Quando me ofereceram o grão de pimenta, não imaginava o que ia descobrir, em termos de sabores e saberes!

![]()
Enquanto observava uma banca de especiarias num festival gastronómico, deram-me a provar uma pimenta. Na ponta de uma pinça estava apenas um grão de pimenta preta. Peguei nele e meti-o na boca, sem pensar muito, sem expetativas, e de repente tudo mudou! Apesar de firme, o grão não ofereceu resistência ao ser trincado, revelando uma suculência que não esperava e, subitamente, uma grande intensidade aromática. Um gosto salgado, um sabor fresco a pimenta, levemente picante, uma complexidade de aromas frutados e amadeirados. Olhei para o preço da embalagem de 100 g e pensei "280 euros / kg" e continuei a andar.
Vi outras bancas, mas não vi nada que achasse particularmente interessante. Muita gente com comida na mão, a oferta era diversificada, mas nada me atraía particularmente e não me apetecia comer desconfortavelmente. Pensei que este eventos já não me encantam como em tempos idos, decidi ir almoçar confortavelmente a um restaurante fora do festival. Mas na boca continuava a sentir o picante suave e os aromas daquele único grão de pimenta, uma persistência de sabor incrível. Tomei consciência de que para mim a pimenta tinha adquirido um nova dimensão e que as 23 £ que aquele pacote custava iam permitir-me desfrutar dela e proporcionar-me muitos momentos de qualidade. Voltei à banca, e antes de ter tido tempo de dizer o que queria, a pessoa que me tinha dado a pimenta a provar disse "Voltou... este tempo todo depois ainda sente o sabor na boca, não é?". Disse-lhe que sim, que ia levar um pacote, que era impossível resistir.

A pimenta Kampot é considerada de altíssima qualidade. As trepadeiras que a produzem, Piper nigrum, são originárias da região de Kerala na Índia, mas são cultivadas no Camboja, na província de Kampot, há mais de 800 anos. O clima desta região, associado ao teor de quartzo no solo, contribuem para as características únicas desta pimenta. Durante o período em que o Camboja foi um protetorado francês (1863-1953), os franceses estabeleceram plantações e exportaram grandes quantidades para França. De tal forma que nos anos 1970, o regime dos Khmers Vermelhos considerou a pimenta como um símbolo do colonialismo e obrigou os agricultores a cultivarem arroz. Só no final do século XX é que os agricultores locais retomaram esta cultura em pequenas parcelas de terra, utilizando as práticas agrícolas seguidas por várias gerações dos seus antepassados. Foi posteriormente criada a Associação de Produtores de Pimenta de Kampot (KPPA) que em conjunto com o organismo independente de certificação Eco-Cert inspecionam as plantações e atribuem a certificação de Origem Geográfica Protegida, que permite vender a pimenta com a designação “Pimenta de Kampot”.
Esta pimenta que comprei tem ainda outra característica que a torna tão especial. Não é seca como é habitual, as bagas da pimenta fresca são fermentadas com sal, o que reforça e intensifica o sabor, que associado à suculência dos grãos, permite que sejam comidos inteiros, finalizando pratos, com queijos, charcutaria, ou até sobremesas. Muitas vezes como-os por si só, um ou dois grãos de pimenta, e o sabor e aroma persistem por muito, muito tempo.
Quando me ofereceram o grão de pimenta, não imaginava o que ia descobrir, em termos de sabores e saberes! A visita ao festival gastronómico só por isto valeu a pena.
