Box E - um almoço fora da caixa

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Estava sentada há pouco tempo quando ela chegou. Sentou-se sozinha numa mesa perto da minha, no terraço do restaurante. Eu estava já entretida com o pão com manteiga batida quando lhe trouxeram o menu.

Ela deu uma vista de olhos e pegou no telemóvel. O empregado chegou para tomar nota do pedido. Ela mostrou o telemóvel, era aquilo que queria. Não sei o que era, mas não havia, explicaram-lhe que o menu mudava regularmente, conforme o que estava disponível. Ela voltou a olhar para o menu e escolheu outra coisa. Não sei se gostou, mas as gaivotas ali por perto, às vezes voando muito baixo, assustavam-na. Não passavam tão perto de mim, mas as abelhas fizeram-me companhia todo o almoço.

Antes de ir para Bristol, fiz uma busca sobre possíveis restaurantes a ir, o Box E pareceu-me interessante. Muitas opiniões positivas e uma boa crítica do Jay Rayner. Tinha gostado de a ler, não tanto devido ao que dizia sobre o restaurante, mas mais a introdução. Contava que nos anos 1990 começaram a chegar da China para os EUA enormes contentores cheios de mercadorias baratas. Era caro mandá-los de volta, e eram desmantelados. Mas o preço do aço subiu, e deixou de ser viável fazê-lo, passaram a ser enviados de volta. Mas contentores vazios ficam instáveis, iam cheios de jornais. Mais tarde, com a expansão económica da China, e com ela a da classe média, o consumo de carne aumentou muito. Eram necessários cereais para alimentar o gado, os contentores passaram a ir cheios e cereais. Esta troca, que alimentou a globalização do século XXI, tornou os contentores num ícone desta época mercantil. O sistema modular, fácil de manusear e robusto fez com que surgisse a idéia de os transformar em edifícios, bastavam pequenos ajustes. E, como diz Jay Rayner, "É assim que o impulsionador da forma mais radical e pesada do comércio global de massas, também se torna o impulsionador de negócios independentes em pequena escala". Foi o que aconteceu em Bristol, onde na zona portuária foi construído um conjunto de edifícios com contentores onde estão localizados uma série de negócios independentes.


Normalmente a comida oferecida em restaurantes nestes espaços, em que as condições são reduzidas, não se destaca particularmente pela qualidade. No caso do Box E, onde estávamos, a situação é diferente, apesar de um espaço reduzido e condições muito básicas, o chefe Elliott Lidstone pretende oferecer uma cozinha de qualidade.
O restaurante é simples, apenas com o básico e cerca de 12 lugares sentados no interior, com um espaço minúsculo para a cozinha.

Quando o tempo o permite, há uma esplanada exterior, e foi lá que almocei. De uma ementa com quatro entradas, três pratos (um de carne, um de peixe e um vegetariano) e duas sobremesas, escolhi:

Heritage beetrot, goats' curd and summer truffle

Breast of duck, spelt and rainbow chard

Vanilla pannacotta, strawberries and candied almonds
Os dois pratos muito bons, que acompanhei com um Maturano 2015, um vinho laranja. A sobremesa agradável, mas longe de estar ao nível do resto (como é habitual).
Foi uma óptima refeição, tentei voltar para jantar dois dias depois. Subi a escada e a esplanada estava vazia. Pensei "Como pode não ter ninguém?". Mas dentro o restaurante estava cheio... Perguntei se podia comer na esplanada, disseram-me que o chefe não tinha capacidade para servir mais pessoas. Pena! Mas compreendi, naquela "cozinha corredorzinho" era difícil certamente fazer mais e manter a qualidade!
1ª e 6ª Fotos DAQUI