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Os restaurantes mais acessíveis de chefes conhecidos... O balanço final é positivo?

por Paulina Mata, em 29.01.16

The Perfectionists Cafe.jpg

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Há umas semanas, no regresso de Inglaterra para Lisboa, fui apanhar o avião ao Terminal 2 do aeroporto de Heathrow. O voo era a meio da tarde, chegámos pela hora do almoço. A minha filha, que vinha comigo, comentou “olha o restaurante do Heston Blumenthal”. O restaurante chama-se The Perfectionists' Café e promete Fantastic Food… Fast. Segundo o site foi inspirado na série de programas de TV, que deu origem a três livros também, In Search of Perfection, em que ele analisa pratos bem populares para os tornar tão deliciosos quanto possível. Ficou logo decidido que íamos lá almoçar.

 

O que esperava? Bem não estava à espera de encontrar o The Fat Duck num restaurante de aeroporto, nem sequer o Dinner. Mas vindo de quem vem, estava à espera de, para um espaço com aquelas características, ter uma experiência excepcional – o que vim a verificar posteriormente que é o que prometem no site. Foi isso que tive? Custa-me admitir… Quem me conhece bem sabe que eu admiro muito, mas muito mesmo, o trabalho do Heston Blumenthal. Mas não, não foi. Se foi mau? Longe disso…

 

O espaço é bonito e agradável. Mas, sem ter acontecido nada de especial, o serviço não estava à altura de uma experiência excepcional. Mesmo tendo em conta que era um restaurante de aeroporto. E o serviço é tão importante! (Um assunto que terei em conta em posts futuros.)

 

Veio o menu. Decidimos escolher uns Ovos Benedict (two eggs on toasted English muffins, maple cured ham and hollandaise sauce. £8.75) eram sem dúvida bastantes bons, os melhores que comi. Bom começo! Seguiu-se o Fish & Chips, apresentado com bastante destaque no menu e com uma série de adjectivos que faziam elevar as expectativas. E é preciso muito cuidado quando elevam demasiado as expectativas, é que frequentemente o trambolhão também é grande….

fish and chips.jpg

Já li muitas linhas sobre a técnica do polme, até falo dele nas aulas, discutindo o papel de cada ingrediente e da técnica usada. Li também muitas páginas sobre as triple cooked chips, seria o que vinha com o peixe? Quando fui ao The Fat Duck a primeira vez até as pedi, extra menu, explicando que tinha lido tanto sobre elas que estava curiosa. Trouxeram-nas e lembro-me que me cobraram £5.00 por 6 palitos de batata (2 palitos por pessoa), numa refeição que custou cerca de 100 vezes mais. Era desnecessário… Mas pronto, não achei simpático, mas não foi isso que beliscou o meu fascínio pela cozinha do Heston Blumenthal.

 

Bem, estou a perder-me… voltando ao Fish & Chips, o peixe era bom e bem fresco, o polme estaladiço e bem aerado (adoro a palavra, que aprendi com os meus alunos brasileiros). Não chegou para satisfazer as expectativas, mas era bastante bom. Quanto às batatas, não sei se eram as triple cooked chips, acho que não, mas não eram o tipo de batatas que aprecio. A minha filha, que adora batatas fritas, e para quem deixo sempre as últimas, até disse “se gostas come, que eu não gosto muito delas”. As ervilhas eram simpáticas, mas longe do que esperava em resultado de uma extensa busca pela perfeição.

 

Para além do destaque e dos adjectivos do menu, estava curiosa com o atomizer of malt vinegar pickled onion juice – bottled at source! que o menu prometia. Estávamos a comer e comentámos “falta o spray, será que põem antes? Era mais giro se trouxessem”. À saída lá estavam, muitos, arrumados a um canto do balcão, mas parece que não vão até às mesas. Basta googlar um pouco e há mais gente a queixar-se do mesmo. Um pouco decepcionadas, pusemos as esperanças na sobremesa, para salvar a experiência.

 

A escolha recaíu no The BFG (Black Forest Gateau not the Big Friendly Giant) (chocolate and vanilla ice cream, sour cherry compote, chocolate brownie, Kirsch whipped cream and chocolate shavings. Served with a Kirsch atomizer for that smell of the Black Forest!  £7.50). Desta vez chegou à mesa o atomizador individual.

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Mas nem ele conseguiu subir o estatuto da sobremesa para além de banal. Não era má, era banal. E do Heston Blumenthal não estamos à espera do banal...

 

Tudo isto me fez reflectir sobre os 2os e 3os restaurantes de chefes conhecidos. Que usam o nome e o estatuto adquirido noutros campeonatos para abrir restaurantes mais acessíveis. Há alguns que fazem um bom trabalho, mas muitos deles são uma desilusão, seja na "comida de chef", seja na "comida da avó".

 

Por vezes pergunto-me porque o fazem. Eventualmente o lucro justifica-o, e numa época como esta em que vivemos isso pode ser importante. Será?

 

Há muitos chefes que o fazem sem ter uma carreira bem sólida. Tenho a sensação que a versão popular os dispersa do que devia ser o foco principal (e por vezes as consequências são bem objectivas). Por outro lado, raramente se dedicam à versão popular o suficiente para fazerem um bom trabalho. Um trabalho compatível com a fama que têm. Mais, quando reproduzem pratos tradicionais, raramente são significativamente melhores (se é que o são) do que numa boa tasca ou restaurante popular. O seu papel poderia também ser o de fazer renascer receitas ou produtos esquecidos, mas não é.

 

Ponho-me várias questões. No final o balanço é positivo? Como a maioria dos chefes não tem ainda uma carreira muito sólida (leva muitos, muitos anos), não seria melhor dedicarem-se à cozinha mais sofisticada que lhes deu nome? E se lhes interessa uma cozinha mais popular e acessível, porque não se dedicam mais, para marcar alguma diferença? Qual seria a aposta certa nestes restaurantes mais acessíveis?

 

Tantas vezes que já me pus estas questões, e sinceramente não tenho respostas definidas. Tenho que dizer que em muitos casos não entendo. Não sei sequer se é positivo para a imagem deles e se o eventual lucro compensa...

 

1ª foto  DAQUI

 

3 comentários

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    De Paulina Mata a 29.01.2016 às 19:39

    Olá Duarte

    Percebo o que diz, e muito do que diz coincide com o que eu sinto. Basicamente, não acho que na generalidade dos casos o restaurante mais popular, chamemos-lhe assim, reflicta o trabalho feito num outro registo mais elaborado. Pior acho que em muitos casos nem sequer é um bom trabalho.

    Além disso, não posso deixar de referir que uma refeição é mais do que a comida, é o ambiente, é o serviço. E em balcões em food-courts (sejam eles mais modernaços, em mercados, ou noutros locais - limitam-se na generalidade dos casos a ser food-courts que podiam estar ali ou não), em zonas com correntes de ar, andando de tabuleiro na mão e sentando-nos de forma desconfortável... Não tem nada a ver. Portanto que vai à procura do trabalho de um chefe conhecido, não o encontra - nem nos produtos, nem na cozinha, nem no ambiente.

    Há poucos dias entre dois compromissos tive que almoçar, fui a um destes balcões com comida de chefe. Era tarde, não havia muita gente. Pedi, deram-me um gadget que vibra quando a comida está pronta. Eu disse explicitamente que queria uma entrada muito rápida pois precisava de algo para comer (não comia há muitas horas). Sugeriran-me umas batatas. Esperei 20 minutos por elas. Dez minutos depois chegou o prato, bonito, um contraste de cores, um empratamento engraçado. Comecei a comer e... deixei metade. A carne da barriga de porco era seca sequíssima. A pele quase partia os dentes. Aquilo não é crocante, aquilo é seco e desagradável. Sabor nenhum. Vim tão desconsolada...

    A fazer estas coisas é preciso fazer bem. pratos adaptados às cozinhas que têm, coisas com muita qualidade, que não faça as pessoas arrepemderem-se de não terem ido à tasca ao lado. E cada vez abrem mais, e cada vez, para ser sincera, olho para aquilo com mais desconfiança. Prefiro, ao mesmo preço coisas com mais alma, que são o primeiro restaurante de pessoas que não são conhecidas e se dedicam ao seu único projecto com paixão. Que vivem esses projectos. Acho que proporcionam experiências bem mais interessantes. Dai as pessoas que não são "tão abastadas" tirariam bastante mais de positivo.

    Acho que nada disto joga a favor dos chefes. Não entendo mesmo.

    Não queria particularizar, mas já que referiu o Cantinho e o Mini-Bar... relativamente ao Cantinho, fui poucas vezes e não vou há muito tempo, portanto acho que não devo comentar sem ter uma experiência recente, seria falar sem fundamentos. Relativamente ao Mini-Bar, fui várias vezes, regularmente, a última não foi há muito tempo. Neste caso acho que posso ter uma opinião bem fundamentada. Considero-o um exemplo do que pode ser um bom 2º restaurante de um chefe conhecido. Não é o Belcanto, e ali não se tem a experiência do Belcanto (mas quem espera ques os 2ºs restaurante proporcionem a experiência dos 1ºs tem expectativas irreais). Mas é um restaurante com personalidae própria, Com características que o diferenciam do resto da oferta em Lisboa (poderei mesmo dizer em Portugal) com uma cozinha diferente, inovadora, bem feita, com um bom serviço. Tudo isto a um preço muito razoável, que se controla, pois são doses pequenas. Do meu ponto de vista proporciona uma experiência excelente, diferente do comum. Tenho-o aconselhado a muita gente que me pergunta onde pode experimentar uma cozinha diferente a preços razoáveis. Agora se a pessoa não gosta de uma refeição composta por pequenos pratos, se não gosta de uma cozinha mais vanguardista, então não vale a pena. Se bem que no Mini-Bar existam opções que possam satisfazer essas pessoas.


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    De Duartecalf a 01.02.2016 às 11:55

    Olá Paulina,

    Obrigado pela longa e interessante resposta.

    Retomo o tema apenas para precisar que eu não partilho da opinião de que o Cantinho do Avillez ou o Mini Bar não sejam bons restaurantes como, eventualmente, resultou do meu comentário; referia-me a feed back que tenho de algumas pessoas que, como referiu, acham que nestes sítios terão refeições no mesmo campeonato de um 2 estrelas Michelin.

    Quanto ao Mini Bar, concordo consigo em absoluto. Quanto ao Cantinho, acho que cumpre bem o papel de "segunda casa". Não sendo cliente habitual, vou lá com todo o gosto quando se proporciona.
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