Por vezes há dias de sorte... ou será que é muito treino e experiência? A lista tinha 19 opções e eu escolhi uma, e acertei! Entre fraldas, exames, cozinhar e preparar biberons e fazer o relatório das minhas atividades dos últimos três anos pouco tempo ficava, ainda refilei pela escolha ser complicada...mas não tive outro remédio. Nas vésperas da ida a Londres a minha filha perguntou-me onde queria almoçar, disse-lhe que escolhesse ela, o almoço teria que ser vegano e ela é que estava a par do que havia. Foi na sequência desta conversa que recebi a tal lista. Perante a minha indignação com a extensão da lista, ela disse-me que em Londres há mais de 300 restaurantes vegetarianos e veganos e ela desses tinha escolhido apenas 19 (com o link dos respetivos sites) para me facilitar o trabalho. Nos intervalos do trabalho, roupa, cozinha, fraldas e biberons fui clicando nos links e olhando para os menus. Rapidamente arranjei um critério: hamburgueres, pizzas, bowls e coisas do género estavam fora de questão. A redução foi drástica a lista passou de 19 para 5. Uma breve vista de olhos aos menus e a escolha foi o Vanilla Black. Ainda por cima era central, o que dava jeito. Nem li mais nada.
Hoje percebo que a escolha foi boa, depois de ter lido meia dúzia de críticas que dizem coisas como que é o melhor restaurante vegetariano de Londres, que se pudessem escolher só um seria o Vanilla Black, que tem uma comida surpreendente e inovadora e outras coisas do género. O restaurante, de Andrew Dargue and Donna Conroy, não é recente, abriu em 2004, numa altura em que ser vegetariano ou vegano não era tão comum. Sendo vegetarianos cansaram-se de ir a restaurantes e nem precisarem de olhar para o menu para escolher os pratos pois as massas, o risotto de cogumelos e os caris de vegetais eram sempre as opções. Havia mais mundo para além daquilo... Abriram um restaurante em que ficou definido não haver estes pratos. De facto é um restaurante de fine dining que por sinal é vegetariano, e com muitas opções veganas.
O restaurante é em Holborn, numa rua estreita numa zona de edifícios altos que parecem de empresas, acho que por ali há também várias coisas ligadas à justiça. O ambiente é bastante clássico e elegante, paredes claras, madeiras e uma iluminação que cria um ambiente intimista. As empregadas de mesa (só vi mulheres) de preto e branco, com um ar bastante clássico também.
Ao almoço funciona com menu de degustação dois pratos 23 £, três pratos 28,5 £. Escolhemos comer apenas entrada e prato principal, e como éramos 3 pessoa pudemos experimentar todas as entradas e pratos.
Salted Caramel Beans and Black Olive Madeleine
Burnt Lemon, Tomato and Green Olive Mayonnaise
Este foi o primeiro prato que provei e era tão, tão bom! A diversidade de sabores e a sua intensidade, a variedade de texturas. Excelente! Talvez o prato de que mais gostei. Mas os que seguiram eram muito bons também.
Whipped "Cheese", Branston Pickle Toffee and Sourdough
Cellery and Lovage Jam and Walled Garden Salad
Cauliflower Croquette, Endive and Cocoa
Pickled Cauliflower and Puree
Warm Mushroom Paté, Lemon and Rice
Field Mushrooms and Spinach
Nos últimos anos cresceu muito a oferta de refeições vegetarianas e veganas, mas em restaurantes de fine dining ainda não são muito comuns. É sempre com muito prazer que as experimento e acabo por concluir que não sinto particularmente a falta do peixe ou da carne. Que é possível ser criativo e obter resultados de alto nível.
O preço é mais do que razoável para o que foi servido, e se tivermos em conta que o restaurante é o centro de Londres, mais razoável é ainda.
Ficou a vontade de voltar um dia ao jantar para experimentar pratos mais elaborados...
Quando entrei no Boubou's a primeira sensação foi de surpresa, o pequeno bar na entrada, a sala interior, e depois o pátio, onde jantámos, cheio de plantas e muito agradável. Tinha vindo diretamente do trabalho, chegar ali foi como que entrar numa bolha, e tudo o resto ficou lá fora. Ao pensar nisso hoje, passados já uns dias, acho que tal sensação está relacionada com as características do espaço, que são um reflexo do percurso de vida de quem está por detrás dele. Alexis e Agnes Bourrat, ele francês mas com ligações familiares a Portugal, ela húngara com nacionalidade inglesa, ambos trabalharam em restaurantes e hotéis de renome em Inglaterra, e foi aí que se conheceram. Decidiram depois vir para Portugal e abriram o Boubou's no Príncipe Real. No comando da cozinha Louise, irmã de Alexis. As suas vivências e percursos de vida refletem-se no espaço, mas também no menu. Tudo nos faz sentir um pouco "de férias, num outro qualquer lugar".
Quando recebi o convite para ir ao Boubou's, ainda não tinha ouvido falar no restaurante, e não fiz nenhuma pesquisa, portanto tudo foi surpresa. O que foi bom, ainda acentuava mais a tal sensação de férias e de descoberta. Éramos três pessoas à mesa e deixámos a decisão do que iríamos comer a Alexis Bourrat, que nos recebeu.
Pouco depois chegaram três entradas:
Ceviche de Atum
Tártaro de Salmão
Croquetes de Coelho
As duas de peixe, saborosas, frescas e leves. A de atum, com o ovo por cima, mais interessante. Dos croquetes de coelho, baseados numa receita de rillettes da família Bourrat, com a mostarda que lhes avivava o sabor, gostei muito. Uma entrada a remeter para sabores franceses.
Chegou depois um dos pratos com mais sucesso do Boubou's, o Kebab de Cordeiro com Pão Pitta e vários condimentos. Este é depois preparado na mesa para que cada um possa rechear o seu pão a gosto.
Numa época em que as propostas de muitos dos novos restaurantes são dominadas por pequenos pratos que se partilham, gostei desta ideia do grande prato que fica no centro da mesa e se partilha também, mas comendo todos o mesmo. Neste caso, para além disso, a componente da preparação, com um certo carácter lúdico e informal, permite uma interação entre as pessoas na mesa que pode ser interessante e incentivar à descoberta dos vários condimentos oferecidos. Quase remete para uma refeição familiar, para um momento de descanso descontraído.
Chegou a hora da sobremesa, os meus companheiros decidiram-se por sobremesas frescas e leves, de que normalmente também gosto mais. Mas, decididamente, eu estava num dia de comida conforto. Ainda provei as agradáveis sobremesas deles, mas o que me soube mesmo bem, vinha mais na linha dos croquetes de coelho e do "kebab", e foi o Paris-Brest.
Cremoso de Yuzu e Limão com Crumble
Abacaxi, Gingerbread, Sorvete de Framboesa
Paris-Brest, Praliné, Avelã
A descoberta do Boubou's foi uma agradável surpresa, em particular pelo tipo de propostas diferentes do habitual, e também pela influência francesa, não muito comum em Lisboa. Embora recorrendo tanto quanto possível a produtos portugueses, o Boubou's permite-nos viajar por outras paragens.
Nada sabia da cozinha da Arménia, mas também não procurei. Por vezes é bom ir sem expetativas, completamente à aventura, e depois desfrutar do que der e vier. Foi o que aconteceu quando fui ao Ararate pela primeira vez, logo após ter descoberto que havia um restaurante de comida da Arménia em Lisboa. Se a primeira visita foi uma ida às cegas, da segunda já sabia o que me esperava, e a motivação principal foi a de descobrir novos pratos.
Bem perto da Gulbenkian, portanto quase paredes meias com o legado que um Arménio nos deixou, o restaurante é grande, confortável e com um ambiente simples, mas com alguma sofisticação. No menu os pratos estão bem explicados e ilustrados.
Da primeira vez começamos a refeição com um Khachapuri Barco, descrito como um pastel tradicional caucasiano recheado com queijo, gema de ovo e manteiga. Adorei o pão macio e saboroso, e a cremosidade do recheio. Gostei do serviço na mesa, em que o empregado mistura a gema com o queijo derretido e corta o pão em pedaços. Da segunda vez começámos também a refeição com o Khachapuri Barco.
A primeira decisão na segunda visita foi, contudo, sobre o vinho a escolher. Na carta havia alguns vinhos da Arménia, um país com uma longa tradição na produção de vinhos, e que para nós eram completamente desconhecidos. Diz-se que após quarenta dias e quarenta noites de chuvas torrenciais, a Arca de Noé chegou à mais alta montanha da Arménia, o Monte Ararate, e que das primeiras coisas que Noé fez foi plantar vinha para produzir vinho. Estando no restaurante com o nome da montanha, e dado que não nos víamos há bem mais de quarenta dias e quarenta noites, não podíamos mesmo deixar de escolher um vinho da Arménia.
A carta tem uma secção de petiscos. Foi por aí que começámos das duas vezes, o objetivo era experimentar diversas coisas. Sendo as doses relativamente generosas, mal saímos daí. Explorar melhor os pratos principais terá que ficar para próximas oportunidades. Entre as duas visitas, tive oportunidade de provar:
Khinkali - saquinhos de massa recheados com carne picada e um caldo aromático
Satsivi - peru em molho de nozes
Dolmá - carne de vitelão picada com arroz, cebola, verduras e especiarias, envolvida em folhas de videira com molho de matsun e alho
Tjvjik - fígado, coração e pulmões de cordeiro estufados com cebola e tomatada
Chacapuli - pedacinhos de borrego com vinho branco, ervas aromáticas e alho
Achei este último prato menos interessante, mas todos os outros me agradaram muito. Para os acompanhar pão, não só um pão levedado, mas também Lavash, um pão em folhas finíssimas, muito tradicional na Arménia.
Um dos "pratos fortes" do Ararate são os Khorovats ou seja as espetadas. Na segunda visita comemos uma espetada de costeletas de borrego acompanhada de uma espetada de batatas. A carne excelente e tenríssima.
Para terminar, da primeira vez escolhemos o Ecler, uma sobremesa francesa adotada pelos Arménios.
Já da segunda aventurámo-nos por uma maior diversidade de doces.
Torta de Merengue com creme
Bolo de mel
Pakhlava - pasta de nozes trituradas com cravinhos e canela, envolvida em massa filó e banhada em xarope
E para terminar, enquanto acabávamos de pôr a conversa em dia, um brandy da Arménia.
É bom ter em Lisboa oportunidade de desfrutar dos sabores de outras paragens, viajar à mesa é excelente, e desta vez foi por sabores completamente desconhecidos. Muito há ainda por explorar... ficou a vontade de o fazer.
As minhas viagens à mesa em Lisboa andam pouco variadas. Tenho-as feito, mas em geral revisitando destinos onde já estive. É altura de novas aventuras... uma, recente, foi para um destino há muito adiado.
Há anos que planeava ir ao Café Buenos Aires. E quando digo anos, eram mesmo muitos anos... já que o Café Buenos Aires abriu em 2002. Há dias estava ali perto, estávamos a pensar onde jantar, e o destino foi, finalmente, o Café Buenos Aires. Felizmente chegámos cedo, porque as mesas estavam quase todas reservadas.
Gostei do ambiente e gostei da música. Há quem diga que lembra os cafés de Buenos Aires, não sei pois nunca lá estive. Mas o ambiente, as mesas com estrangeiros a beberem um copo de vinho, o ruído de fundo, davam a sensação de estar num outro local. Estava a precisar de fugir um pouco do quotidiano, por isso foi um bom começo.
Quanto ao menu, tem alguns pratos argentinos, outros de cozinha mais global, e pratos de outras cozinhas também. Era a primeira vez que estávamos no Café Buenos Aires, decidimos ficar pelos pratos da Argentina, que acompanhámos com um vinho também argentino. Aliás a opção da maior parte das pessoas que ocupavam as outras mesas foram também os pratos de carne.
Começámos com
Pastéis de Carne Argentina
Para prato principal comi o bife indicado como "Especialidade"
Tira de Carne Argentina Grelhada. Com Chimichurri e Batata Doce de Aljezur
Excelente carne e bem confeccionada. O Bife Argentino que foi para a mesa ao lado, tinha um óptimo ar também. Para terminar, uma sobremesa para partilhar, que acompanhei com uma infusão argentina, um Mate-Cocido.
Bola de Gelado Caseiro de Dulce de Leche
Soube-me bem esta visita a outras paragens. Hei-de voltar, pela comida e pelo ambiente, e até para experimentar outros pratos.
Café Buenos Aires - Calçada do Duque - 31B, Lisboa
Estava com fome, e também com saudades de ir ao Fome. A escolha foi óbvia para o jantar de sexta feira, fui ao Fome matar a fome e matar as saudades. Quando me trouxeram o quadro com os pratos do dia e me explicaram cada um, pensei que não ia ser fácil decidir e, obviamente, pensei que tinha que voltar breve. Cheguei mesmo a pensar voltar no dia seguinte, não aconteceu, mas não vão faltar muitos dias, porque não deu para matar as saudades todas, porque gosto muito do Fome. Gosto da comida, gosto do espaço bonito, do ambiente acolhedor e da forma simpática como nos recebem. Gosto de haver sempre novas coisas para experimentar, e da sensação de que tenho andado a perder muito, e que seja o que for que escolha vou falhar alguma coisa de que ia mesmo gostar...
Trouxeram-me um tabuleiro com vários pratinhos e um cesto de pão, perguntaram-me o que queria escolher para couvert. E eu escolhi:
Hummus de lentilhas com papadums e corações de frango
Nunca me tinham servido corações de frango no couvert, não será para toda a gente, mas o tabuleiro tem várias opções e cada um escolhe o que quer. Souberam-me bem, mas o que de facto me encheu as medidas foi o hummus de lentilhas com papadums. Delicioso e com um sabor muito elegante!
Por esta altura a temperatura acolhedora da sala, a música e o ambiente agradável, em que se via que toda a gente estava curiosa com a comida e satisfeita também, já me tinham feito esquecer o longo dia de trabalho sentada em frente do computador.
Mexilhões com molho à tailandesa
Vieram os mexilhões, para abrir o apetite para o prato seguinte. E abriram mesmo, com os seus suaves sabores exóticos.
Seguiu-se o prato principal, uma coisa que não comia há muito:
Sável frito com açorda de ovas
Tudo muito bom! Com alma e personalidade.
Já estava quase sem fome, mas a gulodice fez-me escolher uma das sobremesas. Já ela estava sobre a mesa, fizeram-me sinal para esperar e trouxeram-me um mimito, um pequeno bao recheado com corvina e com molho béarnaise. Delicioso! Para a mesa ao lado, onde estava um casal francês, chegou a dose completa de três pequenos baos. Eles também adoraram. Até lamberam os dedos!
Foi a vez da sobremesa, fiquei indecisa entre a torta de laranja, que já lá tinha comido antes e que acho quase igual à que a minha Mãe fazia, e o creme brûlée de abóbora. Decidi-me por este que ainda não tinha provado.
Saí a pensar que é uma sorte ter o Fome aqui tão perto. Esta semana vou voltar para experimentar mais uns pratos. Se forem ao Fome, vão com muita fome, pois há muita coisa boa por onde escolher,
Vivo perto do mercado de Arroios há muitos anos, era uma zona em que não havia nada, com as obras no mercado e a opção das lojas exteriores passarem a ser restaurantes, apareceram muitas coisas interessantes, não só no mercado, como à volta deste (como é o caso do Fome). Projetos pequenos, feitos com muito esforço e paixão. É uma zona que está a ficar muito agradável. Vale a pena ir! É importante ir!
Fome - Rua Ângela Pinto 4 - Lisboa
(Aberto aos jantares e sábado ao almoço, fecha ao domingo e segunda).
Na mesa ao lado da nossa estava uma família de quatro pessoas originárias de um qualquer país asiático. Mais adiante, uma jovem também asiática comia sozinha. Estava no O Asiático do Kiko Martins. Tive vontade de lhes perguntar o que achavam da comida, e como viam aquela interpretação da cozinha asiática. Esta pergunta, que lhes gostaria de ter feito mas não fiz, é uma que me ponho muitas vezes. Como vêem as pessoas originárias de uma dado país, a sua comida e os seus sabores interpretados por pessoas com outras culturas gastronómicas?
Sem ter tido a coragem de satisfazer esta minha grande curiosidade, aproveitei para satisfazer outra: Como era o brunch no O Asiático?
Havia três hipóteses de escolha, escolhemos duas (Brunch Ramen e Brunch Bao) que partilhámos. Comum aos dois menus chegou:
Seleção de Pães (Bao, Flat Bread, Croissant, Manteiga, Manteiga de Kimchi e Compota de Goiaba)
Com os pães veio ainda um prato com fiambre e outro com queijo. Pediram-nos que escolhêssemos o sumo que desejávamos. Os gostos dividiram-se entre Sumo de Maracujá e Coco e Sumo de Cereja e Yuzu. Foi um bom começo, uma boa variedade de pães com características distintas, que podiam ser comidos com acompanhamentos que satisfaziam aqueles com gostos mais tradicionais, mas também quem gosta de um pouco de aventura.
Tapioca Cremosa de Coco com Maracujá
Com o estômago aconchegado, passámos para um excelente prato, o primeiro que de facto nos levava a viajar até à Ásia.
Ovo a Baixa Temperatura, Camarão e Cogumelos Shiitake
Terminada a parte comum dos dois menus, passámos aos pratos seguintes do Brunch Bao:
Guiozas de Lavagante, Porco Preto e Sake
Bao Surf & Turf (Pão ao Vapor, Barriga de Porco Confitada, Camarão e Wasabi)
Passámos finalmente ao último prato do Brunch Ramen:
Ramen de Porco Preto, Noodles de Arroz, Algas e Pak-Choi
Terminei com um Café Vietnamita.
Uma boa forma de começar um fim de semana, um brunch diferente, generoso e muito agradável, num espaço muito bonito.
Muitas vezes tenho falado dos altos preços. Impõe-se que aqui fale do preço justo destes brunches (Brunch Ramen 22,30 €; Brunch Bao 23,70 € - com tudo o que referi incluído).
Gosto de longos pequenos almoços. Gosto da diferença de hábitos relativamente aos pequenos almoços. Fascinam-me a diferença de hábitos, mesmo quando a distância é curta. Há umas semanas fui com as minhas três irmãs a Badajoz. De tempos a tempos fazemos um fim se semana algures só nós quatro, sem famílias. Desta vez escolhemos Badajoz porque era lá que antes do Natal, ou quando precisávamos de roupa, ou quando precisávamos apenas de espairecer, os meus pais nos levavam em crianças. A "nossa" loja de brinquedos mágica era Las Três Campanas, do supermercado Simago vinham os caramelos, os melocotones, os patés... Dos Preciados a roupa. Recordações que são certamente as de muitos portugueses, há quem as descreva de forma a que nos revemos completamente no relato.
Cerca de 50 anos depois dessas excitantes viagens a Badajoz, resolvemos voltar, na viagem fomos fazendo a lista de tudo o queríamos ver, como se o tempo não tivesse passado. Badajoz é outra agora, porque os tempos mudaram no quase meio século que passou e a cidade evoluiu, porque os portugueses deixaram de ir comprar caramelos e melocotones. Mas foi igualmente divertido.Estivemos à porta de Las Três Campanas, que já fechou, e o bonito edifício vai ser transformado num hotel. Fomos ao Simago, que já não é Simago, nem tem já os perritos calientes de que nos lembrávamos. Mas foi numa cafetaria lá que acabámos por tomar o nosso primeiro pequeno almoço. Tostadas com cachuela, tomate /hamón ibérico, tomate/queso, aceite com miel.
Gosto particularmente das de tomate com presunto que me fizeram lembrar outras (melhores) que tinha comido umas semanas antes em Sevilla.
Há dias li que uma empresa espanhola tinha aberto na Baixa uma loja, que funcionava como charcutaria, mas também servia refeições ligeiras, incluíndo pequenos almoços. Vieram-me logo à memória estas lembranças e uma grande vontade de lá ir tomar o pequeno almoço. E assim foi...
Soube-me bem! Recordou-me também que está na altura de voltar a viajar à mesa em Lisboa. Enquanto comia pensei no que diria se alguém me perguntasse como era um pequeno almoço característico de Portugal. Não sei bem. Algumas sugestões?
No último dia de 2018 li uma crítica de Jay Rayner no The Guardian. Dizia que tinha escolhido, propositadamente, para a última crítica do ano o restaurante Lino em Londres, pois a sua aproximação à cozinha era muito característica de 2018. O restaurante ocupa o espaço de uma antiga fábrica de linóleo, perto do Barbican e do mercado de carne de Smithfield.
No seu site o Lino apresenta-se como oferecendo uma "nova abordagem" para comer e beber fora, e diz:
We re-use, re-love and re-imagine. From salvaged light fittings to our sustainably sourced materials – we give overlooked pieces a chance to shine.
We bake, ferment, pickle and cure onsite. We mix old classics and shake up new combinations. We make the most of seasonal shrubs, herbs, fruits and veg - everything we serve is inspired by what’s available.
Como refere Jay Rayner, fazer algo genuinamente novo numa cidade como Londres (e eu digo que é uma situação geral), é uma tarefa difícil. Do que li, compreendi que o trabalho que faziam estava muito na linha da aproximação à cozinha atual - sustentável, sazonal, fermentações, fazer o próprio pão, ingredientes mais "terra a terra"... Não esperava nada muito original, nem precisava, nem me apetecia, estou um pouco cansada desta necessidade constante de originalidade, mas o Jay Rayner dizia que a comida era excepcionalmente boa. Terminava o comentário a um dos pratos dizendo que merecia se lambessem as pontas dos dedos. Ficou imediatamente decidido que lá iria nos dois dias que ia passar a Londres no início do ano.
Não estava na melhor forma... mas que isso não me impedisse de ir conhecer um novo restaurante. Era uma boa maneira de começar o ano, mesmo que exigisse uma refeição relativamente simples e leve. Assim, a escolha recaiu sobre a Lasagne of Pumpkin, Jerusalem Artichocke and Parmesan assim descrita por Jay Rayner: "Uma lasanha de abóbora e alcachofra de Jerusalém, feita com dobras de massas sedosas e amarelas como manteiga, é o melhor do outono elevado a luxuoso."
Tenho que confessar que não gosto particularmente de abóbora, e achei o prato delicioso! Mesmo muito bom!
Em grande parte dos restaurantes a sobremesa é o elo mais fraco, a crítica que li dizia que não era o caso do Lino. Escolhi o Croissant Bread and Butter Pudding, Marmalade and Coffee, mas não tinham no dia. Fiquei com pena, e decidi-me pela Earl Grey Custard Tart and Lemon Sorbet. Delicioso! Acho que a fotografia dá para adivinhar a textura muito cremosa, mas densa. Não muito doce, a massa da tarte finíssima, a combinação com sorvete de limão perfeita! Talvez me tenha impressionado mais do que o prato.
Estes espaços industriais adaptados por vezes comprometem o conforto. O espaço era bonito e agradável, mas um pouco frio, não sei se era assim em todo o restaurante, mas reparei depois que a maior parte das pessoas da zona onde estava tinham o casaco vestido. Imagino que seja difícil aquecer espaços como aquele.
O preço, mais uma vez um aspeto positivo. Londres, um restaurante na moda, e com os dois pratos e uma cerveja artesanal a conta foi de 23,6 £, a que adicionaram 12,5% de serviço, sendo o valor final de 26,55 £.
Uma coisa de que gostei muito é que o restaurante abre às 7h 30m e fecha pelas 23h 30m durante a semana, abrindo pelas 10h ao fim de semana. Gosto de pequenos almoços e gosto da ideia de um restaurante como este que faz o seu pão, croissants... servir pequenos almoços dos mais simples aos mais substanciais.
Sexta-feira ao fim da tarde. A semana tinha sido desgastante, estava exausta. Tomei consciência que ia começar o fim de semana. Saí do trabalho e resolvi ir à Baixa, ver as iluminações de Natal, aperceber-me da época, desligar, mudar de ritmo...
Depois de muito andar, senti que o que precisava mesmo era de um bom jantar. Ali perto estava o SáLA, fui até lá. Não estava mesmo na melhor forma... sentia-me como se tivesse o mundo sobre os ombros. Sentei-me e o ambiente calmo, a perspetiva de um bom jantar, o cuidarem (muito bem) de mim, começou a fazer efeito.
Escolhi os pratos, pedi uma sugestão para um copo de vinho. Serviram-me um vinho austríaco, Heinrich Chardonnay, e os pratos começaram a chegar:
Cogumelos | Raiz de Aipo | Folhas Verdes
Tarte "Bulhão Pato"
Carabineiro | Presunto | Castanhas
Excelentes! Maravilhoso o carabineiro! Por esta altura já me sentia outra... Pedi uma sobremesa.
Maçã | Dióspiro | Baunilha
Quando o doce chegou perguntaram se me podiam oferecer um cocktail. Perguntaram se gostava de bebidas quente. Gosto de tudo. E sobretudo gosto de conhecer outras coisas. O cocktail chegou, dentro da casca de lima um puré de maçã em chamas. Na chávena quase parecia um capuccino.
Smith Hot Rum - rum envelhecido, maçã, lima, natas
Tão bom! Interessante a evolução no "mundo dos cocktails". Não bebo frequentemente, mas se calhar é altura de começar a conhecer mais. Disse que voltaria um dia principalmente para os cocktails, que queria experimentar outros.
Saí outra, bem mais leve, com outro sorriso. Passei pela cozinha e agradeci-lhes. Não há nada que um bom jantar não resolva. E este tinha sido muito bom!
Comida portuguesa, bem feita, sem twists... muitas vezes temos aqui referido que faz falta. De preferência a preços razoáveis. Encontrei há dias! A minha experiência foi boa, a das duas pessoas que comigo almoçaram também.
Estávamos ali pelo Príncipe Real, queríamos almoçar, uma das pessoas sugeriu o restaurante Faz Frio (difícil não o referir como a Antiga Casa Faz Frio, a força do hábito...). Há muitos anos, bem mais de uma década, que lá não ia. Tinha lido que tinha reaberto mais bonito, mas sem ser descaracterizado. Entrámos e gostámos do que vimos, um espaço agradável e com muita luz.
Sentámo-nos e entretivemo-nos com as azeitonas descaroçadas com um leve tempero de azeite e com a manteiga, servidos com um bom pão ali feito.
Estava a saber bem. Para ainda ser melhor, sugerimos que no futuro substituíssem os recipientes onde vinham servidas as azeitonas e a manteiga, neste último caso era difícil retirá-la, e ainda mais difícil não espalhar o sal que vinha ao lado pela mesa. Problemas fáceis de resolver. Gostámos do naperon de renda da cesta do pão. Um deles disse que lembrava a casa da Avó. Comentámos o facto dos guardanapos serem de pano e bordados, já tão raro...
Começámos com uns pastelinhos de Massa Tenra que estavam saborosos. Não correspondiam bem à minha ideia de pastéis de massa tenra, mas eram bons. Desapareceram rapidamente.
Um dos meus companheiros de almoço escolheu um dos pratos do dia, um Arroz de Carnes Fumadas, o outro escolheu o Bitoque de Lombo. Provei os dois, ambos bons e em quantidades muito generosas. Todos os dias há um prato de bacalhau, como era habitual no restaurante noutras épocas, no dia em que fui era Feijoada de Sames. Não podia ser melhor, estava mesmo a apetecer-me.
Gostei muito do sabor, era bem rica em sames (adoro aquela textura um pouco gelatinosa), adorei o facto do chouriço e vegetais virem picados em cubinhos minúsculos - confere alguma delicadeza ao prato. Excelente!
Para sobremesa, eles comeram um mousse de chocolate, provei e estava muito boa, e um arroz doce - também bom, mas gosto mais da forma tradicional. Eu fiquei-me pelo Pastel de Nata feito no restaurante. Ganhava se a massa não fosse tão fina. Mas foi um excelente final de refeição.
Se bem me lembro só bebemos água, tínhamos que trabalhar a seguir. A conta não chegou aos 20 euros a cada um.
Gostei mesmo! Que continue cada vez melhor, pois precisamos de restaurantes assim.
Faz Frio - Rua Dom Pedro V, 96, Príncipe Real, Lisboa