Em época de balanços... Alguns livros que li em 2025

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O final de cada ano é sempre uma época de balanços, e hoje acordei com vontade de recordar o que li este ano. Em muitas das minhas leituras há uma ligação forte ao que comemos, a como o cozinhamos, e o significado ou o impacto de tudo isso. Pareceu-me que seria uma boa ocupação para este último dia de 2025 registar aqui alguns dos livros que mais gostei de ler.
Começo pelo último, que acabei de ler ontem. Uma das minhas filhas apareceu aqui com ele há uns tempos e quando o abri tive uma agradável surpresa. Há muitos anos dou regularmente uma aula sobre escrita de receitas. Nela refiro Eliza Acton, uma poetisa inglesa, e autora de um livro de referência, Modern Cookery for Private Families (1845), que marcou uma nova era na escrita de livros de cozinha. É o primeiro livro em que as receitas são escritas no formato atual, com lista de ingredientes separada do procedimento, com quantidades medidas com rigor e descrições cuidadas e completas. Um livro com 576 páginas que levou dez anos a escrever, envolveu uma pesquisa extensa, e o desenvolvimento de muitos pratos originais que foram exaustivamente testados. Várias edições foram publicadas entre 1845 e 1918, tendo nessa altura a editora deixado de o publicar, mas em 1994 foi de novo publicado na integra.
O The Language of Food, de Annabel Abbs, é uma novela baseada em factos conhecidos sobre a vida de Eliza Acton. Foi a recusa de um livro de poemas por um editor, e a sugestão deste para escrever um livro de cozinha, associadas à falência da empresa do seu Pai, que levou Eliza Acton a lançar-se na aventura de escrever um livro de receitas, apesar de nunca ter cozinhado antes e poucas vezes ter entrado numa cozinha. Descobriu uma nova paixão - a cozinha e a escrita de receitas. Todo este processo é o tema do livro, com descrições exuberantes de pratos, processos de criação, de sabores, aromas e suas combinações. Mas, para além disso, abordando aspetos da vida no século XIX, em particular do que era ser uma mulher nessa altura e o contraste entre as classes sociais.

No Oriente a alimentação desempenha um papel central na vida, mais do que fornecer nutrientes e contribuir para a saúde, a comida é identidade, cultura, tradição, tem um papel importante nos laços familiares e afetivos. Boa comida está associada a harmonia e relações mais próximas. Três dos livros que li, de jovens mulheres cujas famílias são originárias de países asiáticos, narram aspetos das suas vidas relacionados com relações familiares, amizades, a vida em países de culturas diferentes e a busca da sua identidade, e refletem exatamente esse papel central da alimentação, como forma de herança cultural e pertença, como meio de conexão, conforto e expressão de emoções.
Nina Mingya Powles, é poetisa, escritora e editora. A sua família é originária da China e da Malásia, ela cresceu e vive na Nova Zelândia. No livro, Tiny Moons - a Year of Eating in Shanghai, fala de muitos dos aspetos que referi acima, relacionando-os com o que comeu ao longo das várias estações, num ano em que foi estudar para Shanghai.

Florentina Leow, é Malaia, e atualmente vive em Tóquio, tendo também passado por Londres. Numa altura em que o seu futuro estava muito indefinido, recebeu o convite de uma amiga para trabalhar com ela a partilhar casa em Kyoto, onde trabalhou como guia turística. O livro relata aspetos desse período, sendo o que comia e os espaços em que comia, alguns em via de desaparecerem, frequentemente referidos.

Michelle Zauner, é uma cantora e guitarrista da banda americana Japanese Breakfast. Filha de mãe Coreana e pai Americano, cresceu no Oregon. No livro, Crying in H Mart: A Memoir, relata essencialmente períodos de busca da sua identidade, viagens à Coreia com a Mãe, o período em que acompanhou a Mãe doente e a sua morte, e o papel que a comida desempenhava na relação delas.

Também de um autor Coreano, Ha-Joon Chang, a viver em Londres onde é professor de economia na SOAS University of London, o objetivo do livro Edible Economics - The World in 17 Dishes é introduzir conceitos de Ciências Económicas partindo de alimentos ou pratos de várias partes do mundo. Com os morangos fala de automatização e suas consequências, com o frango de desigualdades e forma de lidar com elas, com as cenouras dos sistemas de patentes... Um livro de divulgação muito interessante.

Os dois seguintes falam sobre o ambiente de trabalho nas cozinhas, e em particular nas cozinhas de restaurantes de fine-dining. Através dos relatos de duas mulheres, que vivem e trabalham em Londres, são abordados temas de insustentabilidade das formas de trabalho, violência até, problemas de saúde mental e, principalmente, a situação das mulheres nestes ambientes.
Tart - Misadventures of an Anonymous Chef, de uma autora anónima, que se auto-intitula como Slutty Chef, é descrito pela autora como: It’s about kitchens, food and sex. Portanto, a relação com Anthony Bourdain e a sua Cozinha Confidencial, é frequentemente estabelecida. Uma visão do ambiente nas cozinhas que acredito muito real já que Angela Hartnett, uma chef inglesa, refere que é um livro que todos os jovens cozinheiros deviam ler. Começa-se a ler e é difícil parar...

O último de Sally Abé, chef do restaurante The Pem em Londres. Nele relata o seu percurso nas cozinhas profissionais e como isso definiu a forma como agora gere as suas cozinhas. O último parágrafo do livro diz:
Put simply, and definitively, if a restaurante cannot produce intricate, haute cuisine without abusing or exploiting its staff, it raises the question: should it exist at all?
Dá que pensar!

Um dos meus desejos para o novo ano é conseguir ler um conjunto de livros tão bons como estes.
Desejo a todos um Bom 2026!
