Quer sentar-se ao balcão? Foi uma das primeiras perguntas que me fizeram quando cheguei ao 64 Degrees. Não, não queria... Sinceramente não sinto o menor fascínio por me sentar a um balcão, antes pelo contrário. Mas vamos por partes...
Primeiro que tudo os assentos altos, e frequentemente desconfortáveis. É, muito possivelmente, falta de jeito meu, mas não consigo trepar de forma minimamente elegante e confortável para os bancos altos dos balcões. Fico sempre ansiosa antes de ter que o fazer e, depois de lá estar, sinto-me sempre muito desconfortável. Gosto de ter o pés nos chão (quando me sento e na vida em geral, mesmo que a cabeça às vezes possa andar por cima das nuvens).
Depois, o reduzido espaço, o ter que quase entrar numa relação de intimidade não escolhida com os vizinhos do lado... torna tudo ainda muito mais desconfortável. O espaço é, normalmente, reduzidíssimo. E não posso fazer o que fazia com os meus irmãos quando era criança, em situações de espaço individual limitado. Ou seja, perguntar "O teu Pai é aviador?". Não gosto mesmo. No 64 Degrees, só eu estava nas mesas, no final havia 7 pessoas ao balcão, bem juntinhas, e ainda mais espaço para duas ou três (nem quero imaginar...).
Depois a interação com quem está a cozinhar. Não sou tão despachada como às vezes pode parecer, e não me apetece normalmente toda a interação inevitável numa situação tão próxima. Por nenhuma razão especial, a não ser uma questão de timidez, sobretudo quando estou sozinha, e também de privacidade quando estou acompanhada.
Para além de tudo isto, adoro cozinha, mas ainda não descobri o fascínio das cozinhas à vista. Como, apesar de agora nem cozinhar assim muito, toda a vida o fiz, a maior parte daqueles gestos são-me suficientemente familiares para não terem nada de particularmente glamoroso, e não gosto particularmente de os estar a seguir. Quantos aos que não fiz, como seja o lento e delicado processo de pôr as guarnições nos pratos com pinças, por vezes stressam-me, sobretudo quando é o meu prato e eu tenho fome. Por vezes, a uma distância considerável, é aceitável, mas gosto mil vezes mais de comer sem ter que observar todo o processo. Que me chegue um prato lindo à mesa, com cada pequeno detalhe no lugar pré-definido, quase como por magia. E quando chega a hora de limpar a cozinha???!!! Já me aconteceu duas vezes em restaurantes com 1 * Michelin ter que assistir a todo o processo de limpeza da cozinha, fogão, paredes... Não é agradável...
Depois, o trabalho da cozinha é cansativo, extenuante, acho uma violência obrigar quem está a cozinhar a ter que estar constantemente a pensar que está a ser observado, que tem que estar sorridente, que tem que fazer gestos perfeitos, que não pode sequer esboçar um palavrão quando algo cai ou passa do ponto, que tem que ter um ar fresco, quando está tudo menos fresco. É que é duro e torna o trabalho ainda mais cansativo! Por outro lado, eu estou a pagar para ter um momento de lazer, por vezes também extenuada, e não me apetece ver trabalhar pessoas tão exausta quanto eu. É a vida, e a realidade. Eu sei. Mas às vezes é preciso entrar nalgumas bolhas, fora da dura realidade! Um restaurante tem que ter a sua componente de magia, de glamour...
Todas estas razões levam-me a preferir sentar-me numa mesa, tão confortável quanto possível, num ambiente tão agradável quanto possível. Mas, quanto às mesas... amanhã há mais.
Brighton é uma cidade que acho muito simpática, as ruelas estreitas no centro, a praia de calhaus, o pier com os salões de máquinas de jogo... Há dias a minha filha tinha que lá ir, e resolvi ir com ela e passar por lá o dia. Desta vez até tinha uma razão extra, há uns meses tinha ouvido em Lisboa falar Douglas McMaster do restaurante Silo e tinham ficado com vontade de conhecer. Iria lá almoçar.
Mas não fui... Na véspera à noite fui ver onde era o restaurante e o horário. As informações sobre a abertura ao almoço eram diferentes em vários sites, e mesmo no site do restaurante, dependia do local onde via. Nuns locais dizia que abria à quinta, sexta e sábado, ao almoço, noutros apenas à sexta e sábado, para brunch. Pois eu ia numa quinta-feira, era melhor arranjar um plano B para o caso de estar fechado. E estava! É preciso ter o cuidado de atualizar informações.
Uma busca na internet sobre os melhores restaurantes de Brighton, e excluindo os que não estavam abertos ao almoço, deu-me algumas opções para o meu plano B, e a selecionada foi o 64 Degrees, que tinha sido votado em 2016 e 2017 o melhor restaurante de Brighton. Sobre ele diziam:
It was no surprise to anyone that for a second year running 64 Degrees won the award for number 1 restaurant in Brighton. Chef and Owner, Michael Bremner also took home the award for ‘Best Chef’...
Depois de uma caminhada pelas estreitas ruelas da zona histórica The Lanes, cheguei ao 64 Degrees e entrei num espaço pequeno, um balcão com cerca de 10 lugares e uns 15 em mesas. Estava apenas um casal ao balcão. Perguntaram-me se queria ficar ao balcão, que fui vendo ser a escolha preferida, mas não, não queria. Gosto mais de uma mesa (hei-de voltar a este assunto).
Deram-me o menu com 10 pratos, disseram-me que o normal seriam 2 ou 3, mas tinham um menu de degustação com todos os pratos. Eu gosto de doses pequenas e variar muito. Pois que viesse o menu de degustação! Acompanhei-o com um copo de vinho da Croácia e água fresca.
Começou por vir um bom pão de centeio com manteiga temperada com za'atar.
E rapidamente os pratos começaram a chegar, tinham-me dito que os primeiros chegariam mais rapidamente e depois o ritmo seria mais lento para os últimos.
Chicken liver parfait, fennel salad, golden raisins, granola
Cured trout, spiced watermelon, caviar
Gostei particularmente deste, a melancia "prensada" em vácuo tinha uma textura rija e densa, e nesse processo tinha sido infusionada com especiarias, por cima uma alcaparras muito crocantes conferiam um interessante contraste de textura.
Sunflower ajo blanco, toasted cashew nuts, summer vegetables
Quando vi o prato assustei-me! Era o oitavo prato, doses generosas, e esta era enorme... ainda faltavam mais dois... Comi só metade. Era muito saboroso, mas um foi para dentro...
Duck breast, butternut squash, szechuan pepper
Este, eu já tive que o comer devagarinho...
Charred hispi, hollandaise, Australian winter truffle
Quando me puserem este prato de couve à frente, uma dose enorme, só pensei "tirem-me isto daqui, por favor". Já não tinha espaço para mais, cheirava a couve cozinhada, e aquele aroma dado pelos compostos de enxofre não é muito agradável... Comi uma garfada apenas, achei o pior prato do menu, mas não tinha já capacidade para discernir...
Quando a empregada chegou disse-lhe que era comida demais, ela concluiu que certamente já não queria sobremesa. Disse-lhe que não. Mas ela trouxe-me uma pequena quenelle de um sorvete de bergamota e flor de sabugueiro para refrescar.
Saí a pensar que nestes menus grandes é mesmo muito importante ter cuidado com a sequência e o tamanho das doses. Estas eram quase todas grandes demais para um menu com 10 pratos. A couve não era decididamente prato para terminar um menu destes.
Com doses mais pequenas (e sem a couve, mas admito que pudesse repensar isto se a tivesse provado noutra situação) tinha sido um almoço excelente. Assim, saí com uma sensação pouco agradável, por estar cheia demais, pela quase repulsa que senti quando me puseram a couve em frente. E só tinha comido metade do prato de couve flor... É importante não só fazer boa comida, como planear bem a forma como é servida e a quantidade. Quando o muito generoso é demasiado generoso, não é uma vantagem, antes pelo contrário.
Caminhei até à praia, passeei ao longo da praia e sentei-me nas pedras ver o mar.
Estou longe, mas isso não significa que trabalhe menos. De facto tenho trabalhado imenso, às vezes é quase uma violência. Há dias já não aguentava mais corrigir trabalhos, já não aguentava mais estar sentada no computador... meti-me no autocarro para ir ao centro ver gente e almoçar. Nem sabia bem o quê, qualquer coisa, o importante era mesmo descansar, e ver gente.
Quando cheguei, e enquanto pensava para onde me ia dirigir para almoçar, passei em frente de uma esplanada e vi no chão uma asa de frango, não olhei com muita atenção, mas pareceu-me frango assado. Aí, fez-se luz! Era mesmo isso, frango assado! Matar algumas saudades de casa e dos sabores de casa. A pouco mais de 5 minutos de onde estava havia um Nando's. Só lá tinha ido uma vez, há 15 anos quando a minha filha mais velha veio de Erasmus (curiosamente para estudar na universidade onde é agora professora). Pus-me a caminho...
Lembrava-me de no meio da sala haver vários lavatórios e de um letreiro a dizer qualquer coisa como: "Faça como os portugueses, coma o frango com as mão". O letreiro já lá não estava, havia igualmente lavatórios no meio da sala, mas pareceram-me menos.
Sentei-me num espaço agradável e fresco (que por cá está mais calor do que vejo estar aí). Aqui e ali havia um ou outro apontamento discreto que remetia para a nossa cultura.
Escolhi e pedi:
Soube-me bem o almoço, deu para matar algumas saudades.
Num restaurante italiano pedi arancini de entrada. Quando me trouxeram o prato fiquei boquiaberta com a escolha para o empratamento. Os dois pastéis de arroz fritos vinham sobre um papel que absorvia a gordura, mais que isso, estava pingado de gordura extra. Escorrer os fritos é na cozinha, não no percurso entre a mesa e a cozinha... Estavam sensaborões e sem grande graça, mas sequinhos, mas não foi essa a imagem com que fiquei.
No último dia de uma estadia recente em Lisboa, cruzei-me durante umas horas como a minha filha mais velha que tinha acabado de chegar. Combinámos almoçar. Queria um sítio calmo e com um vista bonita e lembrei-me do Hotel Memmo Príncipe Real. Conhecia já a cozinha do Chef Vasco Lello, mas ainda não tinha estado no Café Príncipe Real.
A ideia inicial era almoçarmos na esplanada, para podermos usufruir da vista, mas ao chegar verificámos que nos apetecia mais o agradável ambiente da sala, era mais calmo, estava mais fresquinho, e a vista era a mesma devido às grandes janelas.
No menu de almoço havia três opções de entradas e de pratos, escolhemos cada uma uma entrada e partilhámos os dois pratos.
Couvert (3 variedades de pão, manteiga simples e com tinta de choco)
Carpaccio de novilho, pickles de legumes e ovo de codorniz
Ostras de Aveiro em creme a ao natural
Tomates da época, burrata e mangericão
Coelho frito com caracóis
No final ainda pedimos sobremesas, a minha foi:
Tarte de amêndoa e cerejas, gelado de manjericão
Um excelente almoço, todos os pratos muito bonitos e saborosos, sendo as propostas diferentes do habitual. Um bom e simpático serviço. Para além disso uma óptima relação qualidade preço (entrada e prato - 22 euros). A juntar a tudo isto, a vista é magnífica - Lisboa é uma cidade linda! E uma cidade que tem uma oferta cada vez maior de restaurantes de grande qualidade.
Café Príncipe Real - Memmo Príncipe Real Hotel, Rua Dom Pedro V, 56J
Num sábado de compras na Baixa, em que de repente me apeteceram sabores portugueses, rumei ao Campo das Cebolas. Depois das obras está muito bonito e ainda não conhecia a Cantina Zé Avillez.
O espaço é bonito, com um ar leve e agradável, com muita luz e uma esplanada. Não entendo bem o nome, para nós cantina é um restaurante de escola ou empresa, nada que traga boas expetativas. Penso que deve ser um nome para estrangeiros e associado ao significado em Espanha ou Itália, ou seja uma taberna. Mas considerando que é de cozinha portuguesa, é um opção um pouco estranha. Gostei do pormenor dos azulejos nas cadeiras e da promessa de uma cozinha portuguesa, que era o que procurava.
Gosto muito de miudezas, e outras partes consideradas por muitos menos nobres, mas que têm sabores e texturas únicos. A escolha recaiu em pratos destes.
Mãozinhas de vitela com grão e enchidos
Iscas finas de porco com batata frita e cebolada
De sobremesa um pudim...
Pudim de Mel e Azeite com Ananás
Gostei da mãozinha de vitela, muito saborosa e a textura gelatinosa do molho muito boa. Fiquei contente por as iscas serem de porco, as que gosto mais. Quando as vi fiquei desconfiada com o molho, demasiado cremoso. Preferia-o menos cremoso, mas o sabor era bom - o das iscas de cebolada. As iscas, muito, muito finas estavam tenras. Agora não gostei nada do acompanhamento... Eu sabia ao que ia, estava escrito no menu. As batatas até eram boas. Mas para mim as iscas dão-se bem melhor com batatas cozidas. Talvez seja mais fácil servir batatas fritas, talvez os estrangeiros até possam gostar mais (não sei...), é coerente com a tendência (muito pouco interessante) de quase tudo vir com batata frita nos restaurantes portugueses. Mas não gostei da ideia. As iscas não ganharam nada com estas as alterações, antes pelo contrário.
Relativamente ao pudim, na carta prometiam um pudim denso e dourado que se derretia na boca. Sendo estas as minhas expetativas, não foram satisfeitas. Acho que deve ter cozido um pouco demais, não estava denso, não se desfazia na boca, como aliás se pode ver da foto. O sabor era bom, gostei da ideia do ananás e ligava bem. Mas é preciso optimizar um pouco a receita e/ou a cozedura para ficar como o menu promete.
O restaurante pretende ser de comida portuguesa, mas os pratos vegetarianos são um chilli e um caril verde, ou seja muito pouco portugueses. Penso que isto deve ser repensado, e com base nos sabores portugueses oferecer pratos de qualidade. Há tanto por onde escolher.
Em resumo, gostei da ideia de um bom restaurante de comida familiar, mas penso que há muito espaço para melhorar e algumas coisas que devem ser repensadas, um processo normal num restaurante que ainda não abriu há muito.
Cantina Zé Avillez - Rua dos Arameiros, 15, Lisboa
Ir a Lisboa significa pôr a conversa em dia com muita gente, desta última vez significou também conhecer muitos novos restaurantes. Um dos almoços foi no Soão Taberna Asiática com uma das minhas irmãs que, tal como eu, também gosta muito de comidas asiáticas.
O espaço é muito bonito, mas, pelo menos do andar de cima (não vi o de baixo), podia ter uns assentos um pouco mais confortáveis (hei-de voltar um dia destes a este assunto). Partilhámos três entradas e um prato. Gostei muito da comida, algum tempo depois de ter saído o sabor da salada de papaia verde com wagiu, temperada com lima, amendoim e tomate cherry ainda persistia. E era tão fresco, tão aromático!
Tostas de choco com maionese, ovas e yuzu
Shaomai de frango e vieiras
O almoço (em que, para além do referido, partilhámos também um bao de barriga de porco) foi acompanhado por chá verde e foi muito agradável. Mas... foi caro. Saímos bem, mas foi um almoço leve, não comemos sobremesa e bebemos apenas chá, e a conta chegou quase aos 50 euros. Numa refeição normal facilmente se ultrapassa, em muito, este valor. O restaurante não está numa zona de passagem de turistas, é em Alvalade, numa zona em que há muitos serviços, e portanto muita gente a almoçar. Achei estranho nem sequer haver um menu de almoço mais acessível.
Sei que a comida é boa e que os produtos bons. Mas será possível manter estes preços? Por muito que as pessoas gostem, terão mesmo que pensar duas, ou três vezes antes de repetir. Tal como já referi muitas vezes, vejo sempre com espanto os preços praticados em Lisboa, e não os consigo entender...
Estava a dar uma vista de olhos ao The Guardian de hoje e encontro este artigo sobre o Porto. Se não conhecesse, de certeza que punha na minha wish list uma visita a esta cidade.
Conheço, e se até há uns dez anos conhecia mal e nem gostava muito, agora já conheço relativamente bem e gosto muito. Mesmo antes de ler o artigo, na minha lista de coisas a fazer no próximo ano já está há muito ir passar três ou quatro dias ao Porto.