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Assins & Assados

A minha estranha relação com o bacalhau

por Paulina Mata, em 17.02.19

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Era certo e sabido que à sexta feira a hora da refeição era tensa. Em criança / adolescente vivia numa pequena localidade da Beira Baixa, a disponibilidade de peixe não era a atual e, lá em casa, à sexta-feira não se comia carne. Recorria-se frequentemente ao bacalhau. Não gostava de bacalhau, não queria comer, mas a minha Mãe insistia que comesse... Eu não conseguia achar graça aquilo...

 

Hoje como bacalhau, com gosto. Mas se, de repente, me perguntarem se gosto de bacalhau, e me derem apenas uns segundos para responder, não responderei com convicção que sim. Talvez até diga que não, também se convicção. Hoje como bacalhau, e gosto, de alguns pratos gosto muito. Contudo, raramente cozinho bacalhau.

 

Lembro-me de ter saudades de bacalhau num ano em que vivi fora, quase há 30 anos. Vim no Natal e levei um bacalhau. Fiz pastéis de bacalhau, bacalhau assado, bacalhau à Braz...

 

Considerando esta minha estranha relação com o bacalhau, nunca me aventurei por aquelas partes "menos nobres" deste - caras, línguas, sames... Nunca entraram na minha cozinha, nem na da minha família. Lembro-me de uma das minhas irmãs (cujo aniversário seria hoje) me dizer que estava a cozinhar caras de bacalhau. Fiquei com a cara meio franzida, não achei de todo atraente (e continuo a achar que nunca comi). Há uns anos comi sames, adorei! Nunca cozinhei, mas já voltei a comer várias vezes. Gosto daquela textura. 

 

Há umas semanas, para uma demonstração de emulsões para uma aula, um dos meus alunos (por sinal brasileiro) sugeriu fazer um pil-pil com línguas de bacalhau. Tive que admitir que nunca tinha cozinhado línguas de bacalhau, nem as sabia cozinhar, ele fez.

 

Uns dias depois fui ao supermercado e vi à venda línguas de bacalhau. Achei que era altura de lhes dar uma oportunidade, e trouxe uma embalagem. Fiz línguas de bacalhau panadas. Gostei de ficar mais "esperta" com a experiência de cozinhar uma coisa diferente. Souberam-me bem com um arroz de tomate* com pimento. Mas a sensação continua a ser a mesma - gosto, mas... Nem sei o que é o mas... mas que há sempre alguma resistência, há.

 

Ao lado estavam embalagens de sames, um dia destes dou-lhes a oportunidade de entrarem na minha cozinha.

 

 

* Pois, eu sei que não é altura do tomate, mas usei tomate em conserva. A atual obsessão com a sazonalidade às vezes quase leva a que se esqueçam coisas bem importantes e interessantes.

Em miúda lembro-me de na época do tomate a minha Mãe fazer conserva de tomate em casa. Vivíamos numa localidade pequena da Beira Baixa, o acesso a vários produtos era limitado. No quintal havia muito tomate no verão, que não consumíamos todo, fazia-se conserva para o inverno e também  muito doce de tomate (o único que havia, a par da marmelada).  Gosto deste conhecimento, e do engenho e arte para desenvolver técnicas para conservar alimentos, e dos novos sabores desses alimentos.

O sabor do tomate em conserva no inverno faz parte das minhas memórias gastronómicas e não tenho nada contra ele, antes pelo contrário. E, já agora, temos mesmo ótimas conservas de tomate produzidas pela indústria alimentar.

 

 

1ª foto adaptada DAQUI

 

 

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