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Assins & Assados

O pão, no chocolate... e no gelado.

por Paulina Mata, em 17.09.19

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Enquanto estava aqui a conversar (ou seja, responder aos comentários) no último post, fui buscar um chocolate para comer uns quadradinhos enquanto bebia chá... O chocolate é muito bom!

 

Há pouco mais de um ano e meio descobri os Cocoa Runners, e de repente percebi que tinha que repensar todas as minhas experiências com chocolate... 20 meses (e 80 chocolates diferentes - nunca repetem - depois) o padrão mudou muito. A diversidade é fascinante.

 

Um dia descobri que um dos produtores, Pump Street Chocolate,  também enviava caixas com 4 chocolates surpresa de 2 em 2 meses, também subscrevi. Neste caso repetem. Este mês aconteceu com um dos chocolates deles de que mais gostei, o Sourdough & Sea Salt 66%  Hacienda Limon no Ecuador - colheita de 2018. O chocolate é delicioso. Complexo, com um leve sabor a caramelo, mas suave (pouco ácido ou amargo). A tablete tem uma textura muito lisa, mas quando se mete na boca tudo muda, o pão foi torrado e foi moído, juntamente com os grãos de cacau, portanto de forma muito fina. Apesar disso, quando se mastiga sente-se, é extremamente crocante, sabe a pão... e a chocolate... o sal realça os sabores todos.  Adoro!

 

Ao comê-lo lembrei-me de uma das minha maiores vergonhas gastronómicas... A minha irmã mais nova viveu uns anos em Londres, eu ia lá muitas, muitas vezes. Ela vivia num quarto pequeno, numa casa com uma grande cozinha com uma mesa grande e um sofá, e passávamos lá muito tempo. Lá em casa vivia também um inglês que cozinhava bastante. Um dia disse que estava a fazer um gelado de pão torrado. Eu comentei que era estranho e a expressão facial deve ter demonstrado pouco interesse em provar. Nem sei porque reagi assim... como tudo e gosto de experimentar tudo. Mais tarde ele deu a provar às outras pessoas da casa, mas não me deu (culpa minha... quem me mandou ser parva?). Não tive coragem de pedir, mas o gelado, e a experiência que não tinha tido, não me saíam da cabeça. Mal cheguei a casa procurei uma receita de gelado de pão torrado. Fiz e comi, e constatei que era excelente e também jurei nunca mais fazer figuras daquelas.

 

Um dia destes acho que vou fazer um gelado de pão torrado e chocolate. É capaz de ser bom... Para já vou comer mais um quadradinho (já não há muitos, a tablete só tem 70 g).

 

Foto DAQUI

 

 

 

O mundo muda... e há muitas coincidências

por Paulina Mata, em 14.07.19

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Foi há muitos anos que fui pela primeira vez ao Tapas Room do The Providores, não sei quantos, talvez uns 12 anos. Gostei muito. Voltei algumas vezes, até que um dia decidi ir ao The Providores, no 1º andar. Esperava gostar mais, mas não aconteceu... Nunca mais fui ao 1º andar, mas voltei muito mais vezes ao Tapas Room.

 

Os restaurantes são em Marylebone, uma área simpática, com um farmers' market ao domingo que dizem ser um dos melhores de Londres, o talho Ginger Pig, a La Fromagerie, as lojas de chocolates Rococo e Pierre Marcolini. Havia ainda por lá uma loja de equipamento de cozinha, a Divertimenti, que já mudou de local. Cheguei a ir lá a um curso de cozinha em que andámos pelo bairro a fazer as compras e depois as fomos cozinhar e almoçar. Enfim, uma zona com muita coisa interessante e onde vou frequentemente passear quando vou a Londres. Muitas dessas vezes comia qualquer coisa no Tapas Room.

 

Hoje descobri que o restaurante, com 18 anos, vai fechar no final deste mês. Diz-se que  Peter Gordon, com este seus restaurantes, foi um pioneiro em Londres em várias coisas que tomamos hoje como comuns: doses pequenas, não aceitar reservas e a cozinha de fusão. O restaurante é assim um marco importante, mas tudo tem um tempo de vida, e 18 anos num restaurante é um tempo considerável. Peter Gordon diz que quer descansar e dedicar-se a outros projetos.

 

Não pude deixar de me lembrar de um prato que comi no Tapas Room em agosto passado, a última vez que lá estive, a salada de melancia cuja foto está no início do post. Gostei muito! Fui para uma refeição leve. A seguir à salada de melancia comi este prato, mas não me lembro o que era:

 

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Nesse dia, como hoje, lembrei-me de uma outra refeição que lá tive há quase 10 anos. Um almoço com um jovem cozinheiro inglês. Uma história engraçada e com algumas coincidências pelo meio. Um dia, casualmente, encontrei o blog dele, era um miúdo ainda e o blog tinha uma bandeira do UK e outra nossa, pois tinham estado cá de férias e estabeleceram alguns laços com uma família no norte. Li uns posts e achei graça. Soube uns anos depois que ele estava em Barcelona no Comerç 24. Fui a Barcelona e resolvi lá ir, escrevi-lhe a dizer, passado uns dias recebi um email do Pai dele com algumas informações. No Comerç 24 disse-lhe "Olá!" ele mal respondeu, soube depois que não podia falar com os clientes. O Pai de vez em quando dava notícias do percurso do filho.

 

Um dia estava em Londres e recebi um email do Pai, disse-me que o filho me tinha visto naquele mesmo dia em Marylebone e gostava de se encontrar comigo. Respondi que não podia, ia no dia seguinte para Leeds. Recebi um email de volta a dizer que ele vivia em Leeds, então que nos podíamos encontrar nós. Não tive como dizer que não, e dois dias depois fomos almoçar ao Salvo's, um bom restaurante italiano nos arredores de Leeds. Disse-me que o filho estava a trabalhar na La Fromagerie em Marylebone, perguntou-me se não voltava a Londres. Sim, ainda passava por Londres... e 2 dias depois estava a almoçar no Tapas Room do The Providores com o filho. Não me lembro do que comi, mas lembro-me que ele comeu um Laksa (uma sopa da Malásia). Há muito que não sabia nada deles, já nem me lembrava dos nomes.

 

Hoje, ao escrever este post lembrei-me do nome do Pai, encontrei um email dele, nele estava o nome do filho. Com o Google ficamos a saber tudo... Fiquei a saber do percurso dele nos últimos anos e que, por coincidência, ele foi durante algum tempo o Chefe do Vanilla Black, um restaurante sobre o qual escrevi um post há algumas semanas.  Ao que o fecho do Tapas Room deu origem...!!!!

 

O mundo muda... e não vou voltar ao Tapas Room, tenho que procurar alternativas para quando for a Marylebone... 

 

 

Sandwich - provavelmente a mais icónica invenção culinária britânica

por Paulina Mata, em 30.05.19

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A semana passada foi a British Sandwich Week. Uma semana para celebrar aquilo que o site oficial diz provavelmente ser a mais icónica invenção culinária britânica.  Diz-se, eventualmente sem grande fundamento, que Lord John Montague, o 4º Conde de Sandwich,  um grande jogador, achava que o tempo era melhor gasto a jogar do que a fazer uma refeição. Assim, pedia aos empregados do casino que lhe trouxessem fatias de carne entre duas fatias de pão. Os amigos que com ele jogavam, começaram a pedir "o mesmo que Sandwich!", rapidamente (possivelmente para não se distraírem do jogo) o pedido passou a ser apenas "Sandwich".

 

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Se inicialmente eram algumas fatias de carne entre duas fatias de pão, rapidamente as possibilidades foram aumentando. No seu país de origem, em qualquer loja que as venda para uma refeição rápida, as variedades são inúmeras, com todos os ingredientes, com sabores mais comuns ou mais exóticos, com vários tipos de pão... Lembro-me que quando há muitos anos comecei a ir a Inglaterra (mesmo sendo a variedade bem inferior à que existe agora) me fascinavam, particularmente as sandwiches de camarão. Por cá comia camarão em dias de festa, de modo que duas fatias de pão de forma recheadas com muitos camarões com um pouco de maionese sabia a festa. Agora raramente as como, mas uma vez por outro apetece-me matar saudades.

 

Para além das sandwiches embaladas, que se vendem um pouco por todo o lado, muitos cafés as vendem também, com variados recheios e sempre acompanhadas de uma salada, a que por vezes juntam umas batatas fritas. São mesmo, em casa ou fora, o menu de almoço de eleição de muitos ingleses.

 

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Mas não só ao almoço as comem, os famosos high tea têm sempre no prato inferior uma variedade de pequenas sandwiches que são comidas antes dos scones e dos bolos e doces que surgem nos pratos acima.

 

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Por cá, apesar de não ser da nossa tradição, bem podíamos ter um pouco mais de imaginação e qualidade nas nossas sandwiches...

 

 

Ingera - uma espera de 20 anos para o provar. Será que valeu a pena?

por Paulina Mata, em 12.05.19

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Passaram 20 anos desde que ouvi falar deste pão até o provar!  Mas a história é longa... Em 1995 foi lançado o site Epicurious da Condé Nast, que também tinha as revistas Bon Appétit e Gourmet. Talvez tenha descoberto o site porque por vezes comprava as revistas, não me lembro. Mas o que de facto despertou o meu interesse, e de que me lembro muito bem, foi o Forum de discussão e troca de receitas, o Gail's Recipe Swap.  Isto muito antes de sequer se pensar nas redes sociais atuais. Não havia dia que não acompanhasse (geralmente  várias vezes por dia) o que se passava no forum. Não participava muito, mas lia muito. Acho que foi lá que descobri que havia muita gente como eu, com uma grande paixão por cozinha e comida. Mas o que me fascinava era todo o conhecimento que tinham. Sabiam tudo! Foi com receitas de lá que no final da década de 1990 comecei a fazer fumados em casa e a cozinhar carne a baixa temperatura, e muitas outras coisas. Lá aprendi muitíssimo! Um dia fizeram mudanças no site, eu sei que tem que se evoluir, mas aconteceu-me ali o que já me aconteceu noutros locais, deixa de ser familiar, passo a ir menos, e um dia... nada dura para sempre.  Felizmente imprimi muitas das coisas que me despertaram a atenção e tenho vários dossiers com essas impressões. Hoje fui buscar um, fiquei com vontade de perder umas horas com eles.

 

Mas voltando ao assunto do post... Um dia alguém perguntou lá o que era Injera. Rapidamente apareceu quem soubesse tudo sobre Injera e o explicasse. Era um pão da Etiópia feito com farinha de Teff e fermentado. Uns crepes enormes (cerca de 50 cm de diâmetro), finos, mas esponjosos e macios. Esqueci-me de milhares de outras perguntas que fizeram, mas nunca da do Injera. Farinha de Teff era inacessível, nem sequer podia fazer para experimentar. Imaginei-o, mas apenas isso. 

 

Pouco tempo depois comprei o livro Flatbreads & Flavors de Jeffrey Alford e Naomi Duguid, um livro que me marcou muito. O Ingera era um dos flatbreads de que falavam e davam a receita. No meio de tantos pães se calhar nem teria reparado no Ingera, mas dado que antes as conversas no Gail's Recipe Swap me tinham chamado a atenção, reparei nele. Mas o livro tinha poucas ilustrações e nem uma foto tinha... Dizia contudo que o Injera era usada como uma superfície para comer, e que em pedaços era usado para recolher e embrulhar a comida que se ia metendo na boca. Interessante!

 

Há tempos a minha filha mais nova disse-me que tinha ido com uns amigos a um restaurante da Etiópia.Traziam um prato grande que punham no meio da mesa e toda a gente comia do mesmo prato com as mãos. Disse-me que achava que eu gostaria de lá ir. E gostava... a experiência parecia-me interessante, mas havia uma coisa que ela não tinha referido que me fazia ter muita vontade de lá ir. Certamente teriam Injera!

 

Foi assim que 20 anos depois entrei no Blue Nile em Birmingham com a grande expetativa de provar Injera.

 

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Pedimos, e pouco depois trouxeram um tabuleiro redondo grande coberto por um Injera e sobre ele a nossa refeição. Vinha também um cesto com metades de Ingera enrolados. 

 

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Começou a aventura!  Que acompanhei com uma cerveja da Etiópia.

 

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Primeiro fiz, para os meus acompanhantes, uma revisão das regras de boa educação para comer com as mãos:

- Tudo aquilo em que se pega é retirado e deve ser comido;

- Comer lentamente para não parecer que se está a querer ficar com a comida do vizinho;

- Comer só da zona do prato mais perto de nós;

- Só se usa mão direita e os dedos não tocam na boca;

- A porções que se levam à boca devem ser pequenas;

- Nunca se prepara novo pedaço, enquanto não se engolir o anterior.

 

Não digo que tenhamos cumprido rigorosamente todas as regras de boa educação. Mas não foi terrível também. No final não ficou nada para amostra, nem da comida, nem do Ingera sobre o qual ela estava,  nem dos Injera que nos trouxeram à parte.

 

Provar o Ingera foi uma experiência marcante! Valeu a pena, é um pão especial. Um sabor agradável, levemente ácido, mas sobretudo a textura extremamente macia e esponjosa, apesar de fino. Adorei!  

 

 

Quando quase se escreve um post que... já estava escrito...

por Paulina Mata, em 28.02.19

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Há dias referi a diversidade de novas coisas que têm aberto na zona do mercado de Arroios. Uma delas é a Zaytouna, uma mercearia com produtos do Médio Oriente que abriu há alguns meses numa das lojas exteriores do mercado.

 

Entrei para ver, não estava a pensar comprar nada, mas saí com uma garrafinha de água de flor de laranjeira. A caminho de casa vinha pensando em como há uns anos havia tantos ingredientes que era necessário trazer quando se viajava, mas agora em Lisboa há uma oferta vasta de produtos e sabores de outras paragens. Vinha também antecipando fazer um "café branco". Depois, ao bebê-lo, recordei a primeira memória que tenho de comer algo com água de flor de laranjeira - os Ovos à Antiga do Restaurante Conventual - nos anos 1980. Quase me ia sentar para escrever sobre isso, mas de repente surgiu-me um dúvida... uma pequena busca e o post estava lá, relatando tudo isto. 

 

Mas a água de flor de laranjeira despertou-me a vontade de fazer uma outra sobremesa muito simples e de que gosto muito, uma sobremesa que aprendi a fazer há muitos anos nas aulas da Cozinhomania, uma salada de laranja com água de flor de laranjeira. Rodelas de laranja descascada, uns salpicos de água de flor de laranjeira, um pouco de açúcar e canela e umas folhas de hortelã. É delicioso!

 

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No Zaytouna ficaram-me os olhos num saco de lima secas, e a vontade de passar lá para as comprar e cozinhar. Nunca cozinhei nada com limas secas. Hei-de ir comprá-las, mas antes tenho que planear o que cozinhar com elas.

 

 

1ª foto DAQUI

2ª Foto DAQUI

 

 

A minha estranha relação com o bacalhau

por Paulina Mata, em 17.02.19

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Era certo e sabido que à sexta feira a hora da refeição era tensa. Em criança / adolescente vivia numa pequena localidade da Beira Baixa, a disponibilidade de peixe não era a atual e, lá em casa, à sexta-feira não se comia carne. Recorria-se frequentemente ao bacalhau. Não gostava de bacalhau, não queria comer, mas a minha Mãe insistia que comesse... Eu não conseguia achar graça aquilo...

 

Hoje como bacalhau, com gosto. Mas se, de repente, me perguntarem se gosto de bacalhau, e me derem apenas uns segundos para responder, não responderei com convicção que sim. Talvez até diga que não, também se convicção. Hoje como bacalhau, e gosto, de alguns pratos gosto muito. Contudo, raramente cozinho bacalhau.

 

Lembro-me de ter saudades de bacalhau num ano em que vivi fora, quase há 30 anos. Vim no Natal e levei um bacalhau. Fiz pastéis de bacalhau, bacalhau assado, bacalhau à Braz...

 

Considerando esta minha estranha relação com o bacalhau, nunca me aventurei por aquelas partes "menos nobres" deste - caras, línguas, sames... Nunca entraram na minha cozinha, nem na da minha família. Lembro-me de uma das minhas irmãs (cujo aniversário seria hoje) me dizer que estava a cozinhar caras de bacalhau. Fiquei com a cara meio franzida, não achei de todo atraente (e continuo a achar que nunca comi). Há uns anos comi sames, adorei! Nunca cozinhei, mas já voltei a comer várias vezes. Gosto daquela textura. 

 

Há umas semanas, para uma demonstração de emulsões para uma aula, um dos meus alunos (por sinal brasileiro) sugeriu fazer um pil-pil com línguas de bacalhau. Tive que admitir que nunca tinha cozinhado línguas de bacalhau, nem as sabia cozinhar, ele fez.

 

Uns dias depois fui ao supermercado e vi à venda línguas de bacalhau. Achei que era altura de lhes dar uma oportunidade, e trouxe uma embalagem. Fiz línguas de bacalhau panadas. Gostei de ficar mais "esperta" com a experiência de cozinhar uma coisa diferente. Souberam-me bem com um arroz de tomate* com pimento. Mas a sensação continua a ser a mesma - gosto, mas... Nem sei o que é o mas... mas que há sempre alguma resistência, há.

 

Ao lado estavam embalagens de sames, um dia destes dou-lhes a oportunidade de entrarem na minha cozinha.

 

 

* Pois, eu sei que não é altura do tomate, mas usei tomate em conserva. A atual obsessão com a sazonalidade às vezes quase leva a que se esqueçam coisas bem importantes e interessantes.

Em miúda lembro-me de na época do tomate a minha Mãe fazer conserva de tomate em casa. Vivíamos numa localidade pequena da Beira Baixa, o acesso a vários produtos era limitado. No quintal havia muito tomate no verão, que não consumíamos todo, fazia-se conserva para o inverno e também  muito doce de tomate (o único que havia, a par da marmelada).  Gosto deste conhecimento, e do engenho e arte para desenvolver técnicas para conservar alimentos, e dos novos sabores desses alimentos.

O sabor do tomate em conserva no inverno faz parte das minhas memórias gastronómicas e não tenho nada contra ele, antes pelo contrário. E, já agora, temos mesmo ótimas conservas de tomate produzidas pela indústria alimentar.

 

 

1ª foto adaptada DAQUI

 

 

O pequeno-almoço Español

por Paulina Mata, em 03.02.19

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Gosto de longos pequenos almoços. Gosto da diferença de hábitos relativamente aos pequenos almoços. Fascinam-me a diferença de hábitos, mesmo quando a distância é curta. Há umas semanas fui com as minhas três irmãs a Badajoz. De tempos a tempos fazemos um fim se semana algures só nós quatro, sem famílias. Desta vez escolhemos Badajoz porque era lá que antes do Natal, ou quando precisávamos de roupa, ou quando precisávamos apenas de espairecer, os meus pais nos levavam em crianças. A "nossa" loja de brinquedos mágica era  Las Três Campanas, do supermercado Simago vinham os caramelos, os melocotones, os patés... Dos Preciados a roupa. Recordações que são certamente as de muitos portugueses, há quem as descreva de forma a que nos revemos completamente no relato.

 

Cerca de 50 anos depois dessas excitantes viagens a Badajoz, resolvemos voltar, na viagem fomos fazendo a lista de tudo o queríamos ver, como se o tempo não tivesse passado. Badajoz é outra agora, porque os tempos mudaram no quase meio século que passou e a cidade evoluiu, porque os portugueses deixaram de ir comprar caramelos e melocotones. Mas foi igualmente divertido.Estivemos à porta de Las Três Campanas, que já fechou, e o bonito edifício vai ser transformado num hotel. Fomos ao Simago, que já não é Simago, nem tem já os perritos calientes de que nos lembrávamos. Mas foi numa cafetaria lá que acabámos por tomar o nosso primeiro pequeno almoço. Tostadas com cachuela, tomate /hamón ibéricotomate/queso, aceite com miel.

 

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Gosto particularmente das de tomate com presunto que me fizeram lembrar outras (melhores) que tinha comido umas semanas antes em Sevilla.

 

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Há dias li que uma empresa espanhola tinha aberto na Baixa uma loja, que funcionava como charcutaria, mas também servia refeições ligeiras, incluíndo pequenos almoços. Vieram-me logo à memória estas lembranças e uma grande vontade de lá ir tomar o pequeno almoço. E assim foi...

 

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Soube-me bem! Recordou-me também que está na altura de voltar a viajar à mesa em Lisboa. Enquanto comia pensei no que diria se alguém me perguntasse como era um pequeno almoço característico de Portugal. Não sei bem. Algumas sugestões?

 

 

Beher - Rua da Prata, 249 - Lisboa

 

 

 

 

 

Associando memórias de infância a memórias mais recentes, de descoberta de outras culturas e outros sabores

por Paulina Mata, em 14.01.19

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Penso que foi há cerca de 10 anos que reparei nele pela primeira vez, no mel com trufa branca. Do lugar onde o vi, não tenho dúvidas, foi no Borough Market. Lembro-me da banca - trufas, um grande aquário de vidro cheio de ovos e com uma trufa dentro para os aromatizar, frasquinhos de azeite com trufa, e os frascos de mel com trufa. Não era fácil deparar com algo assim! Um frasco de mel aberto, ali ao lado pequenos cubinhos de pão. Provei, gostei, e trouxe um.

 

Não sei porquê, mas esteve muito tempo numa prateleira da minha cozinha. De vez em quando comia um pouco, mas durou muito tempo. 

 

Lembro-me de em criança a minha Mãe nos dar pão com manteiga e mel. Uma fatia de pão barrada com manteiga e um fio de mel por cima, não muito, o suficiente para aromatizar, para adoçar levemente. Nalgumas dentadas apenas se adivinhava o sabor do mel, noutras era mais evidente. Era tão bom! Um dia barrei uma fatia de um bom pão com manteiga e pus por cima um fio daquele mel. Delicioso!

 

A partir daí, sempre que vou ao Borough Market trago um frasco de mel com trufa branca que como, quase todo, com pão com manteiga. Uma forma de associar memórias de infância a memórias mais recentes. Gosto do cheiro quando abro o frasco, gosto do sabor. Gosto que em algumas dentadas apenas se adivinhe o sabor do mel, e noutras seja mais evidente. 

 

Há uns dias cheguei a Londres a meio da manhã, tinha planeado o local de almoço. Tinha uma hora pelo meio sem planos. Onde vou? Uma ideia surgiu logo... ao Borough Market comprar um frasco de mel com trufa branca. Acho que o último o tinha comprado já há cerca de um ano. 

 

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Delicioso! Gosto que simultaneamente me remeta para a infância, e para uma idade adulta, a descoberta de outras culturas e outros sabores.

 

 

Quando as saudades batem... há que matá-las! (4)

por Paulina Mata, em 05.11.18

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Gosto de pequenos almoços, sentada à mesa, com tempo, variados. Durante o ano que estive fora tinha maior flexibilidade de tempo e frequentemente tinha pequenos almoços assim, em casa ou fora. A escolha era vasta e havia que desfrutar das oportunidades.

 

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Uma vez até fui até Warwick para tomar o pequeno almoço, pois soube que havia lá uma café português.

 

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Não é que cá não haja hipótese de tomar um bom pequeno almoço. As nossas pastelarias, oferecem grande variedade, e se forem boas, pode ser mesmo muito bom. Mas queria matar saudades, e não era isso que me apetecia. Mais, nunca bebi café, um expresso ainda é algo que não bebo, a não ser muito, muito raramente, mas o ano passado habituei-me aos omnipresentes cappuccinos, lattes, mochas e quejandos, e apetecia-me um bom cappuccino ou qualquer coisa semelhante.

 

Sexta à noite resolvi planear o pequeno almoço de sábado e a escolha recaiu no Fábrica - Coffee Roasters, onde nunca tinha ido, pois achei que cumpria os requisitos para matar as saudades. Cheguei a um espaço quase cheio (alguns minutos depois e seria um espaço com fila de espera), sentei-me, pedi, e fui olhando em volta. Pareceu-me que uma percentagem muito elevada das pessoas eram estrangeiros, o espaço era agradável e pelo que fui vendo chegar para as outras mesas achei que não me tinha enganado na escolha do local. 

 

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Quando comi os ovos escalfados com salmão, sobre pão escuro e abacate, com rúcula e tomate seco, acompanhados de um excelente sumo de laranja e de um ótimo e cremosos cappuccino, confirmei que não me tinha enganado mesmo. Soube-me tão bem!

 

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Vou voltar, e também descobrir outros espaços assim em Lisboa.

 

À saída passei à porta da Igreja de São Domingos, e entrei, é um espaço que sempre me impressiona.

 

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Depois fui matar outra saudades...

 

 
Fábrica - Coffee Roasters - Rua das Portas de Santo Antão, 136, Lisboa
 
 
 

 

Saudades e algumas questões...

por Paulina Mata, em 28.10.18

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Recebo uma mensagem que diz: "Mãe, estamos num sítio que gostas muito, no The Greyhound Inn." .  É verdade que gosto muito, e rapidamente me lembrei da última refeição que lá comi, há cerca de dois meses:

 

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 Sizzling king prawns in a chilli, garlic, ginger, lemon grass & parsley butter served with crispy ciabatta

 

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Baked mushrooms in a creamy garlic & parsley sauce served on a garlic ciabatta topped with a pancetta crumb

 

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Slow braised blade of beef on a bubble and squeak mash with honey glazed roasted vegetables, wilted greens and red wine reduction

 

Lembro-me de uma comida conforto e muito saborosa, de um ambiente acolhedor de pub, do ruído característico destes espaços, da janela com vista para o canal mesmo ali à porta.

 

 

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Do passeio à beira do canal depois do almoço, com um ambiente calmo e barcos sempre a passar. Lembro-me das pequenas eclusas e de por vezes ficar a observar todo o processo necessário para as passar.

 

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Disse-lhes: "Divirtam-se e aproveitem!". Pensei "Já tenho saudades!".

 

Mas mais do que isso, pensei que os ingleses preservam muito bem estes espaços com características muito particulares, modernizando-os por vezes, mas sem os descaracterizar. Mais do que isso, são espaços muito vividos. Pensei também na comida, pratos tradicionais sempre tão presentes, os Sunday Roast que continuam a ser sempre oferecidos ao domingo em muitos espaços, os Cream Teas disponibilizados em todo o lado...

 

Pensei, que era bom que também nós fizéssemos isto. Mas rapidamente me apercebi que também continuamos a fazê-lo, a nossa comida tradicional ainda é muito presente nalguns espaços. Não sei se mais se menos, não sou capaz de avaliar.

 

De seguida veio-me à memória uma frase muito dita por portugueses que vão a Inglaterra: "Não se come nada de jeito. Não têm cozinha própria.", nada mais longe da verdade. De facto a perspectiva depende da pequena amostra que vimos, depende das expetativas, ou seja depende da experiência que temos no local e da nossa experiência prévia, e também do nosso feitio, dos nossos gostos, do nosso grau de abertura. Haverá uma verdade absoluta?

 

Mas tenho saudades... E de repente veio-me à memória uma visita a uma exposição no Birmingham Museum & Art Gallery em que ao ler o processo de preparação daquela exposição temporária dizia:

 

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