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Assins & Assados

Um restaurante em época de Covid

por Paulina Mata, em 10.07.20

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Pouco tenho saído. Idas a restaurantes... zero nos últimos quatro meses! Até hoje de manhã. Agora passou a ser uma ida. E espero ir-lhe juntando muitas outras nos próximos tempos.

 

Hoje de manhã tive que ir para a zona do Parque das Nações. O compromisso que me levou lá foi durante a manhã e decidi a seguir fazer um programa que não fazia há muito, passear à beira do rio e depois almoçar por ali, antes de regressar (a casa e ao trabalho). Assim foi...

 

Depois do percurso junto ao rio, caminhei pela Rua do Bojador. Ainda era cedo, ninguém nos restaurantes. Entrei no Cantinho do Avillez, só estava uma mesa ocupada, sentei-me na esplanada, tirei a máscara e depois... Tudo foi normal. Se ir ao restaurante se assemelha de certa forma a ir ao hospital, como tantas vezes ouvi? Não, assemelha-se a ir ao restaurante. Os rituais são os mesmos, e o ambiente pouco diferente. É verdade que havia frascos de desinfetante em todas as mesas, é verdade que os empregados tinham máscara pretas. Mas se isso há quatro meses seria estranho, agora é normal.  

 

Chegou o couvert.

 

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Há mais de quatro meses que uma tal coisa não fazia parte das minhas experiências! Que bem me soube!

 

Os clientes foram chegando... e quando a minha entrada chegou já o movimento das mesas à volta se fazia sentir, o ruído das conversas, o vai e vem dos empregados.

 

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Estes pastéis de bacalhau com vatapá lembraram-me outros, e um post adiado...

 

Foram chegando mais pessoas. Quando o meu prato de vieiras com batata doce, espargos e tomate chegou, quase todas as mesas da esplanada estava ocupadas e  na sala também já não havia muitas livres.

 

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O burburinho nas mesas, as conversas, algumas de gente que não se via há muito (alguns não resistiram mesmo  à chegada a quebrar por instantes o aconselhado isolamento social), tudo como é característico de um restaurante. Não, a experiência não é deprimente, como muita gente receou. 

 

O almoço terminou com um leite creme com laranja e baunilha.

 

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Enquanto comia esta sobremesa conforto, fui pensando no conforto de estar de novo sentada num restaurante, usufruir da experiência completa. É tão bom!

 

Os hambúrgueres do Noma - se calhar há alguma coisa que não estou a ver bem, mas...

por Paulina Mata, em 17.05.20

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Há dois dias recebi um email do Noma. Dizia o seguinte:

On Thursday, May 21st, at 1pm, we will open an outdoor wine bar in our beautiful gardens at noma, overlooking the lake we share with our neighbors in Christiania. Come as you are, there are no reservations, we are open for everyone. You can stop by for a glass of wine, or you can stay for more, and if you get hungry we have two burgers on the menu: the noma cheeseburger and the noma veggie burger. Both are juicy and packed with umami, with a little bit of magic from our fermentation cellar, served on a freshly baked potato bun developed by our friends at Gasoline Grill. 

 

Explicava ainda que o Noma, tal como o conhecíamos iria abrir mais tarde, pois, entre outras coisas, precisavam de algumas semanas para pôr a máquina a funcionar de novo. Tal é compreensível, acontece com muitos restaurantes de fine dining e, sobretudo, com aqueles que dependem de um turismo gastronómico que vai demorar a arrancar de novo.

 

Quanto ao bar de vinhos e hambúrgueres, fiquei incrédula. Mais do que isso, foi um balde de água fria. Depois disto vi muitos artigos, posts... a informar do mesmo, quase não vi (o que não quer dizer que não haja, não procurei exaustivamente) comentários sobre tal opção.

 

O Noma  é um restaurante com duas estrelas Michelin que, desde 2006, quase invariavelmente, está no ranking do The World's 50 Best Restaurants. Pelo menos 7 desses anos esteve num dos primeiros 3 lugares, sendo que 4 vezes esteve no primeiro lugar. O René Redzepi teve um papel determinante no movimento da Nova Cozinha Nórdica. O Noma é um restaurante que sempre se caracterizou pelo Tempo e o Lugar - o local, o sazonal, o que é nórdico. Tem uma cozinha complexa, conceptual, sofisticada e com uma estética própria. No início do livro "Time and Place in Nordic Cuisine", num texto introdutório de Olafur Eliasson, um artista plástico, é dito que se pode considerar que quem come no Noma contactará com uma nova linguagem, uma linguagem que adquire significado pela forma de cada um a usar, ou seja, consoante cada experiência individual de gosto.

 

Por estas razões, no mesmo livro, é referido que os clientes que jantam no Noma devem sentir uma intensa sensação de tempo e de lugar. Esta deve ser o ponto de partida, o núcleo, a primeira camada. Seguir-se-ão uma série de camadas extras de pensamentos conceptuais sobre os pratos, tal como a inovação, a técnica e a equipa certa.

 

Fizeram tábua rasa de tudo isto? Não esperava um Noma em ponto pequeno, mas não há nada do Noma, da sua alma, conceito,  estética e criatividade nesta nova oferta? Onde está o Tempo e o Lugar se no país do Smørrebrød oferecem Hamburgers?

 

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Onde está o Noma neste hambúrguer? Posso até estar enganada, mas não acho honesto, acho até que revela desleixo e preguiça.
 
 
Não posso concordar mais com um comentário no instagram de René Redzepi que diz: 
 
I deeply appreciate your work and this idea of inclusivity - but healing with burgers? Wish the commoners were allowed a taste of your elegant magic too (zazie_stevens)
 
 
1ª Foto do email do Noma
2º Foto do Instagram de René Redzepi

 

As laranjas, a nossa contribuição para a forma como o mundo come e um bolo

por Paulina Mata, em 26.04.20

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Foi há já muitos anos que na Turquia reparei que o nome das laranjas, Portakal, fazia lembrar o do nosso país. Aliás, isso ainda era mais notório quando os vendedores anunciavam o seu produto nas bancas que vendiam sumos de laranja e de romã. Foi até isso que me chamou a atenção. Na altura procurei saber a origem do nome e descobri que estava de facto relacionado com Portugal, as laranjas doces tinham sido levadas pelos portugueses.

 

Estava há dias  a ler o livro Oranges de John McPhee, que a certa altura dizia (numa tradução/adaptação minha):

Só relativamente recentemente as laranjas, nos países ocidentais, começaram a ser consumidas como comida. Na Europa a sua popularidade anterior parece ter sido baseada nas características ornamentais das suas árvores e no aroma inspirador da casca e flor. À mesa, elas eram usadas como tempero para carne e peixe e raramente consumidas de outra forma. Antes de 1500, os produtores de laranja Europeus produziam principalmente laranja amarga, porque eram mais aromáticas, melhores como tempero, e portanto mais valiosas.

[...]

Por essa altura [século XIV], os navios Portugueses voltaram da Índia com árvores de laranjas doces, e um novo tipo de laranjas disseminou-se pela Europa. Começou a ser conhecida como laranja Portugal, e rapidamente substituiu a laranja amarga em popularidade por todo o continente. A palavra "Portugal" tornou-se sinónimo de laranjas boas e doces em numerosos países e, de facto, as laranjas continuam a ser chamadas Portugal na Grécia, Albânia, Roménia, partes do Médio Oriente, e algumas partes de Itália.

Na maior parte da Europa Ocidental, a estima pelas laranjas Portugal foi menos duradoura. Um século depois das primeiras árvores terem vindo da Índia, os monges missionários portugueses enviaram informações da China de que as laranjas chinesas eram mais doces do que o próprio açúcar. Um jesuíta português escreveu que "as laranjas de Cantão podem muito bem ser uvas moscatel disfarçadas".
 
Em 1635, uma laranjeira Chinesa chegou a Lisboa e, em pouco tempo, a laranja da China - um termo ainda usado em muitos países para designar uma laranja fina e doce - era procurada em toda a Europa. O nome botânico da laranja doce moderna, de facto, é Citrus sinensis.
 
 
Duas coisas me vieram logo à cabeça ao longo desta leitura, a primeira a marmalade inglesa. Nos pequenos almoços nos cafés em Coventry, quando lá estava, frequentemente comia torradas com manteiga e marmalade. A pergunta era sempre "Jam or marmalade?", claro que era marmalade, o seu sabor doce e amargo quase me faziam arrepiar, mas adorava. Era exótico... outra cultura... mas o que é estranho é que a origem do produto e do nome parece ser a nossa marmelada. E agora quando lá irei de novo tomar o meu pequeno almoço de torradas com marmalade? Tinha há meses uma viagem programada para Maio, mas que não vai acontecer.
 
Depois, mais à frente, fez-me pensar no facto de termos espalhado as laranjas pelo mundo, de isso ter sido tão marcante que em muitos países o nome delas é Portugal. Até fui fazer uma busca:
Turco - Portakal;  Romeno - Portocala; Albanês - Portokall; Georgiano - Portokhali; Grego - Portokali; Macedónia - Portokal e Persa - Porteqal.
Possivelmente ainda há mais exemplos. Penso que a maioria das pessoas não tem a noção de tudo isto. Admirável como um país tão pequeno como o nosso contribuíu para a forma como se come por todo o mundo.
 
Também pensei no facto da laranja ter sido pouco introduzida na nossa cozinha e doçaria. A torta de laranja da minha Mãe era maravilhosa, o bolo que regava ainda quente com sumo de laranja com açúcar também. Mas de repente nenhm outro exemplo me veio à ideia. O que veio foi um bolo de laranja cuja receita descobri há uns anos e me deixou muito curiosa, na altura fiz várias vezes, depois nunca mais. Leva uma laranja inteira, com casca e tudo, só se tiram as sementes. A laranja é cozida durante uma hora, aproveitei e cozi logo 3 laranjas e também 3 clementinas (que achei que equivaliam a uma laranja), o puré de cada está no congelador para repetir  o bolo nos próximos tempos. A receita original era com sementes de papoila, mais tarde comecei a fazê-lo com amêndoa moída, com a casca castanha, desta vez misturei algumas sementes de papoila com amêndoa moída, e por cima pus um resto de uma embalagem de amêndoa lascada (estou apostada em limpar a dispensa). Ficou tão bom!  Breve vou experimentar com as clementinas.

 

Bolo de Laranja Inteira

1 laranja

3 ovos

250 g de açúcar

150 g de farinha com fermento

2 colheres de sopa rasas de sementes de papoila (ou 50 g de amêndoa com pele ralada)

 

1 - Ponha a laranja numa panela e cubra com água. Leve ao lume a cozer durante 1 hora, até que a casca fique bem mole. Caso seja necessário vá deitando mais água a ferver para que a laranja fique sempre coberta.

Corte a laranja ao meio, retire os caroços e moa-a (incluindo a casca) com um copo batedor ou a varinha mágica.

2 - Bata os ovos com o açúcar até a mistura ficar esbranquiçada e espessa.

3 - Adicione o puré da laranja e as sementes de papoila (ou a amêndoa ralada) e bata mais um pouco.

4 - Usando uma colher de metal grande envolva a farinha.

5 - Deite em forma de bolo inglês previamente untada e com o fundo forrado. Leve a cozer durante cerca de 45 minutos. Desenforme e deixe arrefecer.

 

 
 

Não consigo imaginar uma cidade sem restaurantes, mas vivo atualmente numa cidade assim... como será o futuro?

por Paulina Mata, em 16.04.20

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Não consigo imaginar uma cidade sem restaurantes. Mas vivo atualmente numa Lisboa sem restaurantes, sem cafés, sem esplanadas... Numa Europa sem restaurantes, sem cafés, sem esplanadas... Num Mundo em que em grande parte não há restaurantes, nem cafés, nem esplanadas... Não acharia possível estar mais de um mês sem ir a um restaurante, um café, uma esplanada... Contudo, há um mês que não vou a nada destas coisas.

 

Há um mês que não saio de casa. Tenho a sorte de não me custar nada estar em casa. Tenho até redescoberto o prazer de voltar a cozinhar mais. Não é mesmo o estar em casa que me incomoda, mas a incerteza do que vem a seguir, de como vai ser...

 

Adoro comer, adoro conhecer sempre mais sobre comida, adoro restaurantes, que me deram sempre a oportunidade de comer e conhecer mais sobre comida. E um bom restaurante faz milagres quando a vida não corre bem... Tenho-me perguntado como vai ser, o que lhes vai acontecer no futuro. A única certeza que tenho, que acho que todos têm, é que vai ser difícil e longo até tudo voltar a ser como era... que possivelmente nada vai ser como era. Pensar isto causa-me um certo desconforto, faz-me pensar em tanta gente que conheço neste meio e que devem estar a passar um período bem difícil. Que, como eu, sabem que vai ser difícil e longo até tudo voltar a ser como era... que possivelmente nada vai ser como era. Se a mim me causa desconforto e alguma ansiedade, imagino a todas elas e todos eles.

 

Hoje li um artigo que achei muito interessante, que me marcou o dia,  terminava assim:

After all, the real danger the restaurant industry faces isn’t annihilation – the danger is that it comes back the same as it was before.

 

Nunca tinha pensado nisto desta forma, mas reparei que o murro no estômago dos últimos tempos me fez esquecer que muito do que se passava com o negócio dos restaurantes, bastante bem descrito no artigo, me causava, como cliente, um tão grande desconforto e algum desinteresse. Será mesmo que o perigo real que a indústria de restaurantes enfrenta não é aniquilação - o perigo é que ela volte da mesma forma que era antes? Será esta uma oportunidade de repensar tudo e mudar? Quem sabe...

 

Como um amigo me dizia hoje à noite "Nada é permanente, excepto a mudança". Respondi mandando o dito artigo. Leiam que vale a pena. Dá que pensar... e nesta altura é preciso pensar!

 

Restaurants will never be the same after coronavirus - but that may be a goos thing

Jonathan Nunn - The Guardian

 

 

Escrever sobre quê?

por Paulina Mata, em 28.03.20

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Tinha planeado escrever um post este fim de semana. Achei que o tema surgiria quando me sentasse. Mas tudo parece um pouco despropositado. Dei uma vista de olhos a outros blogs. Pouco li, muita coisa parecia fora de época e de contexto. Outro mundo, que era a nossa realidade há dias, mas que já não é. Será que algum dia vai ser de novo?

 

Escrever sobre quê? Perguntei-me. Sobre o que estamos a viver, bastam as notícias que lemos e ouvimos. Que dizer mais? É suficientemente brutal e violento, está tudo dito. Dentro de casa tentamos viver uma qualquer normalidade. Apesar de ser uma normalidade pouco normal, às vezes tem vantagens... De tanto trabalho não tem dado para pensar muito, há horas em que vivo numa bolha. Não me queixo, esta quase normalidade chega a ser confortável, e lembra-me a sorte que tenho - trabalho e em segurança. Faz-me admirar ainda mais aqueles que cuidam da nossa saúde e os que nos permitem manter esta quase normalidade, e também aqueles que de repente acordaram na incerteza absoluta. Às vezes parece um pesadelo e que ao acordar tudo estará bem... mas não...

 

Uns falam das gavetas que já não têm para arrumar mais, tenho a sorte de ainda não ter arrumado nenhuma e ter muitas para arrumar. Distração garantida por muitas semanas, se necessário for. Para já, como a encomenda de comida que fiz só chega daqui a uns dias, achei que era útil ir intercalando o que comprei com o que há muito (por vezes anos) está esquecido no congelador e nos armários. Vou escolhendo 3 ou 4 coisas por dia, se não está bom vai para o lixo. Se está, come-se.

 

Sentei-me para escrever, mas escrever sobre quê? Voltei ao armário, encontrei um pacote de puré de batata em flocos aberto. A validade tinha acabado há já uns anitos. Provei. Estava bom. Arranjei-lhe logo destino, aquele para o qual devia ter sido comprado. Não me lembro, foi já há vários anos... Meio quilo de farinha, o resto dos flocos de batata, fermento sal e água. Saiu um pão macio, mas chewy (nunca soube como traduzir...), delicioso! E o armário ficou mais vazio... e o pão rendeu um pouco mais...

 

Tirei também uns restos de chocolates, alguns já com bloom... Mas quem se importa com isso numa altura como esta? Tinha um pacote de corn-flakes aberto, da última vez que o meu neto cá esteve. Há menos de um mês, combinei até quando iria visitá-los. Quando o verei agora? Parti o chocolate em pedaços, um pouco mais de 100 g, meti no micro-ondas para derreter, juntei três mãos bem cheias de corn-flakes e misturei, misturei... até todos os pedaços estarem cobertos de chocolate. Deu-me um prazer especial fazê-lo. Aqueles movimentos repetitivos, mas com um objetivo. Fútil, se calhar, tendo em conta isto tudo, mas que fazer? Depois coloquei montinhos, de forma tão regular quanto possível, quase dava uma sensação de controlo e normalidade... E esperei até o chocolate solidificar. 

 

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Fiz uma infusão de morangos que ali estava perdida há anos também. Provei-a, soube-me surpreendentemente bem, melhor do que a memória que tenho de quando a comprei. Pus alguns dos chocolates numa tigela, e sentei-me no sofá.  Reparei que o chocolate me deixava os dedos sujos rapidamente. Chocolate que não foi temperado, pensei.  Mas o que é que importa? Ouvi as notícias. Nada animadoras.

 

Voltei a sentar-me em frente do computador... Escrever sobre quê?

 

 

As mil e uma camadas de uma trouxa de ovos

por Paulina Mata, em 17.02.20

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Comi a primeira garfada da trouxa de ovos e soube-me tão bem! Não me lembro de quando tinha comido a última, tinha sido há muito tempo. A variedade de coisas que na nossa doçaria fazemos apenas com ovos e açúcar fascina-me. Aquela garfada despoletou esse fascínio e uma série de memórias. Uma delas a de quando aprendi a fazer trouxas de ovos.  Sorri, apeteceu-me registar essas memórias. Ia começar a escrever, mas, por descargo de consciência, fiz uma busca para confirmar que em nenhum dos 671 posts anteriores as tinha referido. Lá estavam! Tudo o que eu tinha recordado, todo o fascínio pelos doces de ovos...

 

Foi também com a D. Iolanda que aprendi a fazer trouxas de ovos. Repeti várias vezes os ensinamentos, mas sobretudo para fazer as folhas de ovo para lampreias de ovos. Nunca consegui dominar a técnica para obter folhas bem finas, para fazer as trouxas como gosto delas. Fiz algumas, mas poucas... a perfeição exige muita prática e trabalho.

 

Ao fazer fios de ovos, trouxas de ovos, ovos moles, lampreias de ovos, fatias de Tomar, papos de anjo... sempre o senti como mais do que cozinhar ou fazer uns doces. Sempre o vi (mais do que com qualquer outra coisa que cozinho) como cultura, uma ligação às raízes, uma homenagem à criatividade de quem desenvolveu estas técnicas que contribuíram para introduzir no quotidiano beleza, fantasia e delicadeza. Tudo isto é parte integrante das mil e uma camadas de uma trouxa de ovos.

 

 

Os pasteleiros, o seu papel e a valorização deste.

por Paulina Mata, em 24.11.19

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A sobremesa constitui o momento final da refeição. Em geral esperamos que ela feche o ciclo e complete a experiência gastronómica. Nem sempre isso acontece... muitas vezes porque não é coerente com o resto da refeição, seja a nível técnico ou pelas suas características intrínsecas, porque não se investiu no trabalho de um pasteleiro.

 

Cozinha salgada e pastelaria envolvem competências e produtos diferentes, e criações com objetivos distintos. Complementam-se, são as duas necessárias para que a experiência seja completa.

 

Se nos últimos anos o trabalho dos cozinheiros tem sido valorizado, nem sempre isso acontece com o dos pasteleiros. Muitas vezes nem estão presentes em restaurantes com pretensões que o justificariam. O seu trabalho tem sido objeto de menos atenção e destaque, não lhes é reconhecido o seu valor, nem o papel que têm numa experiência gastronómica. 

 

Muito há que fazer... sobretudo porque há pasteleiros que o merecem, e em particular jovens pasteleiros que  estão a desenvolver um óptimo trabalho e novas abordagens, e seria justo mostrá-lo e serem valorizados por isso.

 

Nas últimas semanas tive oportunidade de participar em duas situações em que contactei com esse trabalho, apresentado de forma diferente do habitual, e que mais do que merecem ser destacadas...

 

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Não estará a Universidade de Coimbra a desempenhar o seu papel?

por Paulina Mata, em 12.10.19

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Lembro-me de ter lido há alguns anos que os descendentes de emigrantes perdiam mais rapidamente a língua do país de origem do que o tipo de alimentação. De facto o que comemos está profundamente relacionado com a nossa cultura, experiências e meio social. No entanto, em última análise, o que comemos e a forma como comemos é profundamente pessoal. De tão enraizados que estão os nossos gostos e hábitos, eles servem de conforto quando estamos fora do nosso ambiente, e em épocas de mudança ou de crise. Se sentirmos que são ameaçados, tal é sentido como uma ameaça muito mais profunda do que a relacionada apenas com aquilo que comemos.

 

Sempre achei curioso observar as reações das pessoas relativamente ao que surge de novo, relativamente ao que quase vêem como uma ameaça. Não quer isto dizer que os hábitos não mudem, a reação é relativamente ao que vem de fora, àquilo que as pessoas receiam que lhes vá ser imposto. Lembro-me de em conversas sobre novas técnicas de cozinha, aqui há uns 10 anos, me terem perguntado  "Mas vamos continuar a comer ensopado de borrego?". Acho que as reações fortes a veganos e ao que comem também são de certa forma justificadas por isto (embora possam existir outras componentes). Mas a ameaça que refiro hoje é outra...

 

Recentemente o Reitor da Universidade de Coimbra proibiu o consumo de carne de vaca nas cantinas e bares da Universidade. Tem sido curioso ver as reações e argumentações, em que nunca vi uma discussão séria e profunda do assunto, baseada numa fundamentação sólida, mas que consistem sobretudo em desacreditar,  chegando por vezes até ao insulto. Também nelas se sente a reação a uma ameaça. Uma ameaça bem mais profunda do que a justificada pelo facto de não ser servida carne de vaca nas cantinas da Universidade de Coimbra. Um local onde, curiosamente, as pessoas que reagem desta forma nunca irão comer, e a maioria nunca comeu. Contudo, aqueles que lá comem, os estudantes, compreendem e apoiam a medida.

 

Não sou adepta de proibições, mas mais de informar e educar. Nunca tinha pensado numa medida como esta, e só depois de se ter começado a falar dela me apercebi que já tinha sido tomada noutras Universidades, por exemplo Cambridge e Goldsmiths - University of London. Tenho pensado sobre ela e, neste momento, mais do que uma proibição, vejo-a como uma forma de alertar, sensibilizar e contribuir para alterar hábitos.

 

Nas cantinas das Universidades a presença da carne de vaca não é a mais comum, não vai mudar muito o estilo de alimentação, apenas alguns pratos. Nas cantinas das Universidades, o objetivo é mais manter um preço baixo do que a qualidade. Assim duvido que a carne servida seja de grande qualidade, possivelmente até é carne de produção intensiva, importada de um qualquer outro país (segundo a Balança Alimentar Portuguesa 2012 - 2016 do INE  nesse período importámos 52,7% da carne de bovino consumida). Assim, à pegada da carne de vaca (muito maior do que das outras carnes), junta-se a do transporte e da necessária refrigeração. Não vou discutir se se justifica ou não, não vou discutir se o impacto tem algum efeito para combater as alterações climáticas (os atos de cada um individualmente possivelmente não terão, mas somos muitos milhões neste planeta e os de todos terão...). Mas também não acho que esse seja o aspeto mais importante.

 

Note-se que mesmo antes dessa proibição ter sido implementada, o efeito já foi marcante. Toda a gente falou do assunto. E, seja qual for a forma como se falou, as pessoas ficaram despertas para o problema. Umas tentarão resistir comendo ainda mais carne, fazendo churrascos à porta da Universidade (li algures que tal estava planeado). Outros ficarão sensibilizados para o assunto e começarão a pensar nos seus hábitos alimentares, e procurarão informação para os alterar. E é necessário alterá-los. Pelo clima, pelo planeta, pela nossa saúde. Um artigo recente do jornal Público referia um estudo que concluiu que as crianças portuguesas comem quatro vezes mais proteínas  do que necessitam, e que estas são provenientes em grande parte de carne e de laticínios.

 

Há dias, ao falar deste assunto, alguém me perguntava, interpretando a proibição como uma restrição à liberdade individual, "Então e se algum estudante quiser comer carne de vaca, não pode?". Claro que pode, atravessa a rua e vai à tasca em frente. O mesmo que faz se quiser comer inúmeras outras coisas que não são servidas nas cantinas. Pode também comer outras carnes na cantina, as características nutricionais da sua alimentação não ficam muito alteradas por não comer carne de vaca. A maioria dos portugueses nem a consome muito (segundo a Balança Alimentar Portuguesa o consumo de carne de bovino corresponde a 21,5% da carne consumida, enquanto o porco corresponde a 31,5% e as aves 36,7%).

 

O papel das escolas é sensibilizar e educar, e neste aspeto acho que a Universidade de Coimbra está a desempenhar o seu papel. Esta medida terá certamente um efeito muito maior do que o estritamente relacionado com a carne de vaca consumida nas cantinas. Um efeito ampliado que é fundamental, pelo ambiente e pela nossa saúde, e até pode servir de incentivo a alterações importantes que promovam uma alimentação mais equilibrada, já que cada vez nos desviamos mais do ideal. 

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O pão, no chocolate... e no gelado.

por Paulina Mata, em 17.09.19

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Enquanto estava aqui a conversar (ou seja, responder aos comentários) no último post, fui buscar um chocolate para comer uns quadradinhos enquanto bebia chá... O chocolate é muito bom!

 

Há pouco mais de um ano e meio descobri os Cocoa Runners, e de repente percebi que tinha que repensar todas as minhas experiências com chocolate... 20 meses (e 80 chocolates diferentes - nunca repetem - depois) o padrão mudou muito. A diversidade é fascinante.

 

Um dia descobri que um dos produtores, Pump Street Chocolate,  também enviava caixas com 4 chocolates surpresa de 2 em 2 meses, também subscrevi. Neste caso repetem. Este mês aconteceu com um dos chocolates deles de que mais gostei, o Sourdough & Sea Salt 66%  Hacienda Limon no Ecuador - colheita de 2018. O chocolate é delicioso. Complexo, com um leve sabor a caramelo, mas suave (pouco ácido ou amargo). A tablete tem uma textura muito lisa, mas quando se mete na boca tudo muda, o pão foi torrado e foi moído, juntamente com os grãos de cacau, portanto de forma muito fina. Apesar disso, quando se mastiga sente-se, é extremamente crocante, sabe a pão... e a chocolate... o sal realça os sabores todos.  Adoro!

 

Ao comê-lo lembrei-me de uma das minha maiores vergonhas gastronómicas... A minha irmã mais nova viveu uns anos em Londres, eu ia lá muitas, muitas vezes. Ela vivia num quarto pequeno, numa casa com uma grande cozinha com uma mesa grande e um sofá, e passávamos lá muito tempo. Lá em casa vivia também um inglês que cozinhava bastante. Um dia disse que estava a fazer um gelado de pão torrado. Eu comentei que era estranho e a expressão facial deve ter demonstrado pouco interesse em provar. Nem sei porque reagi assim... como tudo e gosto de experimentar tudo. Mais tarde ele deu a provar às outras pessoas da casa, mas não me deu (culpa minha... quem me mandou ser parva?). Não tive coragem de pedir, mas o gelado, e a experiência que não tinha tido, não me saíam da cabeça. Mal cheguei a casa procurei uma receita de gelado de pão torrado. Fiz e comi, e constatei que era excelente e também jurei nunca mais fazer figuras daquelas.

 

Um dia destes acho que vou fazer um gelado de pão torrado e chocolate. É capaz de ser bom... Para já vou comer mais um quadradinho (já não há muitos, a tablete só tem 70 g).

 

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As férias e a angústia da página em branco...

por Paulina Mata, em 14.09.19

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Estas férias tiveram uma característica especial, estive quase um mês sem sequer ligar o computador.  Soube bem. Mas as férias não foram tão longas quanto as 8 semanas de ausência do blog poderiam levar a concluir. A culpa para as primeiras duas semanas foi o trabalho, que não me deixou tempo livre. As quatro seguintes, foram aquelas em que não liguei o computador. Para as duas últimas podia arranjar n desculpas mas, basicamente, foi a angústia da página em branco. Aconteceu-me quando comecei o blog. Escrevi o primeiro post a 4 de Janeiro de 2016 depois, durante 3 semanas, não me ocorreu nada para escrever e só o pus visível mais tarde, depois de escrever o segundo post a 25 de Janeiro.

 

Hoje não tenho a menor ideia sobre o que vou escrever, mas é altura de vencer a angústia da página em branco... De facto, no primeiro post dizia que cada vez tenho menos certezas e posições bem definidas sobre gastronomia (e sobre quase tudo). Que precisava de pensar, de reflectir, de descobrir o que sentia. De repensar tudo. Basicamente acho que continuo no ponto zero... tudo muda muito rapidamente.

 

Quando comecei o blog mal se falava da necessidade de alterar a nossa forma de comer. Hoje ouvimo-lo todos os dias. Em Londres vi alguns milhares de pessoas, mais de uma dezena de milhar, manifestando-se pelos direitos dos animais. Gente de todas as idades, seguramente dos 8 meses aos 88 anos...

 

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Continuo a comer tudo, mas de forma diferente. Há dias ao ver um anúncio de um supermercado pensei - isto começa a ser muito controverso.  Está tudo a mudar depressa... e todos vamos ter que nos adaptar.

 

Nas férias comi coisas simples, mas algumas muito boas. Gosto muito de ir às lojas e restaurantes que muitas quintas  produtoras de alimentos, ou mesmo garden centres, têm no UK. Sempre muito concorridos e com uma excelente oferta.

 

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Constatei mais uma vez a óptima oferta de pratos veganos, mesmo num restaurante de bairro de pizzas.

 

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Descobri filhoses quase iguais às que a minha Avó fazia a milhares de quilómetros de distância. E ninguém copiou ninguém...

 

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Mas foi bom também fazer coisa simples, como procurar pedras pintadas no parque. Uma atividade que os elementos mais novos da família muito apreciam, sobem até às árvores para as procurar. Eu adoro a ideia das pessoas pintarem pedras e as esconderem nos parques para as crianças procurarem e as esconderem noutro local.

 

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Ou jogar escape games de tabuleiro ao serão, ou mesmo em escape rooms, esta uma atividade muito popular entre os membros mais velhos da família.

 

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Agora é hora de voltar à vida real, espero que escrever ajude. Mas decidir sobre o que escrevo está a ser um desafio...