Mas tudo foi ainda melhor porque foi feito por um grande amigo, o Melhor do Mundo. Um amigo a quem devo muito do que sou. É mesmo bom ter amigos assim!
Durante um período passava todos os anos parte das férias com os meus Pais e os meus cinco irmãos em Portimão, na Rua de Santa Isabel, numa casa emprestada pela madrinha da minha Mãe. Com tanta gente as refeições fora eram poucas, mas havia algumas coisas que fazíamos sempre. Entre outras, um jantar de sardinhas assadas na zona ribeirinha, debaixo da ponte de Portimão; uns caracóis ao fim da tarde no jardim Visconde de Bívar, com eles vinham uns picos de piteira para os retirarmos das cascas; e bolinhos de amêndoa e Dom Rodrigos na Casa Inglesa na Praça Manuel Teixeira Gomes. Mas havia um outro ritual de que me lembro muito bem. Na parte de trás da casa onde passávamos férias havia um armazém onde passava os dias uma senhora de idade avançada, a D. Francisca. Assim que chegávamos a minha Mãe pedia à D. Francisca que lhe fizesse uns carapaus alimados. Não me lembro de alguma vez os ter comido, não me lembro sequer do os ter visto (mas ambas as coisas devem ter acontecido), mas lembro da expectativa da minha Mãe, da ansiedade com que aguardava aqueles carapaus alimados. O que me faz crer que lhe davam um imenso prazer.
Nunca fiz carapaus alimados na vida, não me lembro sequer da minha Mãe alguma vez os ter feito, mas sempre que vejo carapaus alimados num menu de um restaurante (o que é raro), lembro-me da minha Mãe, da expectativa com que aguardava aquela refeição anual de carapaus alimados,do prazer adivinhado, e das férias na Rua de Santa Isabel em Portimão.
Há tempos quando fui ao Pap'Açorda vi que nas entradas estavam carapaus alimados. Na altura escolhi outras coisas. Mas os carapaus alimados ficaram-me no pensamento. Voltei lá, num dia de calor, apetecia-me uma refeição de petiscos, escolhi várias entradas e entre elas uns carapaus alimados.
Não tenho memórias de como eram carapaus alimados da D. Francisca. Mas se eram como os que comi, justificavam completamente a expectativa com que a minha Mãe os aguardava. Os carapaus alimados do Pap'Açorda são deliciosos! Acho que um dia destes vou lá só para comer carapaus alimados.
Foi em 1958 que tudo começou. Os caracóis ganharam fama. O negócio consolidou-se. E, sobretudo, continuam a servir bons caracóis.
Tão bons que na época dos caracóis nem servem jantares, apenas caracóis e outros petiscos. Tão bons que há sempre fila à porta. Tão bons que, a avaliar pelas fotos nas paredes, tudo quanto é figura pública já por lá passou.
A decoração, bem exuberante e excêntrica, pode não ser do gosto de todos, sobretudo dos que não são sportinguistas.
Um sentido estético que não é o meu. Mas que importa? Os caracóis são bons. E sinto-me bem lá. Muito genuíno, muito português.
Fui lá pela primeira vez há uns 4 anos, levada pela minha filha mais nova (que adorava caracóis, e agora é vegana - as voltas que o mundo dá!!!). Continuo a lá ir. Este ano já fui duas vezes.
"Então se não gostam de caracóis o que é que vieram aqui fazer? Vieram passear?" Foram as questões que o empregado pôs a algumas pessoas na minha mesa que (vá-se lá acreditar!), não gostavam de caracóis. Comi muitos, mas também caracoletas grelhadas (sem o molho de margarina, desse não gostei muito), e ainda berbigões que estavam óptimos.
A primeira vez deste anos foi no dia do primeiro jogo de Portugal no Europeu. Coincidência, nem sabia que havia jogo... A RTP transmitia de lá, a animação era grande. Há ecrãs de TV para onde quer que se olhe. Uma experiência interessante!
Ir comer caracóis ao Filho do Menino Júlio dos Caracóis é uma experiência a ter pelo menos uma vez na vida. E se se esquecer de levantar dinheiro, não se preocupe. É o único restaurante que conheço que tem dentro uma caixa multibanco.
O Filho do Menino Júlio dos Caracóis - Rua Vale Formoso de Cima 140 - B - Lisboa
O lanche é uma refeição de que gosto muito. Mas a variedade de escolha nem sempre é grande. Adorei o meu lanche há dias na Tartine, que tem uma oferta bem diferente do que é habitual. Desta vez optei por um mazagran e um ovo quente com torradas.
Ainda partilhei a tarte de morango de quem lanchou comigo. E invejei a malga do chá... Adoro beber chá em malgas! Dá cá um conforto!
Um lanche assim, no pátio interior da Tartine, com uma longa e animada conversa... Não há melhor forma de passar um fim de tarde de sábado!
A ACPP começou a organizar regularmente tertúlias que têm lugar na última quinta-feira de cada mês. Na semana passada estive na 2ª cujo tema era: Cerejas /Sardinhas/Santos Populares. Uma conversa interessante, uma oportunidade de, de forma descontraída, falar e aprender mais sobre estes temas.
Falou-se da pouca utilização de cerejas na cozinha tradicional portuguesa. Falou-se de como ligavam bem com pato e outras carnes. Hoje, muito a propósito, dei com uma receita de Costeletas de Porco com Cerejas.
Está no tempo delas, são óptimas frescas, mas cozinhadas também.
Mercado da Ribeira, um sábado ao fim da manhã. Quase ninguém... Podia ficar pela beleza de alguns produtos expostos.
Mas não dá para enganar. Fiquei triste. A decadência do mercado propriamente dito deixou-me um gosto amargo. Os tempos mudam, os hábitos mudam. As mudanças deixam marcas. E nos mercados deixaram marcas muito fortes. Na zona de mercado da Ribeira também. Um mercado vazio, muito vazio. Um panorama que contrasta com o que o rodeia - o processo de gentrificação da zona e de parte do mercado.
Passei pela zona de alimentação. Cheia, muito cheia. Questionei-me se aquelas pessoas encontravam ali o que procuravam. Questionei-me sobre que tipo de experiência procuravam. Sobre se as expectativas eram satisfeitas. Já, em tempos, me fui lá sentar a ver se descobria o que atraía tanta gente. Não consegui descobrir.
Voltei para o mercado. Passei pela banca onde uma senhora de idade avançada com as mãos deformadas pelos anos, e sobretudo pelo trabalho, vendia flores que fazia com malaguetas, papel e sacos de plástico. Não resisti a trazer uma flor, e uma história de vida veio atrás. Tanto de ternura e de ingenuidade, o que possivelmente se perdeu do outro lado. Mas o mundo é outro... os tempos mudam, os hábitos mudam. As mudanças deixam marcas.
Atravessei a rua, na tasca em frente servia-se comida portuguesa, genuína, boa... mas o tempo passou, e ali não... Dava que pensar. De um lado passou demasiado depressa, levando quase tudo à frente. Do outro não acompanhou os tempos. Notava-se alguma decadência.
Como atingir o equilíbrio? Como conseguir o melhor dos dois mundos - do que passou e deste em que vivemos? Como conseguir que umas coisas puxem pelas outras?
Era dia de jogo de futebol, Portugal-Croácia. Um jogo de futebol não é coisa que me entusiasme. Não entendo e não vibro minimamente com o que se passa no relvado. Combinámos ir jantar a um restaurante do Bangladesh. Há algum tempo que queria lá ir. Vínhamos do Chiado e fomos a pé até ao Largo do Intendente para passear um pouco antes do jantar. Umas crianças jogavam futebol na rua, dois meninos e uma menina com um lenço na cabeça e um vestido até aos pés que não lhe conseguia atrapalhar os movimentos.
Passámos à porta do Bangla, o restaurante de que tinha lido boas referências. Cheio. Pelo caminho até ao Largo do Intendente muitos restaurantes ofereciam cozinha do Bangladesh e Indiana. Pareceu-me que se tinham multiplicado bastante desde a minha última ida ali - e não foi há muito tempo. Alguns cheios também, outros com pouca gente. Alguns com pessoas a ver o jogo, quase todos. No Largo do Intendente também se assistia ao jogo nas esplanadas, ecrãs na rua, virados para a esplanada. Demos uma espreitadela ao resultado do jogo, e voltámos para trás.
Chegámos ao Bangla, olhámos para dentro. Perguntaram-nos se queríamos mesa, dissemos que sim. Alguma troca de palavras com dois homens, eventualmente do Bangladesh, que bebiam café e imediatamente se levantaram e a mesa ficou para nós. Olhámos em volta, numa mesa vários jovens croatas, a avaliar pelas bandeirinhas pintadas na cara, assistiam ao jogo. Noutra portugueses. Pelo meio pessoas que podiam ser do Bangladesh.
Olhámos para a carta. Pratos bem característicos da cozinha do Bangladesh era o que queríamos. Pedimos conselhos. A ajuda foi sempre solicita e simpática, assim como posteriormente o interesse sobre se tínhamos gostado. Um biriani era inevitável. Depois a escolha era variada - sugeriram-nos um prato de vaca. "No Bangladesh somos muçulmanos, comemos muita vaca, os Hindus na India é que não comem" informaram-nos. E assim foi, ficou decidido que seria um Biriani de Frango e um Caril de Vaca (Beef Patia) para pratos principais. Para entrada um Puri de Camarão. E ainda um Chapati para ajudar a comer o molho da vaca.
Chegou o Puri de Camarão.
Sem grande apresentação, abrimos para ver o que estava dentro.
Cheirava bem. Dividimo-lo e comemos. Era tão saboroso! Tão aromático! E a cada garfada dizíamos "Tão bom!".
Já estive na rua do Benformoso várias vezes à horas de saída da mesquita. Já vi várias vezes a rua ser subitamente "invadida" por dezenas, mesmo centenas, de homens muçulmanos que vão depois beber ou comer qualquer coisa a um dos muitos estabelecimentos da rua. Por isso, quando de repente vi entrar muitos homens, percebi que deviam vir da mesquita. Bebiam e comiam qualquer coisa em pé, por entre as mesas. Esperavam por comida que levavam depois em sacos. Uns paravam a ver o jogo.
Chegou o caril de vaca e o biriani.
Saborosos, aromáticos, a vaca picante, mas nós gostamos. Comíamos e, de vez em quando, dizíamos "Tão boa a comida.". O ambiente era diferente, único. Quem diria que estávamos no centro de Lisboa...!!!
Acabou o jogo, os croatas já tinham saído antes do prolongamento. A alegria foi comum aos portugueses que assistiam ao jogo e aos homens muçulmanos que por ali estavam. A nossa mesa era a um canto, devemos ter sido dos poucos que não nos manifestámos. apenas olhávamos aquela festa comum. E olhávamos também para a montra dos doces.
Tantos... Difícil escolher! Decidimo-nos por dois de farinha de grão, que nos disseram serem um pouco menos doces. Pedimos dois chá e ali ficamos com aqueles sabores e texturas bem exóticos.
Quem diria que estávamos em Lisboa! Num espaço onde convivem diferentes culturas. Esta viagem tinha-nos levado tão longe! E lembrei-me de uma parede, logo à entrada da rua, no largo onde os meninos e a menina jogavam à bola.
PS
Só depois deste post publicado soube do atentado que no mesmo dia ocorreu num restaurante do Bangladesh. É tão triste esta época em que o convívio de culturas é cada vez mais dificultado.