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Escrever sobre quê?

por Paulina Mata, em 28.03.20

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Tinha planeado escrever um post este fim de semana. Achei que o tema surgiria quando me sentasse. Mas tudo parece um pouco despropositado. Dei uma vista de olhos a outros blogs. Pouco li, muita coisa parecia fora de época e de contexto. Outro mundo, que era a nossa realidade há dias, mas que já não é. Será que algum dia vai ser de novo?

 

Escrever sobre quê? Perguntei-me. Sobre o que estamos a viver, bastam as notícias que lemos e ouvimos. Que dizer mais? É suficientemente brutal e violento, está tudo dito. Dentro de casa tentamos viver uma qualquer normalidade. Apesar de ser uma normalidade pouco normal, às vezes tem vantagens... De tanto trabalho não tem dado para pensar muito, há horas em que vivo numa bolha. Não me queixo, esta quase normalidade chega a ser confortável, e lembra-me a sorte que tenho - trabalho e em segurança. Faz-me admirar ainda mais aqueles que cuidam da nossa saúde e os que nos permitem manter esta quase normalidade, e também aqueles que de repente acordaram na incerteza absoluta. Às vezes parece um pesadelo e que ao acordar tudo estará bem... mas não...

 

Uns falam das gavetas que já não têm para arrumar mais, tenho a sorte de ainda não ter arrumado nenhuma e ter muitas para arrumar. Distração garantida por muitas semanas, se necessário for. Para já, como a encomenda de comida que fiz só chega daqui a uns dias, achei que era útil ir intercalando o que comprei com o que há muito (por vezes anos) está esquecido no congelador e nos armários. Vou escolhendo 3 ou 4 coisas por dia, se não está bom vai para o lixo. Se está, come-se.

 

Sentei-me para escrever, mas escrever sobre quê? Voltei ao armário, encontrei um pacote de puré de batata em flocos aberto. A validade tinha acabado há já uns anitos. Provei. Estava bom. Arranjei-lhe logo destino, aquele para o qual devia ter sido comprado. Não me lembro, foi já há vários anos... Meio quilo de farinha, o resto dos flocos de batata, fermento sal e água. Saiu um pão macio, mas chewy (nunca soube como traduzir...), delicioso! E o armário ficou mais vazio... e o pão rendeu um pouco mais...

 

Tirei também uns restos de chocolates, alguns já com bloom... Mas quem se importa com isso numa altura como esta? Tinha um pacote de corn-flakes aberto, da última vez que o meu neto cá esteve. Há menos de um mês, combinei até quando iria visitá-los. Quando o verei agora? Parti o chocolate em pedaços, um pouco mais de 100 g, meti no micro-ondas para derreter, juntei três mãos bem cheias de corn-flakes e misturei, misturei... até todos os pedaços estarem cobertos de chocolate. Deu-me um prazer especial fazê-lo. Aqueles movimentos repetitivos, mas com um objetivo. Fútil, se calhar, tendo em conta isto tudo, mas que fazer? Depois coloquei montinhos, de forma tão regular quanto possível, quase dava uma sensação de controlo e normalidade... E esperei até o chocolate solidificar. 

 

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Fiz uma infusão de morangos que ali estava perdida há anos também. Provei-a, soube-me surpreendentemente bem, melhor do que a memória que tenho de quando a comprei. Pus alguns dos chocolates numa tigela, e sentei-me no sofá.  Reparei que o chocolate me deixava os dedos sujos rapidamente. Chocolate que não foi temperado, pensei.  Mas o que é que importa? Ouvi as notícias. Nada animadoras.

 

Voltei a sentar-me em frente do computador... Escrever sobre quê?