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Os hambúrgueres do Noma - se calhar há alguma coisa que não estou a ver bem, mas...

por Paulina Mata, em 17.05.20

noma 2.jpg

 

verde escuro.jpg

 

Há dois dias recebi um email do Noma. Dizia o seguinte:

On Thursday, May 21st, at 1pm, we will open an outdoor wine bar in our beautiful gardens at noma, overlooking the lake we share with our neighbors in Christiania. Come as you are, there are no reservations, we are open for everyone. You can stop by for a glass of wine, or you can stay for more, and if you get hungry we have two burgers on the menu: the noma cheeseburger and the noma veggie burger. Both are juicy and packed with umami, with a little bit of magic from our fermentation cellar, served on a freshly baked potato bun developed by our friends at Gasoline Grill. 

 

Explicava ainda que o Noma, tal como o conhecíamos iria abrir mais tarde, pois, entre outras coisas, precisavam de algumas semanas para pôr a máquina a funcionar de novo. Tal é compreensível, acontece com muitos restaurantes de fine dining e, sobretudo, com aqueles que dependem de um turismo gastronómico que vai demorar a arrancar de novo.

 

Quanto ao bar de vinhos e hambúrgueres, fiquei incrédula. Mais do que isso, foi um balde de água fria. Depois disto vi muitos artigos, posts... a informar do mesmo, quase não vi (o que não quer dizer que não haja, não procurei exaustivamente) comentários sobre tal opção.

 

O Noma  é um restaurante com duas estrelas Michelin que, desde 2006, quase invariavelmente, está no ranking do The World's 50 Best Restaurants. Pelo menos 7 desses anos esteve num dos primeiros 3 lugares, sendo que 4 vezes esteve no primeiro lugar. O René Redzepi teve um papel determinante no movimento da Nova Cozinha Nórdica. O Noma é um restaurante que sempre se caracterizou pelo Tempo e o Lugar - o local, o sazonal, o que é nórdico. Tem uma cozinha complexa, conceptual, sofisticada e com uma estética própria. No início do livro "Time and Place in Nordic Cuisine", num texto introdutório de Olafur Eliasson, um artista plástico, é dito que se pode considerar que quem come no Noma contactará com uma nova linguagem, uma linguagem que adquire significado pela forma de cada um a usar, ou seja, consoante cada experiência individual de gosto.

 

Por estas razões, no mesmo livro, é referido que os clientes que jantam no Noma devem sentir uma intensa sensação de tempo e de lugar. Esta deve ser o ponto de partida, o núcleo, a primeira camada. Seguir-se-ão uma série de camadas extras de pensamentos conceptuais sobre os pratos, tal como a inovação, a técnica e a equipa certa.

 

Fizeram tábua rasa de tudo isto? Não esperava um Noma em ponto pequeno, mas não há nada do Noma, da sua alma, conceito,  estética e criatividade nesta nova oferta? Onde está o Tempo e o Lugar se no país do Smørrebrød oferecem Hamburgers?

 

burger noma.jpg

 
Onde está o Noma neste hambúrguer? Posso até estar enganada, mas não acho honesto, acho até que revela desleixo e preguiça.
 
 
Não posso concordar mais com um comentário no instagram de René Redzepi que diz: 
 
I deeply appreciate your work and this idea of inclusivity - but healing with burgers? Wish the commoners were allowed a taste of your elegant magic too (zazie_stevens)
 
 
1ª Foto do email do Noma
2º Foto do Instagram de René Redzepi

 

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    De Adriano a 29.05.2020 às 12:46

    Acho que se anda a confundir um pouco comida de conforto com o conforto de não cozinhar. Chamar a um bife amburguês (um conceito gastronómico directamente nascido do cu de cavaleiros) comida de conforto? Tenha já pena pela sua vida sofrida. Não, 30 ostras debaixo de uma videira a olhar para o mar alimenta pouco mas conforta, ou noutro estilo um Pires de caracóis às 19 (já perto do jantar) na praça do Chile pode dar conforto depois da gritaria do patrão agora bifes amburgueses?? Existe algum conforto nisso? A Sofia deve ser de uma geração mais nova não estando ainda em condições de destinguir cigalas do Mediterrâneo das outras ou ovos mexidos reaquecidos dos ovos mexidos à Poirot.
    Entristece muito ler isto dos amburgueses ....
  • Sem imagem de perfil

    De Sofia a 25.06.2020 às 14:16

    Adoro quando surge a egotrip elitista, com julgamentos de algibeira sobre algo tão supra-pessoal como palato.
    Adoro igualmente, até chegar ao ponto de tecer considerações desdenhadas sobre a minha possível idade, coadjuvada por essa falta de coerência ao aludir ao "conforto de não cozinhar" (algo risivelmente erróneo), escrevendo logo depois sobre a degustação de ostras.
    Antes de julgar um comentário de alguém que estagiou e trabalha na cozinha de um restaurante estrela Michelin (também) para servir pseudo-intelectuais-gastro-coisos, recorde-se que o planeta é habitado por mais gente além de si. E para a maioria das pessoas, aquela maioria que não chucha cigalas nem usa videiras para se confortar, a Pizza e os bifes amburgueses são eleitos consensualmente como a comida de conforto do planeta.
    Inseridos neste contexto pandémico, e tendo em conta que cozinhar é acima de tudo um acto de Amor (mesmo quando o fazemos para snobs), a acção do NOMA foi um metafórico Abraço à Humanidade... respeitando os gostos dos outros.
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