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Assins & Assados

Vale a pena ler. E pensar...

por Paulina Mata, em 19.05.19

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Várias vezes já aqui falei de Jay Rayner, e alguns dos meus posts foram inspirados por artigos seus. Frequentemente leio críticas que faz a restaurantes, ou outros dos seus artigos, e tenho lido alguns dos seus livros. Gosto muito do que escreve, não porque concorde sempre com ele, embora em muitas coisas concorde, mas porque gosto da atitude irreverente e do humor, de ler a sua perspetiva (por vezes diferente da minha) sobre vários temas, e porque me faz pensar.

 

Ontem, ao dar uma vista de olhos ao The Guardian  dei com uma entrevista dele. Li-a com interesse, e passado umas horas voltei a lê-la. Houve coisas que me fizeram pensar.

 

Quando lhe perguntaram o que era mais importante transmitir ao leitor sobre a sua experiência num dado restaurante sobre o qual a crítica estava a fazer, respondeu:

My column is about how much pleasure (or otherwise) your money will buy you, and that’s what I have to communicate. But to do so, as with all journalism, I have to find the story. It might be about the rise and fall of Chinese restaurants, or the joy of stumbling across a great place by accident. I need an idea to hook it on. It’s definitely not a score-based forensic analysis, which would be tedious to read. It is, first and foremost, a writing job, not an eating job. You need to put the reader in the seat next to you.

 

De facto, frequentemente, me sinto quase à mesa dele, devido às expressivas descrições das sensações ao comer os vários pratos. Achei interessante a afirmação "It is, first and foremost, a writing job, not an eating job."  Penso que é essa a razão que me faz ler as suas críticas a restaurantes a que nunca fui, ou ponha sequer a hipótese de ir. Críticas como as que ele refere como "score-based forensic analysis", são de facto pouco interessantes. Mais do que saber se o prato estava no ponto, ou se tinha sal a mais ou menos, é importante entender o contexto, usar a crítica para fazer pensar, contribuir para alargar a perspetiva com que olhamos não só para aquele restaurante, mas para outros de que ele nunca falou. 

 

Há muitos, muitos anos, comprava a revista brasileira Gourmet e lia avidamente as críticas a restaurantes em São Paulo. Nunca estive em São Paulo e nessa altura nem sequer se punha a possibilidade de poder pagar aqueles restaurantes, mesmo que lá pudesse ir. O que me fazia lê-las com tanto interesse era o que aprendia nelas, pelo facto de quase me sentir transportada para aquela situação, a forma como o que lia expandia os meus conhecimentos e expetativas, para além do que as minhas próprias experiências permitiam. Ler aquelas críticas foi fundamental para a minha formação. Quando comecei a ir a restaurantes daquele nível, tinha uma experiência prévia pelos olhos de outros que me permitiam analisar e avaliar cada situação de uma forma diferente.

 

Quando leio no The Guardian online as críticas de Jay Rayner, chama-me sempre a atenção o número de comentários, algumas centenas. Raramente os leio, é quase impossível, de modo que foi com curiosidade que li a seguinte pergunta e respetiva resposta.

 

You have a consistent dialogue with readers about your column and your reviews. Can you tell us about that and why you think it’s important?

It’s not so much that I regard it as important as unavoidable. Failing to engage with commenters below the line or on social media is to ignore the way the world has changed. It’s a conversation, however much some of that conversation may drive me nuts.

 

Fui ver em diagonal os comentários a algumas das críticas mais recentes. Encontrei de facto alguns comentários de Jay Rayner, os que vi não correspondiam a um envolvimento em discussões sobre problemas levantados pelos comentadores, mas em respostas a questões postas pelos comentadores. Ainda assim transmite um pouco a sensação de que segue os comentários, de que eles são importantes.

 

Sempre que vou ao blog Salsa de Chiles reparo que  Carlos Maribona também participa muito nos comentários. Estes são muito menos do que as várias centenas nas críticas de Jay Rayner, mas ainda assim é uma coisa em que sempre reparei com admiração. Dantes escrever passava-se apenas num sentido e havia pouca possibilidade de interação com os leitores, hoje, como refere Jay Rayner, a falta de envolvimento nos comentários é ignorar a forma como o mundo mudou. Acredito que é importante haver regras sobre a forma de conduta nas respostas, mais do que ser a resposta de cada um, estão a representar o órgão de comunicação em que escrevem. Por mais exasperantes que os comentários sejam, é importante não "perder a cabeça", é importante respeitar os leitores (mesmo quando eles vão além do que seria desejável).

 

Já agora, e noutra área, sempre me chocou um pouco não só o alheamento, como também nalguns casos o descontrolo, revelados por restaurantes e chefes sobre o que é escrito sobre eles.  Várias vezes me questionei se não é uma forma de arrogância, e se não seria desejável estabelecerem uma maior empatia e cumplicidade com os clientes. É importante ouvir, mostrar que se ouviu e por vezes mostrar aos clientes outras perspetivas, mas respeitando-os. Mais uma vez é importante não "perder a cabeça", haver regras de conduta cuidadosamente estabelecidas e seguidas.

 

Divertiu-me ler as regras impostas por Jay Rayner a quem o acompanha nas visitas aos restaurantes cuja crítica vai fazer, o que lhe permite socializar com amigos, mas com regras.

It gives me the perfect opportunity to catch up with friends. They just have to know (a) that we’re having the works; you can’t say “no dessert for me”; (b) I get to taste everything they order; and (c) I’m the one writing the column, so while I’m vaguely interested to hear their thoughts, they’re only there to keep me company.

 

Em tempos tinha lido num dos livros dele que inclusivamente são informados daquilo que é aceitável que digam aos empregados de mesa quando perguntam se está tudo bem. Nada de muito explicito num sentido ou noutro. Nada que comprometa Jay Rayner no que vai escrever a seguir. Como ele diz, ele é quem vai escrever a crítica, as outras pessoas estão ali para lhe fazer companhia.

 

Também a resposta que dá à pergunta relacionada com comentários que por vezes se ouvem relativa à futilidade de comer fora é interessante. Trata-se de normalidade, e esta deve ser celebrada.

During difficult times in the world, what do you think is the importance of eating out?

I am a strong believer that we are capable of holding two thoughts in our head at the same time. We can be appalled by, say, the situation in Syria, while also being displeased by the poor cooking of a steak. The former does not make the latter irrelevant because at base we all aspire to living normal, comfortable lives, untroubled by conflict or social exclusion. A meal out is a mark of that normality, and normality should be celebrated.

 

Vale a pena ler. E pensar...

 

PS

O título da entrevista não é nada feliz...

 

 

Não me parece que a intenção seja a mesma... e não gostei...

por Paulina Mata, em 16.03.19

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Há dias fui ao aeroporto, passei junto ao Starbucks e vi este poster. Achei interessante, lembrei-me de um post que escrevi recentemente e fiquei contente por cá se começar também a incentivar as pessoas a levarem o seu próprio copo, até porque o desconto era convidativo. De repente olhei melhor e verifiquei que o desconto apenas se aplicava a quem tivesse copos ou termos daquela cadeia. Seria? Entrei e fui perguntar. Confirmaram-me isso. Para não haver dúvidas perguntei se se eu trouxesse de casa outro copo faziam desconto. A empregada, simpaticamente, disse-me que não fariam desconto, mas serviam o café e eu estava a contribuir para melhorar o ambiente.

 

Dei meia volta e enviei um sms à minha filha a pedir-lhe que confirmasse se em Inglaterra se passava o mesmo. Tinha quase a certeza que não, tanto que há várias cadeias a fazer o mesmo e ninguém andaria com um copo de cada uma. No dia seguinte ela entrou num café da mesma cadeia e foi perguntar. O desconto aplica-se quando se leva qualquer copo, seja deles, seja de outra cadeia, seja a caneca que trouxe de casa. Ainda passou numa loja, que vende termos e copos para estas situações e tirou uma foto da informação sobre o desconto que as várias cadeias ofereciam.

 

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Como se pode ver o desconto é maior cá que no café da mesma cadeia em Inglaterra. Curiosamente o copo é mais caro cá (2 euros, segundo fui informada) do que em Inglaterra (1 libra). Curiosamente também, em Inglaterra cobram mais 5p a quem pede a bebida em copos descartáveis.

 

O espírito em Inglaterra é, ou pelo menos é essa a imagem que transmitem, o de incentivar a consumir menos produtos descartáveis, a produzir menos lixo. O espírito cá, apesar de nos quererem transmitir que é idêntico, parece ser o de fidelizar clientes. Se cá várias cadeias fizessem o mesmo, tínhamos que andar com um copo de cada?!

 

Sinceramente não gostei, era melhor um desconto menor e estendê-lo a todos os que levavam o seu próprio copo, assim fazia sentido. Desta forma, para mim, não faz pois parece-me que a intenção é bem diferente do que a que pretendem transmitir. 

 

 

 

 

A minha estranha relação com o bacalhau

por Paulina Mata, em 17.02.19

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Era certo e sabido que à sexta feira a hora da refeição era tensa. Em criança / adolescente vivia numa pequena localidade da Beira Baixa, a disponibilidade de peixe não era a atual e, lá em casa, à sexta-feira não se comia carne. Recorria-se frequentemente ao bacalhau. Não gostava de bacalhau, não queria comer, mas a minha Mãe insistia que comesse... Eu não conseguia achar graça aquilo...

 

Hoje como bacalhau, com gosto. Mas se, de repente, me perguntarem se gosto de bacalhau, e me derem apenas uns segundos para responder, não responderei com convicção que sim. Talvez até diga que não, também se convicção. Hoje como bacalhau, e gosto, de alguns pratos gosto muito. Contudo, raramente cozinho bacalhau.

 

Lembro-me de ter saudades de bacalhau num ano em que vivi fora, quase há 30 anos. Vim no Natal e levei um bacalhau. Fiz pastéis de bacalhau, bacalhau assado, bacalhau à Braz...

 

Considerando esta minha estranha relação com o bacalhau, nunca me aventurei por aquelas partes "menos nobres" deste - caras, línguas, sames... Nunca entraram na minha cozinha, nem na da minha família. Lembro-me de uma das minhas irmãs (cujo aniversário seria hoje) me dizer que estava a cozinhar caras de bacalhau. Fiquei com a cara meio franzida, não achei de todo atraente (e continuo a achar que nunca comi). Há uns anos comi sames, adorei! Nunca cozinhei, mas já voltei a comer várias vezes. Gosto daquela textura. 

 

Há umas semanas, para uma demonstração de emulsões para uma aula, um dos meus alunos (por sinal brasileiro) sugeriu fazer um pil-pil com línguas de bacalhau. Tive que admitir que nunca tinha cozinhado línguas de bacalhau, nem as sabia cozinhar, ele fez.

 

Uns dias depois fui ao supermercado e vi à venda línguas de bacalhau. Achei que era altura de lhes dar uma oportunidade, e trouxe uma embalagem. Fiz línguas de bacalhau panadas. Gostei de ficar mais "esperta" com a experiência de cozinhar uma coisa diferente. Souberam-me bem com um arroz de tomate* com pimento. Mas a sensação continua a ser a mesma - gosto, mas... Nem sei o que é o mas... mas que há sempre alguma resistência, há.

 

Ao lado estavam embalagens de sames, um dia destes dou-lhes a oportunidade de entrarem na minha cozinha.

 

 

* Pois, eu sei que não é altura do tomate, mas usei tomate em conserva. A atual obsessão com a sazonalidade às vezes quase leva a que se esqueçam coisas bem importantes e interessantes.

Em miúda lembro-me de na época do tomate a minha Mãe fazer conserva de tomate em casa. Vivíamos numa localidade pequena da Beira Baixa, o acesso a vários produtos era limitado. No quintal havia muito tomate no verão, que não consumíamos todo, fazia-se conserva para o inverno e também  muito doce de tomate (o único que havia, a par da marmelada).  Gosto deste conhecimento, e do engenho e arte para desenvolver técnicas para conservar alimentos, e dos novos sabores desses alimentos.

O sabor do tomate em conserva no inverno faz parte das minhas memórias gastronómicas e não tenho nada contra ele, antes pelo contrário. E, já agora, temos mesmo ótimas conservas de tomate produzidas pela indústria alimentar.

 

 

1ª foto adaptada DAQUI

 

 

A quantidade de lixo que fazemos é absurda. Mudar hábitos não é fácil, mas é necessário.

por Paulina Mata, em 08.02.19

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Esperava o comboio, ao meu lado estava um homem entre os 35 e os 40 anos. Na mão tinha um copo com uma bebida quente. Antes do comboio chegar acabou  bebida, "fechou" o copo, e guardou-o na mochila. Passou-se há umas semanas na estação de comboios de Birmingham.

 

Nesse mesmo dia fui pedir uma bebida numa cafetaria de uma cadeia conhecida. Perguntaram-me se era em chávena de loiça ou para levar e, neste caso, se tinha a minha própria caneca. Os preços seriam diferentes. Quase todas as cafetarias, das várias cadeias em Inglaterra, vendem canecas re-usáveis, e fazem desconto a quem leva a sua própria caneca reusável.

 

Esta semana, numa reunião para organização de um evento, um ponto ficou assente, não podia haver plástico descartável. Representantes de várias universidades referiram que nas suas universidades já não há eventos com plástico descartável. Não é permitido.

 

Começou-se a tomar consciência do impacto de todo o desperdício que fazemos. Por vezes é difícil mudar de hábitos. Mas aos poucos eles acabam por mudar. Quando compro uma garrafa de água, e umas horas depois outra... começo a sentir um certo peso na consciência por estar a contribuir para aumentar o desperdício de plástico. As minhas filhas andam com uma garrafa  de metal que enchem diariamente. Ainda não me habituei a isso. Talvez daqui a uns anos, ou uns meses, ande também com uma garrafa e uma caneca na carteira. 

 

Lembro-me sempre com alguma ternura de um copinho de plástico colapsável que a minha Mãe tinha sempre no tablier do carro para nos dar água durante as viagens. Ninguém vai recordar com ternura as garrafas de plástico da água. 

 

A quantidade de lixo que fazemos é absurda. E, sobretudo, não é necessária.  Mudar hábitos não é fácil, mas é necessário.

 

 

 

 

 

O mundo é grande! E o que podemos experienciar limitado...

por Paulina Mata, em 05.02.19

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Estava a arrumar umas fotografias e encontrei esta. Tirei-a em Agosto numa mercearia em Leicester, em Narborough Road, uma rua que dizem ser oficialmente (signifique isso o que significar) considerada a rua com mais diversidade na Grã-Bretanha. Dizem que o mundo está naquela rua. Não diria tanto, mas a diversidade é grande e vive (aparentemente) em paz, lado a lado. 

 

Quando vi estas coisas enormes (penso que com quase 30 cm de diâmetro) não percebi logo o que eram.

 

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Demorei algum tempo (e a etiqueta ajudou) até entender que eram sementes de girassol.  Sempre as tinha visto apenas em saquinhos com alguns gramas. Limpas, bem distantes do seu local de origem. Achei fascinante. Senti que tinha ganho o dia. Que tinha ficado mais rica!

 

Recordei-me também de apenas ter tomado consciência de que os amendoins nasciam debaixo da terra quando li este artigo da Alexandra Prado Coelho. Nunca tinha pensado de onde viriam... 

 

Agora, ao rever a foto, dei comigo a pensar como comentamos com espanto o facto de muitas crianças não relacionarem o peito de frango com um frango vivo a cacarejar, e outras coisas do género.

 

Se calhar não é tão chocante assim. Nós relacionamos, pois faz parte das nossas experiências de vida. Mas há tanta coisas igualmente óbvia que nunca relacionámos, porque não fazem parte da nossa experiência de vida. Não será normal? 

 

 

O mundo mudou muito, mas ali nem tanto. Acho que fui eu que mudei mesmo...

por Paulina Mata, em 29.01.19

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O balcão da carne era impressionante, sobretudo o canto onde estavam as peças de Wagyu dos EUA e Kobe do Japão.

 

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Os preços também eram impressionantes, 650 £ por 1 kg de carne Kobe do Japão.

 

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Se calhar justifica-se. Se calhar vale a pena! Não sei, não provei e não vou provar. 

 

A dois passos estavam as trufas, o foie e o caviar... e muito mais.

 

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Até os vegetais eram vendidos com estilo.

 

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O café era torrado ali, em frente dos nossos olhos, numa sala com as paredes envidraçadas. E o chá... não vamos por menos do que por uma mistura personalizada.

 

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Estava no Food Hall do Harrods. Havia ali de tudo, era fácil gastar o ordenado inteiro e nem sequer comprava jantar para muita gente. E ainda tinha que o cozinhar... Não corri o risco. Não comprei absolutamente nada. Nem eu, nem as dezenas de pessoas que por ali andavam. Alguns saíram com um pacotito de chá ou uma compota.  Muito poucos vi a comprarem o que mostrei. Eu, se pudesse (é que não posso mesmo), não era ali que ia comprar, no meio da multidão de turistas que por ali andava a ver. Como eu. 

 

Lembro-me das primeiras vezes que ali fui, do impacto daquele espaço e daquele luxo. Da excitação de ver ao vivo e a cores muitas coisas que nunca tinha visto. Muitas vezes ali voltei. Agora há uns anos que já lá não ia.

 

Não sei se mudou, não sei se fui eu que mudei. Possivelmente fui eu. Mas fez-me lembrar um circo de comida. Não achei tão atraente como me lembrava de ter achado. Pronto, também já vi muita coisa e até as comi, sem ter que as cozinhar, e muito bem cozinhadas.

 

Nas várias salas há balcões, porque também ali se pode comer. Filas para muitos deles. Primeiro meia hora, pelo menos, em pé na fila, depois o desconforto dos bancos, e depois comer com a sensação de que há uma fila à espera que saiamos dali. E uma multidão de turistas a olhar. Uma experiência muito pouco atraente...

 

Pensando bem... 1 quilito da dita carne dava para um jantar com wine pairing no The Fat Duck. Isso eu sei que vale a pena, e é bem mais a meu gosto.

 

O mundo mudou muito, mas ali nem tanto, tudo é mais ou menos como me lembro de outras épocas. Acho que fui eu que mudei mesmo...

 

 

 

Os prémios e a fama e as suas consequências

por Paulina Mata, em 26.01.19

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Este foi o primeiro cachorro que comi na cervejaria Gazela, foi em Fevereiro de 2010. Foi fácil encontrar a foto, pois é um exemplo que uso numa cadeira de desenvolvimento de produtos alimentares que dou. A salsicha, a linguiça, o queijo, tudo levemente picante e dentro de um pão crocante. Tudo bons motivos para fazer um cachorro apetitoso e com sucesso, mas não é nada disto que me faz usar este cachorro como um caso que mereça ser referido nas aulas. O mais interessante, do meu ponto de vista, é a forma como partem o cachorro, em pequenos troços. É isso que o distingue, pois altera completamente o paradigma do que é comer um cachorro. Não é mais uma sandes, passa a ser um petisco que se consome de uma forma diferente, permite um envolvimento diferente e convida ao convívio e à partilha. Já lá passei à porta algumas vezes à hora de almoço e sempre vi fila de clientes. Ouvi dizer que abriram do outro lado da rua um novo espaço. O anterior era pequeno, um balcão com cerca de uma dúzia de lugares e mais uns lugares em pé.

 

Posto isto, está claro que gosto muito e reconheço valor ao cachorro da Gazela e o seu sucesso. Contudo, há dias quando vi que estava nomeado para os novos prémios da gastronomia The World Restaurant Awards para a categoria House Special  fiquei incrédula. Os cachorros são um dos 5 pratos nomeados no mundo todo, não conheço os outros, mas não vejo justificação. Não é pela qualidade dos produtos usados (vulgar pão, salsicha, linguiça e queijo), nem pela criatividade ou técnica e, a não ser que tenha mudado no novo espaço, não é sequer um restaurante, é um snack bar.

 

Quando tomei conhecimento da nomeação, lembrei-me imediatamente de um artigo que tinha lido uns dias antes, I Found the Best Burger Place in America. And Then I Killed It, sobre um pequeno restaurante de hamburgueres, numa pequena cidade dos EUA, que foi considerado por um jornalista o melhor hamburguer da América depois de ter feito uma pesquisa que envolveu 330 restaurantes em 30 cidades. A procura foi tanta que não deram conta do recado e acabaram por fechar* menos de seis meses depois.

 

Hoje li outro artigo no The Guardian, The problem with food tourism: the chefs fighting to keep their restaurants special, sobre o impacto que prémios como as estrelas Michelin, ou até uma fama obtida por comentários nas redes sociais, podem ter nalguns restaurantes. Refere os problemas que põem e a dificuldade de lidar com eles nalguns casos. Voltei a lembrar-me, com alguma preocupação, do caso da Gazela.

 

Entretanto, li que a razão para a Cervejaria Gazela abrir o segundo espaço, foi terem aparecido no programa da CNN Parts Unknown do Anthony Bourdain. O público, que acredito que na maioria fosse local, aumentou muito e tornou-se mais diversificado. Foi impossível lidar com isso no primeiro espaço, abriram um segundo espaço que logo encheu também.

 

Assim, às dúvidas: "porque razão os cachorros da Gazela?", "qual o objetivo dos prémios e quais os critérios de escolha?", adicionei as dúvidas: "que impacto é que isto vai ter?" e "será que o impacto destes prémios e listas é suficientemente avaliado?". Porque vai ter impacto, quer ganhe, quer não ganhe. Espero que consigam lidar com isso... mas preocupa-me. Numa época em que tanto se fala de sustentabilidade, era bom que esse conceito também fosse tido em conta nestas situações e se avaliasse bem o impacto destas distinções.

 

*Aparentemente não foi só esta a razão, mas as razões adicionais surgiram já depois de ter lido o artigo.

 

 

Umas coisas acabam, outras começam...

por Paulina Mata, em 12.01.19

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Comecei a ir ao restaurante Cova Funda há cerca de 42 anos, tantos quantos o tempo de vida deste restaurante. Era assim como que um porto seguro, onde encontrava uma cozinha familiar e bem feita, ali mesmo à esquina, onde ia quando me apetecia uma comida conforto, quando não me apetecia cozinhar, quando não queria ir mais longe. Há dias cheguei de uma pequena estadia em Inglaterra, à hora do jantar disse "Não há nada em casa (o que significa que não me apetecia fazer nada, pois há sempre qualquer coisa), vamos ao Cova Funda". Virámos a esquina e percebemos logo que estava fechado, as luzes não estavam acessas. Fomos a outro sítio, uns minutitos mais a andar. O polvo com castanhas e ervilhas tortas e o coelho com cogumelos fizeram-me esquecer o assunto, mas ficou um pressentimento estranho. Em 42 anos, nunca tinha visto o Cova Funda fechado durante a semana.

 

Hoje de manhã fui às compras, passei pelo mercado, que em tempos era bem movimentado, e pelo menos metade das bancas estavam fechadas. O movimento era pouco. Saí e entrei na Terrapão, uma padaria que abriu há dias no mercado de Arroios. Pão com bom aspeto, comprei um que era tão bom quanto o aspeto que tinha.

 

Pelo caminho para casa vinha a pensar que tudo muda e se o mercado estava em fase decrescente, tudo à volta dele tinha uma vida como nunca ali tinha visto e uma oferta bem interessante. Há muitos anos que me lamentava de perto de casa não ter bom pão e ali estava ele. Lembrei-me do Cova Funda. Resolvi lá ir para ver o que se passava. Tinha fechado, um papel na porta dava essa informação. Da última vez que lá estive, há umas semanas, comi este frango de fricassé. Passei à porta à hora do almoço, quando regressava de uma consulta,  não estava a pensar lá almoçar, mas quando olhei para o menu e vi que tinham frango de ficassé entrei. Há muito que não comia este prato. Apetecia-me o conforto do tão esquecido frango de fricassé. 

 

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Para ser franca, das duas vezes em que lá estive desde que regressei em Setembro, senti algo diferente. Difícil de definir, pouco palpável. Tudo estava bom, cuidado... mas sentia-se na comida um certo cansaço. A cozinha tem a incrível capacidade de transmitir estas coisas...

 

Umas coisas acabam, outras começam. É esta dinâmica que torna a vida interessante. Obrigada Cova Funda por 42 anos de boas refeições.

 

 

 

Porque há Assins & Assados que marcam os dias... Três Anos Depois...

por Paulina Mata, em 04.01.19

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Tomei consciência agora que hoje é 4 de Janeiro. Ou seja, o Assins & Assados faz três anos hoje!  Vai começar, um novo ano desta aventura que é ter um blog!

 

No primeiro post escrevi:

 

E com a mudança que tem ocorrido no mundo, na gastronomia, na vida... acho que preciso de pensar, de reflectir, de descobrir o que sinto. De certa forma preciso de repensar tudo. Escrever ajuda a aprofundar e arrumar ideias. Este é um dos objectivos deste espaço, que será sobretudo vocacionado para um tema que me apaixona: o que comemos e como comemos... mas que não tem que ser exclusivamente dedicado a ele.

 

O objetivo principal continua esse, mas acho que estou tão confusa como no início... Tudo continua a mudar de forma bastante acelerada. Demasiado...

 

Também escrevi:

 

Ao longo do tempo fui descobrindo que o que escrevo, sobretudo sobre experiências, me ajuda a aprofundá-las e funciona como um arquivo dessas mesmas experiências. Um arquivo onde posso voltar sempre que preciso ou quero. Onde encontro sempre detalhes que a memória e a voracidade dos dias não permitiram manter vivos. E é bom revivê-los...

 

Continua a ter esta função...

 

Mas o mais importante é agradecer a quem está do outro lado do ecrã. Como já tinha dito antes, obrigada aos que comentam, é óptimo trocar impressões convosco. Obrigada aos que não comentam mas, quando me encontram, me dizem que lêem o Assins & Assados (por vezes nem nos conhecíamos pessoalmente antes). É muito gratificante. Obrigada aos que não comentam, mas lêem (eu também leio regularmente vários blogs que nunca, ou raramente, comentei).

 

Até já!

 

PS

Todos os posts têm que ter uma foto, ontem vi esta escultura em Londres e gostei. Achei que era uma boa imagem para comemorar o terceiro aniversário do Assins & Assados.

 

 

 

 

Começar o ano com uma nova experiência gastronómica é um luxo! Apesar de tudo o resto...

por Paulina Mata, em 04.01.19

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O ano começou bem para alguns vírus que resolveram achar que começar o ano comigo seria um bom programa... para mim não tão bem como para eles. Chegaram uns ainda em 2018 e instalaram-se. No início de 2019 chegaram outros. Consequências destes últimos? Nos primeiros 4 dias do ano só fiz uma refeição de jeito, o resto foi chá e torradas.

 

Tinha planeado logo no início do ano ir passar dois dias a Londres, conhecer coisas novas, revisitar antigas. Foram dois dias quase exclusivamente a chá e torradas. Mas havia que aproveitar! E como não vivemos só para comer, aproveitei para fazer outras coisas (não muito diferentes disso, muitas resumiram-se a comer com os olhos).

 

Tinha ouvido falar de uma zona que estão a recuperar por detrás da estação de King's Cross e resolvi ir até lá na manhã do 2º dia. Antes de ir fui ver exatamente onde era, o que haveria para o meu pequeno almoço de chá com torradas. Vi uma coisa que se chamava Le Café. Pesquisei o que diziam e se tinha a minha refeição favorita deste início de ano. Descobri coisas interessantes...

 

Cheguei e perguntei o que tinham para comer e a resposta foi: Nada. Precisava de comer. Depois de algumas voltas acabei por descobrir outro sítio. Torradas, manteiga e marmalade com um chá. Soube-me maravilhosamente. O pão era excelente e as torradas fantásticas.

 

Dei umas voltas por ali, tudo lojas de luxo, todas sem ninguém a não ser os empregados. Questionei-me quem são os clientes e a quem se dirigem. Existem certamente...

 

Queria voltar ao Le Café, mas quando ia a entrar lembrei-me que me tinha esquecido de levantar dinheiro e fui procurar uma máquina por ali. De repente, oiço muitas sirenes e vejo vários carros da polícia a chegar que se distribuem por todos os cantos da praça onde estava. Começaram a pôr fitas à volta da praça e gritavam para toda a gente sair dali. O polícia que estava mais perto disse-me para descer umas escadas e caminhar à beira do canal. Assim fiz. Quando hoje contei a história ao meu neto, que vai fazer este fim de semana 4 anos, ele perguntou-me se eram "Bad Guys". Também achei que fossem, mas depois de caminhar um pouco à beira do canal vi que havia outras escadas e muita gente em cima a olhar. Também subi para ver. Quando o estava a fazer ouvi um helicóptero que sobrevoou a praça e aterrou. Saíram umas pessoas com umas mochilas que entraram num carro da polícia, que arrancou com as sirenes ligadas a grande velocidade. Entretanto, como tudo estava calmo, consegui chegar mais perto do helicóptero e li "Advanced Trauma Team - Support London's Air Ambulance". Ficou tudo explicado. Curiosamente, e sobretudo considerando os tempos correntes, não houve nenhum pânico, as pessoas limitavam-se a ir embora calmamente.

 

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Voltei ao Le Café já com dinheiro na carteira. Sentei-me ao balcão (não tinha escolha, havia duas mesas na rua, mas estavam 4ºC). Uma tarefa complicada... ia caindo. Tenho falta de jeito para balcões, mas vi acontecer o mesmo a outra pessoa. Olhei para dentro e vi muitos panos da loiça e a garrafa do desinfetante, enquanto lá estive vi trocar a loiça da máquina de lavar. Nada que eu quisesse ver... Todas as razões para não gostar de balcões se aplicavam ali. 

 

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O que é que me fez ali ir? Não foi castigar os vírus e ver se fugiam... Quando fui tentar ver o menu do Le Café, descobri que o proprietário era o Alain Ducasse. Há tempos resolveu rodear-se de pessoas competentes e lançar-se noutras áreas, a dos chocolates e, mais recentemente, na dos cafés. Compra aos produtores os grãos de ambas as coisas e faz todo o processamento em França para obter produtos com a qualidade que deseja. Abriu lojas monoproduto de chocolate em França, no Japão e mais recentemente em Londres. A de café é a primeira a abrir. Ali estavam, uma de chocolate e a de café, uma ao lado da outra. 

 

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Não bebo café, mas se me dizem que é de qualidade quero experimentar para ter referências. Comecei por entrar na de chocolates, mas os preços eram um pouco desencorajadores, tenho várias caixas de tabletes dos Cocoa Runners que ainda não abri, e a minha dieta de torradas com chá não os aconselhava. Sorte para a carteira.

 

Entrei no Le Café e vi a lista de bebidas:

 

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Os cafés expresso e de filtro, e mesmo cold brew, eu sabia o que eram, as bebidas com leite também (e não era qualquer leite, ouvi numa conversa com outros clientes que vinha da Normandia, pois só esse garantia a qualidade desejada), também não queria chocolate. Havia uma coisa que eu não fazia ideia do que era "Cascara", era certamente isso que queria. Perguntei o que era e explicaram-me que quando os grão de café são retirados das cerejas do café fica o resto da fruta que é muito pouco aproveitada, geralmente é um desperdício ou vai para compostagem. Mas fazem-se bebidas com os frutos nalguns locais e eles serviam-na. Foram buscar para ver, pareciam umas cerejas meio secas, tinham um cheiro agradável. Logo que vi o menu soube que era o que devia beber. Confirmava-se! Lá fora estavam 4ºC, pedi como chá quente. 

 

Foram buscar os frutos, pesaram-nos (tudo ali é pesado, o rigor para manter a consistência exige-o, vi pesar o café usado para cada dose), colocaram-nos num almofariz grande de pedra e moeram-nos com o pilão de pedra, depois meteram num filtro de vidro que que adaptava ao bule e por longos minutos foram deitando a água quente. Gostei do ritual, pena ter sido feito do outro lado do balcão com tanto pano da loiça e a garrafa do desinfetante pelo meio... Finalmente trouxeram-me a bebida, e um chocolate dos da loja ao lado para acompanhar.

 

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Deitei na chávena e quando ia a pegar quase entornei. A culpa não foi da minha falta de jeito... Achei que era vidro e a força com que peguei seria adaptada, mas a chávena era de um plástico muito leve. Pena... Mas adorei a bebida. Mais parecida com um chá do que com um café e muito frutada. Perguntei o que era "como whisky" disseram-me que era mais xaroposo e servido gelado (vi depois em fotos com pedras de gelo). No final foram ao frigorífico e ofereceram-me um pouco numa chávena para provar. O sabor era mais intenso.

 

Entraram e saíram várias pessoas, umas consumiram as bebidas ao balcão, outras levavam-nas em copos de papel para consumir fora. O empregado era excelente, explicava tudo com grande paixão.

 

Um produto bom, um bom empregado, rituais e histórias para contar que podem tornar o produto mais interessante. Preços (pelo menos alguns) de luxo. E servem-no a um balcão onde os panos da loiça, o desinfectante, o trocar da loiça (e até um técnico que foi ver o lava loiças) são o espectáculo que temos... Não!

 

Há investigação publicada que já provou que o peso do recipiente em que as coisas são servidas está relacionado com a percepção que temos da qualidade delas. Mais pesado e percepcionamos o produto como tendo mais qualidade. Aquelas chávenas leves (e os copos de papel) não ajudavam a incrementar a percepção de qualidade.

 

Em qualquer café Costa ou Starbucks, ou até Mc Donald, há pequenos recantos com sofás, mesas baixinhas e outras mais altas... que dão uma sensação de conforto. Como é que numa loja de um produto que é apresentado como de elevadíssima qualidade, e o preço de luxo, o conforto do cliente não é nenhum? As lojas que vendem produtos médios cada vez são mais confortáveis, lojas como esta que vendem produtos de luxo são cada vez menos confortáveis. Há aqui algo que não bate certo... Coisas que me intrigam. Coisas que não entendo. 

 

Hei-de voltar noutra visita, não fiquei com a referência do que é um café de filtro em que uma bebida custa 15 libras, e tenho que a ter...