais de 6000 tabletes diferentes e dessas escolheram as melhores. Que neste momento têm para venda 800 diferentes de mais de 80 fabricantes. Fui à página dos fabricantes, 94, não conhecia quase nenhum. Aliás, que tenha consciência disso, só comi chocolates de 4 deles.

 

Conclusão, era mesmo disto que eu estava a precisar na minha vida! Chocolates de qualidade, diferentes, e quem mos mostrasse com algum critério. Tudo isto à distância de um click e, claro, do número do cartão de crédito. Mas a despesa nem era grande, por 18.95 libras por mês recebia em casa 4 tabletes criteriosamente escolhidas, com informação sobre os produtores, os fabricantes e notas de prova. Mais, prometiam que não repetiam as tabletes, que desde que começaram já mandaram nas caixas mensais mais de 250 chocolates diferentes. Fiz logo a minha subscrição, e 3 dias depois o carteiro enfiava pela caixa do correio esta caixa com 4 tabletes (1 de chocolate de leite e 3 de chocolate preto).

 

O chocolate de leite, de cacau de Madagascar, produzido por um dos dois únicos fabricantes de chocolate em Madagascar, a Menakao; do Peru, um cacau albino que esteve quase extinto e está a ser recuperado, para a tablete produzida pela Original Beans, uma empresa holandesa; cacau da Jamaica foi transformado numa deliciosa tablete em Inglaterra pela Pump Street Chocolate, finalmente cacau da República Dominicana foi transformado pela empresa catalã Blanxart. Todos completamente diferentes, uns frutados, outro com notas de caramelo, rum e passas, e ainda outro com notas de frutos secos. Maravilhoso!

 

IMG_20180206_122618.jpg

 

 

Como é que eu vivi sem isto até agora? Espero ansiosamente que o carteiro traga a próxima!

 

 

Tão simples, tão bonito, tão saboroso!

por Paulina Mata, em 03.02.18

IMG_20180202_095535.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

Esta infusão de menta com mel produzido localmente já me fez voltar muitas vezes ao local onde a servem.

 

Pequenas coisas que fazem a diferença.

 

Tão simples, tão bonito, tão saboroso!

 

 

 

Chocolates "Single Estate" e a sua Fascinante Diversidade

por Paulina Mata, em 26.08.17

 

ch1.jpg

 

castanho escuro.jpg

 

Há ainda relativamente pouco tempo o chocolate era visto quase como assunto de crianças ou de mulheres, consoante o tipo de chocolate. Felizmente houve quem o levasse mais a sério e agora a diversidade e a qualidade acessíveis a todos são bem maiores.

 

aqui tinha falado em tempos de chocolates da Willie's Cacao, e há dias encontrei uma caixa que achei muito interessante. O conteúdo eram 5 tabletes single estate, com características diferentes, mas todas com teores de sólidos de cacau semelhantes - entre 69% e 72%, e ainda um mapa com a localização de cada uma das propriedades e da fábrica e mais alguma informação.

 

 

ch2.jpg

 

Comprei, e pensei logo fazer uma prova de chocolates para nos apercebermos das diferenças e tentar traduzi-las em palavras. Notámos as diferenças, expressá-las foi mais complicado... é mesmo muito difícil encontrar palavras para transmitir estas diferenças de sabores e aromas. Identificámos também o que gostávamos mais. 

 

ch5.jpg

 

Mais tarde, na viagem de comboio de regresso, fizemos o teste ao contrário. Já conhecíamos os chocolates, já conhecíamos as características e o objetivo era identificar, perante a informação na embalagem, qual era qual. Aqui os resultados já foram melhores 3 certos em 5, ou seja cada um de nós trocou 2, que curiosamente não foram os mesmos.

 

ch3.jpg

ch4.jpg

 

Foi divertido, e muito educativo. De certeza que vamos fazer mais sessões destas.