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Os prémios e a fama e as suas consequências

por Paulina Mata, em 26.01.19

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Este foi o primeiro cachorro que comi na cervejaria Gazela, foi em Fevereiro de 2010. Foi fácil encontrar a foto, pois é um exemplo que uso numa cadeira de desenvolvimento de produtos alimentares que dou. A salsicha, a linguiça, o queijo, tudo levemente picante e dentro de um pão crocante. Tudo bons motivos para fazer um cachorro apetitoso e com sucesso, mas não é nada disto que me faz usar este cachorro como um caso que mereça ser referido nas aulas. O mais interessante, do meu ponto de vista, é a forma como partem o cachorro, em pequenos troços. É isso que o distingue, pois altera completamente o paradigma do que é comer um cachorro. Não é mais uma sandes, passa a ser um petisco que se consome de uma forma diferente, permite um envolvimento diferente e convida ao convívio e à partilha. Já lá passei à porta algumas vezes à hora de almoço e sempre vi fila de clientes. Ouvi dizer que abriram do outro lado da rua um novo espaço. O anterior era pequeno, um balcão com cerca de uma dúzia de lugares e mais uns lugares em pé.

 

Posto isto, está claro que gosto muito e reconheço valor ao cachorro da Gazela e o seu sucesso. Contudo, há dias quando vi que estava nomeado para os novos prémios da gastronomia The World Restaurant Awards para a categoria House Special  fiquei incrédula. Os cachorros são um dos 5 pratos nomeados no mundo todo, não conheço os outros, mas não vejo justificação. Não é pela qualidade dos produtos usados (vulgar pão, salsicha, linguiça e queijo), nem pela criatividade ou técnica e, a não ser que tenha mudado no novo espaço, não é sequer um restaurante, é um snack bar.

 

Quando tomei conhecimento da nomeação, lembrei-me imediatamente de um artigo que tinha lido uns dias antes, I Found the Best Burger Place in America. And Then I Killed It, sobre um pequeno restaurante de hamburgueres, numa pequena cidade dos EUA, que foi considerado por um jornalista o melhor hamburguer da América depois de ter feito uma pesquisa que envolveu 330 restaurantes em 30 cidades. A procura foi tanta que não deram conta do recado e acabaram por fechar* menos de seis meses depois.

 

Hoje li outro artigo no The Guardian, The problem with food tourism: the chefs fighting to keep their restaurants special, sobre o impacto que prémios como as estrelas Michelin, ou até uma fama obtida por comentários nas redes sociais, podem ter nalguns restaurantes. Refere os problemas que põem e a dificuldade de lidar com eles nalguns casos. Voltei a lembrar-me, com alguma preocupação, do caso da Gazela.

 

Entretanto, li que a razão para a Cervejaria Gazela abrir o segundo espaço, foi terem aparecido no programa da CNN Parts Unknown do Anthony Bourdain. O público, que acredito que na maioria fosse local, aumentou muito e tornou-se mais diversificado. Foi impossível lidar com isso no primeiro espaço, abriram um segundo espaço que logo encheu também.

 

Assim, às dúvidas: "porque razão os cachorros da Gazela?", "qual o objetivo dos prémios e quais os critérios de escolha?", adicionei as dúvidas: "que impacto é que isto vai ter?" e "será que o impacto destes prémios e listas é suficientemente avaliado?". Porque vai ter impacto, quer ganhe, quer não ganhe. Espero que consigam lidar com isso... mas preocupa-me. Numa época em que tanto se fala de sustentabilidade, era bom que esse conceito também fosse tido em conta nestas situações e se avaliasse bem o impacto destas distinções.

 

*Aparentemente não foi só esta a razão, mas as razões adicionais surgiram já depois de ter lido o artigo.

 

 

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