Em qualquer viajem o momento do regresso a casa é sempre bom. É regressar ao nosso espaço e conforto, e aos nossos sabores. Nesta viagem à volta do mundo à mesa em Lisboa, resolvi fazer uma paragem em Portugal. Para isso escolhi um restaurante onde vou frequentemente há mais de 40 anos, e onde sempre me dei bem - o Cova Funda, perto da Alameda Dom Afonso Henriques. Um restaurante de bairro, sempre muito concorrido, um restaurante simples, mas em que o que importa - a comida - é sempre bem confecionada e com bons produtos.
Ir ao Cova Funda é sempre ter uma escolha variada, que muda consoante a oferta da época e o disponivel no momento. É encontrar uma série de pratos e sabores que fazem parte das nossas memórias gastronómicas. As doses são grandes e, desde que complementadas por uma sopa ou umas entradas, dão bem para duas pessoas.
Numa recente ida ao Cova Funda, depois dos salgadinhos iniciais, chamuças e rissóis de camarão, pedimos uma sopa. As sopas aqui têm a particularidade, de que muito gosto, de virem numa terrina. Pedimos sopa para 2 pessoas, e depois de 2 pratos cada, ainda ficou sopa na terrina. Gosto desta forma de servir, que de certa forma nos remete para o passado, um ambiente familiar de generosidade e partilha.
Veio então um óptimo Arroz e Polvo
E para sobremesa apenas uma laranja
Num outro jantar, comemos lá um óptimo Coelho à Caçador
A que se seguiu um leite creme
Recentemente, a caminho de casa, passei à porta e na montra li "Hoje temos Lampreia". Impossível resistir...
Que continuem a existir muitos restaurantes como o Cova Funda, que nos sirvam os nossos sabores, com produtos de qualidade e bem confecionados, e ainda por cima a preços acessíveis.
A paragem mais recente nesta viagem à mesa em Lisboa foi na Suíça. Num ambiente muito em consonância com o tipo de cozinha fizemos uma refeição onde o queijo não faltou.
Começámos com uma cerveja, que acompanhou o couvert e toda a refeição.
Para entrada partilhámos:
Raclette à la Portion - queijo de raclette, batatas, cornichons e pickles de cebolinhas
Dissemos que íamos partilhar os pratos seguintes e eles chegaram-nos já divididos:
Saumon Poché au Fromage Schabzieger (Queijo de Ervas do Cantão Glarus) com Couves de Bruxelas e Spätzli
Língua de Vitela com Rösti com Speck
Para sobremesa pedimos que nos sugerissem algo leve, e veio um agradável doce:
Mousse de Maçã "Chrige" com sumo biológico não filtrado, Limão e Natas
Tanto quanto sei o único restaurante suíço em Lisboa. Um ambiente agradável, acolhedor e muito suíço. O dono é muito simpático e disponível para aconselhar. Uma comida muito familiar. Uma refeição diferente e agradável.
A visita ao México, nesta viagem à volta do mundo à mesa em Lisboa, foi ali para os lados do Cais do Sodré. Foi no Las Ficheras. Uma refeição mais Tex-Mex (uma fusão de cozinha Texana e Mexicana) do que tradicionalmente mexicana. Pela minha experiência esta é a comida oferecida pela maioria dos restaurante mexicanos que tenho encontrado pela Europa.
Começámos com
Cacahuates enchilados amendoins tostados e temperados com sumo de citrinos e chili
Pimientos Padron e Totopos
Acompanhadas de Maguerita, cerveja Sol ou um Virgin Mojito (sem álcool), consoante o gosto e a idade.
Seguiram-se duas entradas:
Pico de gallo y totopos tiras de tortilha de milho crocante, regadas com molho fresco de tomate picado, cebola e sumo de lima, cobertas com queijo fresco esfarelado e creme de coentros.
Nachos con Carne totopos com queijo, pico de gallo, jalapeños e chile com carne
Depois partilhámos 3 pratos:
Chile de carne carne picada estufada com especiarias, variedade de chilis, feijão vermelho, queijo fresco esfarelado e coentros, acompanhada com tortilha de milho crocante
Burrito Las Ficheras tortilha de trigo recheada com carne de vaca picada, puré de feijão, pico de gallo, arroz e queijos Monterey Jack e Cheddar
Fajitas de Novilho tortilhas frescas, tiras novilho grelhado, tiras de pimentos e cebola branca, acompanhadas por puré de feijão preto, guacamole e salsas verde e roja
Acabámos com umas modernas sobremesas, agradáveis e com sabores mexicanos:
Esponjoso de maracuyá con tequilla
Cornucopia de Hibiscus e cacahuetes con Mousse de Aguacate
Um almoço de sábado agradável e com sabores fortes, a recordar a descoberta, há muitos anos, destes sabores em Londres. Também por isso soube bem.
Las Ficheras - Rua dos Remolares, 34, Cais do Sodré, Lisboa
Há precisamente um ano propus-me viajar à mesa em Lisboa, fazer paragens em tantos países quanto possível, e relatar aqui essas paragens (ou pelo menos algumas, pois há paragens que tenho repetido e sobre outras não me apetece escrever). Durante este ano fiz 23 paragens, em mesas de 22 países diferentes. Outras estão previstas, algumas das que já fiz não poderão ser repetidas, pelo menos nos mesmos locais, pois estes fecharam. A viagem vai prosseguir...
A paragem de que hoje dou conta foi na Suécia, num ambiente sueco, ou seja no IKEA. O que se paga pelo que se come, em regime de self-service, é mais do que razoável, o que se come, sobretudo se se tiver em conta a relação preço/qualidade, é bom. Também aqui se adaptam aos gostos ao público e aos tempos que correm, há propostas vegetarianas e há propostas ao gosto nacional, como francesinhas ou o bacalhau assado, por exemplo. Por todas estas razões os clientes que ali acorrem para as suas refeições são muitos. Eu no IKEA como pratos suecos, afinal vou lá 2 ou 3 vezes por ano no máximo.
Para iniciar partilhámos uma entrada, com bandeirinha e tudo!
Wrap de salmão marinado
Seguiram-se as inevitáveis almôndegas suecas, um dos meus (non) guilty pleasures. Gosto a combinação com o molho de natas e sobretudo com o doce de arandos e o puré que é muito razoável.
Almôndegas suecas
Não costumo comer sobremesa, mas post obriga... e partilhámos um bolo
Tarte de caramelo e chocolate (Daim)
Para acompanhar uma bebida de sabor floral e delicado (não, não vinha com bandeira, fui eu que a meti lá, achei que ficava mais compostinha para a foto).
Bebida de Flor de Sabugueiro
Não será a melhor comida sueca. É a possível e é agradável.
Nesta 23ª paragem (e 22º país) na viagem que me propus fazer à volta do mundo em Lisboa o destino foi a Tailândia.
A cozinha tailandesa, que não está muito presente na nossa restauração, é uma cozinha de que muito gosto. A minha primeira experiência foi há mais de 20 anos em Londres, o impacto foi grande pois aqueles sabores e aromas eram-me completamente desconhecidos. Há uns meses soube que tinha aberto um restaurante de comida tailandesa em Lisboa, o Sala Thai, perto da Av. de Roma. Fui lá almoçar, o restaurante estava completamente vazio e, por isso, foi com grande alegria que num sábado recente lá estive e encontrei o restaurante com bastante movimento. Espero que este se mantenha, e de preferência aumente, e que a oferta seja cada vez melhor. É bom ter mais um espaço onde desfrutar destes sabores em Lisboa.
A refeição começou com
Satay Goong - espetadas de camarão grelhadas com molho de amendoim tailandês
Gosto muito das entradas de satay, em geral como de frango, e também já a comi na Sala Thai, desta vez experimentámos a de camarão, também bastante boa e com uma dose muito generosa.
Seguiu-se outro dos meus pratos preferidos. Os caris tailandeses são únicos, pela mistura de ervas aromáticas e outros temperos. Completamente distintos dos de outras cozinhas, acho que foram eles que inicialmente despertaram o meu encantamento pela cozinha tailandesa.
Gang Keaw Waan Gai - caril verde de frango cozinhado com leite de coco, beringelas e folhas de mangericão frescas
E para terminar
Sagu - Tapioca em leite de coco com manga doce, lima e fios de ovos
Sobremesas diferentes, gosto muito desta e foi bom encontrá-la aqui. Os fios de ovos deram-lhe um toque especial, sobretudo porque foram levados pelos portugueses para a Tailândia, uma das nossas influências em cozinhas de países distantes.
Uma refeição muito agradável que me deu vontade de voltar para experimentar outros pratos. Uma sugestão, deveriam ter na mesa apenas colheres e garfos (em vez da faca e garfo) como acontece na Tailândia.
Foi à denominada Costa do Malabar, que Vasco da Gama chegou em 1498, e Costa do Malabar é também o nome de um restaurante de cozinha indiana, tanto quanto sei o primeiro a nos trazer os sabores do sul da Índia. Na imprensa muito se tem falado deste restaurante, que abriu em Julho, e ele transformou-se num caso de sucesso. Na primeira vez que lá fui, tinha aberto há menos de um mês, apenas outra mesa estava ocupada. Quando recentemente lá fui jantar, a uma sexta feira, tivemos sorte em arranjar logo mesa, a única livre, e pouco depois havia um grupo à porta à espera de mesa.
Começámos com duas entradas
Uzhunnu Vada
pastéis de lentilhas, gengibre, pimenta preta e folhas de caril com chutneys
Cherayi Koonthal
lulas marinadas com especiarias do sul da Índia
A que se seguiu uma das famosas dosas
Masala Dosa
crepe de arroz e lentilhas, recheado com puré de batata levemente temperado
Como prato partilhámos
Meen Pollichath
peixe grelhado, marinado, enrolado em folha de bananeira
que acompanhámos com
Lemon Rice
Arroz basmati cozinhado com limão, especiarias e amendoins
E porque o que é doce nunca amargou, e sabe sempre bem terminámos com
Bebinca
uma sobremesa da culinária indo-portuguesa de Goa
Pratos diferentes do habitual, novos sabores, relativamente suaves, comida pouco picantes. Uma experiência interessante que terminou com a bem familiar, e que muito aprecio, bebinca. Muitas coisas desconhecidas para experimentar em próximas visitas que certamente farei. Preços baixos, e isso tem como consequência que os produtos também por vezes não tenham a qualidade ideal... mas, como em tudo, tem-se aquilo que se paga e de certa forma o que o mercado aceita. Com peixes com mais qualidade, certamente a experiência seria ainda melhor, mas por 3,9 euros pelo prato de lulas e 7,9 euros pelo de peixe, não é possível fazer milagres.
Gosto muito de comida do Médio Oriente e dos seus misteriosos sabores, já aqui o disse, de modo que quando soube da abertura de um novo restaurante libanês em Lisboa, não demorei muito tempo a lá ir. Aconteceu recentemente à hora do almoço, num dia em que estava pela zona do Cais do Sodré.
O nome do restaurante intrigava-me: Muito BEY. Fiquei esclarecida ao ler o verso do menu:
"O nosso nome diz tudo: somos de Beirute e somos apaixonados por Lisboa, a nossa cidade adotiva. Para exprimir esse sentimento, combinámos BEY - o acrónimo do aeroporto de Beirute, que simboliza a nossa abertura e a nossa simpática diáspora, com Muito Bem - a nossa expressão favorita em português! Muito Bey é basicamente o que aconteceria se puséssemos um pedaço de Beirute em Lisboa."
Cheguei a um espaço cheio de luz, alegre, decorado com bom gosto e onde me senti bem.
Optei pelo menu de almoço (13,5 euros) que inclui 1 sopa ou salada, 2 mezze, 1 grelhado e 1 bebida. A escolha era variada e apetecia-me provar tudo (tenho que voltar), mas optei por:
Tabulé (salada de salsa picada com bulgur, tomate, cebola e hortelã fresca), Mutabal (pasta de beringela assada com tahini) e Labné Meklié (almôndegas panadas fritas de iogurte cremoso coado), que vieram acompanhados por um pão. Tudo muito fresco e saboroso.
Kafta (espetadas de carnes de vaca e de borrego picadas com salsa e cebola) muito bom também e que combinou muito bem com a salada que tinha chegado antes e com a pasta de beringelas.
Decidi provar também uma sobremesa.
Reze Bi Halib (mil folhas de arroz doce aromatizado com água de flor de laranjeira). Uma sobremesa que faz bem a ponte entre Beirute e Lisboa, o "nosso" arroz doce, com um sabor e textura bem familiares, mas com o toque exótico que lhe dá a água de flor de laranjeira, entre camadas de uma fina massa crocante e com a indispensável canela.
Gostei muito! O serviço ainda precisa de uma afinação, o que é normal num restaurante que abriu há apenas uma semana, mas é um espaço que promete e que nos proporcionará certamente novas e boas experiências.
Chukran, que significa obrigado (e que no bem humorado lisbeiruti, a língua do Muito Bey, se diz Chukrado). É bom ter um restaurante assim em Lisboa.
Muito Bey, Rua da Moeda, 4A, Cais do Sodré, Lisboa
Na Viagem à Mesa em Lisboa, que há uns meses comecei e tem andado em fase de pausa, voltei até à China. O objectivo foi comer pratos diferentes dos que alguma vez tivesse comido em restaurantes chineses. O restaurante escolhido foi o The Old House no Parque das Nações. Importante também foi arranjar companhia que alinhasse nas minhas (diferentes) escolhas.
De entrada comemos:
Conjunto de Carne Marinada
Patas, línguas e moelas de pato marinadas e cozinhadas. Gosto destes sabores, gosto de pratos onde se usam estas partes dos animais menos habituais. São bem características de uma cozinha tradicional em que nada se desperdiçava, e onde a criatividade permitiu desenvolver formas interessantes de as comer. Não foi a minha estreia nas línguas de pato, mas foi a de quem me acompanhou. Uma experiência diferente, mas de que ambos gostámos muito. Já as patas de pato, uma estreia para ambos, não nos entusiasmou tanto. São difíceis de comer, e também têm pouco que comer. A nossa referência eram as patas de galinha, que nos habituámos a comer na canja em crianças, e que como muito em restaurantes chineses preparadas de outras formas, e de que gostamos bem mais - da textura e da recompensa pelo trabalho que temos.
Seguiu-se o prato principal.
Peixe Assado da Casa
Um robalo assado com acompanhamentos menos habituais - pepino, brócolos, amendoins e batata. Bem diferente de algum peixe assado que alguma vez tivéssemos comido. Uma experiência que valeu a pena.
Finalmente para sobremesa:
Bing Fen
Uma sobremesa típica de Sichuan, caramelo, um xarope, cubos de um gel de agar praticamente sem sabor, cujo papel era essencialmente a textura que conferia, sésamo, bagas de goji e outros frutos secos. Disseram-nos para misturar tudo muito bem antes de comer. E... adorámos! Um género de sobremesa bem diferente das nossas, uma sobremesa leve, mas muitíssimo boa.
Fomos com o objectivo de comer apenas coisas bem diferentes do que algumas vezes tivéssemos comido... Uma óptima experiência. A repetir seguramente. Sair completamente para fora da nossa zona de conforto, de espírito aberto, é uma componente importante destas viagens à mesa.
Dia de final do europeu é uma boa justificação para ir até Paris nesta viagem à volta do mundo à mesa em Lisboa. E assim foi... um almoço no Comptoir Parisien, um restaurante francês que recentemente abriu em Belém.
Decidimos sentar-nos dentro do restaurante, pareceu-nos mais agradável. O acolhimento foi bom e, posteriormente, o serviço bem simpático. Ouvia-se falar francês, e o menu chegou-nos também em francês, mas com a tradução.
De entrada escolhemos uma das sugestões do dia:
Pâté de Campagne et Saucisson
Muito francês, muito agradável, acompanhado por um copo de vinho branco, que também acompanhou o prato seguinte.
Salade Niçoise "La vraie"
Não sei se era mesmo a autêntica, mas soube quase bem... Eu explico o "quase". Nos últimos anos houve uma praga que invadiu a restauração, um molho adocicado e escuro a que chamam redução de vinagre balsâmico. Um molho que em 99% (o 1% que falta é uma salvaguarda para alguma situação que não estou a ver neste momento) não faz lá falta nenhuma, de facto tudo era bem melhor se ele não estivesse lá, seja em que cozinha fôr. E esta salada, e também a que acompanhava o pâté, eram bem melhores se aquele molho não estivesse lá. As azeitonas também eram das "pintadas", a salada ganharia com melhores azeitonas.
Ao longo da refeição a esplanada foi chamando por nós...
Fomos para lá comer a sobremesa. Escolhi uma tarte Tatin. A última que tinha comido, num outro restaurante em Lisboa, deixou-me muitas dúvidas, e estava curiosa. Achei engraçada a apresentação. Gostei das gotinhas de mel e do caramelo levemente salgado. Comemos com agrado.
Tarte Tatin avec Glace Vanille
Mas deixou-me sérias dúvidas também. Na tarte Tatin cozem-se as maçãs com açúcar caramelizado e pôe-se uma massa folhada por cima que é a seguir cozida, sobre as maçãs. A massa não me pareceu folhada, e a parte de baixo não estava corada, portanto penso que não deve ter sido feita dessa forma. E a massa era mesmo o ponto fraco da sobremesa.
São poucos os restaurantes franceses em Portugal. Este, aberto recentemente por um casal de franceses que teve antes dois restaurantes em Paris e que se apaixonou por Lisboa e decidiu abrir cá um restaurante, dá-nos a oportunidade de comer comida francesa. Fiquei com vontade de voltar para provar outros pratos. Mas da próxima deixo bem claro que quero tudo sem a redução de vinagre balsâmico, é que tudo será bem melhor.
Era dia de jogo de futebol, Portugal-Croácia. Um jogo de futebol não é coisa que me entusiasme. Não entendo e não vibro minimamente com o que se passa no relvado. Combinámos ir jantar a um restaurante do Bangladesh. Há algum tempo que queria lá ir. Vínhamos do Chiado e fomos a pé até ao Largo do Intendente para passear um pouco antes do jantar. Umas crianças jogavam futebol na rua, dois meninos e uma menina com um lenço na cabeça e um vestido até aos pés que não lhe conseguia atrapalhar os movimentos.
Passámos à porta do Bangla, o restaurante de que tinha lido boas referências. Cheio. Pelo caminho até ao Largo do Intendente muitos restaurantes ofereciam cozinha do Bangladesh e Indiana. Pareceu-me que se tinham multiplicado bastante desde a minha última ida ali - e não foi há muito tempo. Alguns cheios também, outros com pouca gente. Alguns com pessoas a ver o jogo, quase todos. No Largo do Intendente também se assistia ao jogo nas esplanadas, ecrãs na rua, virados para a esplanada. Demos uma espreitadela ao resultado do jogo, e voltámos para trás.
Chegámos ao Bangla, olhámos para dentro. Perguntaram-nos se queríamos mesa, dissemos que sim. Alguma troca de palavras com dois homens, eventualmente do Bangladesh, que bebiam café e imediatamente se levantaram e a mesa ficou para nós. Olhámos em volta, numa mesa vários jovens croatas, a avaliar pelas bandeirinhas pintadas na cara, assistiam ao jogo. Noutra portugueses. Pelo meio pessoas que podiam ser do Bangladesh.
Olhámos para a carta. Pratos bem característicos da cozinha do Bangladesh era o que queríamos. Pedimos conselhos. A ajuda foi sempre solicita e simpática, assim como posteriormente o interesse sobre se tínhamos gostado. Um biriani era inevitável. Depois a escolha era variada - sugeriram-nos um prato de vaca. "No Bangladesh somos muçulmanos, comemos muita vaca, os Hindus na India é que não comem" informaram-nos. E assim foi, ficou decidido que seria um Biriani de Frango e um Caril de Vaca (Beef Patia) para pratos principais. Para entrada um Puri de Camarão. E ainda um Chapati para ajudar a comer o molho da vaca.
Chegou o Puri de Camarão.
Sem grande apresentação, abrimos para ver o que estava dentro.
Cheirava bem. Dividimo-lo e comemos. Era tão saboroso! Tão aromático! E a cada garfada dizíamos "Tão bom!".
Já estive na rua do Benformoso várias vezes à horas de saída da mesquita. Já vi várias vezes a rua ser subitamente "invadida" por dezenas, mesmo centenas, de homens muçulmanos que vão depois beber ou comer qualquer coisa a um dos muitos estabelecimentos da rua. Por isso, quando de repente vi entrar muitos homens, percebi que deviam vir da mesquita. Bebiam e comiam qualquer coisa em pé, por entre as mesas. Esperavam por comida que levavam depois em sacos. Uns paravam a ver o jogo.
Chegou o caril de vaca e o biriani.
Saborosos, aromáticos, a vaca picante, mas nós gostamos. Comíamos e, de vez em quando, dizíamos "Tão boa a comida.". O ambiente era diferente, único. Quem diria que estávamos no centro de Lisboa...!!!
Acabou o jogo, os croatas já tinham saído antes do prolongamento. A alegria foi comum aos portugueses que assistiam ao jogo e aos homens muçulmanos que por ali estavam. A nossa mesa era a um canto, devemos ter sido dos poucos que não nos manifestámos. apenas olhávamos aquela festa comum. E olhávamos também para a montra dos doces.
Tantos... Difícil escolher! Decidimo-nos por dois de farinha de grão, que nos disseram serem um pouco menos doces. Pedimos dois chá e ali ficamos com aqueles sabores e texturas bem exóticos.
Quem diria que estávamos em Lisboa! Num espaço onde convivem diferentes culturas. Esta viagem tinha-nos levado tão longe! E lembrei-me de uma parede, logo à entrada da rua, no largo onde os meninos e a menina jogavam à bola.
PS
Só depois deste post publicado soube do atentado que no mesmo dia ocorreu num restaurante do Bangladesh. É tão triste esta época em que o convívio de culturas é cada vez mais dificultado.