Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Assins & Assados

A minha estranha relação com o bacalhau

por Paulina Mata, em 17.02.19

linguas_de_bacalhau m.jpg

 

rosa.jpg

 

 

Era certo e sabido que à sexta feira a hora da refeição era tensa. Em criança / adolescente vivia numa pequena localidade da Beira Baixa, a disponibilidade de peixe não era a atual e, lá em casa, à sexta-feira não se comia carne. Recorria-se frequentemente ao bacalhau. Não gostava de bacalhau, não queria comer, mas a minha Mãe insistia que comesse... Eu não conseguia achar graça aquilo...

 

Hoje como bacalhau, com gosto. Mas se, de repente, me perguntarem se gosto de bacalhau, e me derem apenas uns segundos para responder, não responderei com convicção que sim. Talvez até diga que não, também se convicção. Hoje como bacalhau, e gosto, de alguns pratos gosto muito. Contudo, raramente cozinho bacalhau.

 

Lembro-me de ter saudades de bacalhau num ano em que vivi fora, quase há 30 anos. Vim no Natal e levei um bacalhau. Fiz pastéis de bacalhau, bacalhau assado, bacalhau à Braz...

 

Considerando esta minha estranha relação com o bacalhau, nunca me aventurei por aquelas partes "menos nobres" deste - caras, línguas, sames... Nunca entraram na minha cozinha, nem na da minha família. Lembro-me de uma das minhas irmãs (cujo aniversário seria hoje) me dizer que estava a cozinhar caras de bacalhau. Fiquei com a cara meio franzida, não achei de todo atraente (e continuo a achar que nunca comi). Há uns anos comi sames, adorei! Nunca cozinhei, mas já voltei a comer várias vezes. Gosto daquela textura. 

 

Há umas semanas, para uma demonstração de emulsões para uma aula, um dos meus alunos (por sinal brasileiro) sugeriu fazer um pil-pil com línguas de bacalhau. Tive que admitir que nunca tinha cozinhado línguas de bacalhau, nem as sabia cozinhar, ele fez.

 

Uns dias depois fui ao supermercado e vi à venda línguas de bacalhau. Achei que era altura de lhes dar uma oportunidade, e trouxe uma embalagem. Fiz línguas de bacalhau panadas. Gostei de ficar mais "esperta" com a experiência de cozinhar uma coisa diferente. Souberam-me bem com um arroz de tomate* com pimento. Mas a sensação continua a ser a mesma - gosto, mas... Nem sei o que é o mas... mas que há sempre alguma resistência, há.

 

Ao lado estavam embalagens de sames, um dia destes dou-lhes a oportunidade de entrarem na minha cozinha.

 

 

* Pois, eu sei que não é altura do tomate, mas usei tomate em conserva. A atual obcessão com a sazonalidade às vezes quase leva a que se esqueçam coisas bem importantes e interessantes.

Em miúda lembro-me de na época do tomate a minha Mãe fazer conserva de tomate em casa. Viviamos numa localidade pequena da Beira Baixa, o acesso a vários produtos era limitado. No quintal havia muito tomate no verão, que não consumíamos todo, fazia-se conserva para o inverno e também  muito doce de tomate (o único que havia, a par da marmelada).  Gosto deste conhecimento, e do engenho e arte para desenvolver técnicas para conservar alimentos, e dos novos sabores desses alimentos.

O sabor do tomate em conserva no inverno faz parte ds minhas memórias gastronómicas e não tenho nada contra ele, antes pelo contrário. E, já agora, temos mesmo ótimas conservas de tomate produzidas pela indústria alimentar.

 

 

1ª foto adaptada DAQUI

 

 

Uma boa forma de começar um fim de semana, com boa comida e num espaço muito bonito.

por Paulina Mata, em 11.02.19

imagem 1.jpg

 

amarelo.jpg

 

 

Na mesa ao lado da nossa estava uma família de quatro pessoas originárias de um qualquer país asiático.  Mais adiante, uma jovem também asiática comia sozinha. Estava no O Asiático do Kiko Martins. Tive vontade de lhes perguntar o que achavam da comida, e como viam aquela interpretação da cozinha asiática.  Esta pergunta, que lhes gostaria de ter feito mas não fiz, é uma que me ponho muitas vezes. Como vêem as pessoas originárias de uma dado país, a sua comida e os seus sabores interpretados por pessoas com outras culturas gastronómicas? 

 

Sem ter tido a coragem de satisfazer esta minha grande curiosidade, aproveitei para satisfazer outra: Como era o brunch no O Asiático?

 

Havia três hipóteses de escolha, escolhemos duas (Brunch Ramen e Brunch Bao) que partilhámos. Comum aos dois menus chegou:

 

IMG_20190120_123421.jpg

Seleção de Pães (Bao, Flat Bread, Croissant, Manteiga, Manteiga de Kimchi e Compota de Goiaba)

 

Com os pães veio ainda um prato com fiambre e outro com queijo. Pediram-nos que escolhêssemos o sumo que desejávamos. Os gostos dividiram-se entre Sumo de Maracujá e Coco e Sumo de Cereja e Yuzu. Foi um bom começo, uma boa variedade de pães com características distintas, que podiam ser comidos com acompanhamentos que satisfaziam aqueles com gostos mais tradicionais, mas também quem gosta de um pouco de aventura.

 

Untitled.jpg

Tapioca Cremosa de Coco com Maracujá

 

Com o estômago aconchegado, passámos para um excelente prato, o primeiro que de facto nos levava a viajar até à Ásia.

 

IMG_20190120_125032.jpg

Ovo a Baixa Temperatura, Camarão e Cogumelos Shiitake

 

Terminada a parte comum dos dois menus, passámos aos pratos seguintes do Brunch Bao:

 

IMG_20190120_125101.jpg

Guiozas de Lavagante, Porco Preto e Sake

 

IMG_20190120_130122.jpg

Bao Surf & Turf (Pão ao Vapor, Barriga de Porco Confitada, Camarão e Wasabi)

 

Passámos finalmente ao último prato do Brunch Ramen:

 

IMG_20190120_130246.jpg

Ramen de Porco Preto, Noodles de Arroz, Algas e Pak-Choi

 

Terminei com um Café Vietnamita.

 

IMG_20190120_134033.jpg

 

Uma boa forma de começar um fim de semana,  um brunch diferente, generoso e muito agradável, num espaço muito bonito.

 

imagem 2.jpg

 

Muitas vezes tenho falado dos altos preços. Impõe-se que aqui fale do preço justo destes brunches (Brunch Ramen 22,30 €; Brunch Bao 23,70 €  - com tudo o que referi incluído).

 

O Asiático - Rua da Rosa 317, Lisboa

 

1ª e última fotos DAQUI

3ª foto DAQUI

 

 

A quantidade de lixo que fazemos é absurda. Mudar hábitos não é fácil, mas é necessário.

por Paulina Mata, em 08.02.19

0smashcup-001.jpg

 

cinzento.jpg

 

 

Esperava o comboio, ao meu lado estava um homem entre os 35 e os 40 anos. Na mão tinha um copo com uma bebida quente. Antes do comboio chegar acabou  bebida, "fechou" o copo, e guardou-o na mochila. Passou-se há umas semanas na estação de comboios de Birmingham.

 

Nesse mesmo dia fui pedir uma bebida numa cafetaria de uma cadeia conhecida. Perguntaram-me se era em chávena de loiça ou para levar e, neste caso, se tinha a minha própria caneca. Os preços seriam diferentes. Quase todas as cafetarias, das várias cadeias em Inglaterra, vendem canecas re-usáveis, e fazem desconto a quem leva a sua própria caneca reusável.

 

Esta semana, numa reunião para organização de um evento, um ponto ficou assente, não podia haver plástico descartável. Representantes de várias universidades referiram que nas suas universidades já não há eventos com plástico descartável. Não é permitido.

 

Começou-se a tomar consciência do impacto de todo o desperdício que fazemos. Por vezes é difícil mudar de hábitos. Mas aos poucos eles acabam por mudar. Quando compro uma garrafa de água, e umas horas depois outra... começo a sentir um certo peso na consciência por estar a contribuir para aumentar o desperdício de plástico. As minhas filhas andam com uma garrafa  de metal que enchem diariamente. Ainda não me habituei a isso. Talvez daqui a uns anos, ou uns meses, ande também com uma garrafa e uma caneca na carteira. 

 

Lembro-me sempre com alguma ternura de um copinho de plástico colapsável que a minha Mãe tinha sempre no tablier do carro para nos dar água durante as viagens. Ninguém vai recordar com ternura as garrafas de plástico da água. 

 

A quantidade de lixo que fazemos é absurda. E, sobretudo, não é necessária.  Mudar hábitos não é fácil, mas é necessário.

 

 

 

 

 

O mundo é grande! E o que podemos experienciar limitado...

por Paulina Mata, em 05.02.19

IMG_20180807_145944.jpg

 

cinzento.jpg

 

 

Estava a arrumar umas fotografias e encontrei esta. Tirei-a em Agosto numa mercearia em Leicester, em Narborough Road, uma rua que dizem ser oficialmente (signifique isso o que significar) considerada a rua com mais diversidade na Grã-Bretanha. Dizem que o mundo está naquela rua. Não diria tanto, mas a diversidade é grande e vive (aparentemente) em paz, lado a lado. 

 

Quando vi estas coisas enormes (penso que com quase 30 cm de diâmetro) não percebi logo o que eram.

 

IMG_20180807_145948.jpg

 

Demorei algum tempo (e a etiqueta ajudou) até entender que eram sementes de girassol.  Sempre as tinha visto apenas em saquinhos com alguns gramas. Limpas, bem distantes do seu local de origem. Achei fascinante. Senti que tinha ganho o dia. Que tinha ficado mais rica!

 

Recordei-me também de apenas ter tomado consciência de que os amendoins nasciam debaixo da terra quando li este artigo da Alexandra Prado Coelho. Nunca tinha pensado de onde viriam... 

 

Agora, ao rever a foto, dei comigo a pensar como comentamos com espanto o facto de muitas crianças não relacionarem o peito de frango com um frango vivo a cacarejar, e outras coisas do género.

 

Se calhar não é tão chocante assim. Nós relacionamos, pois faz parte das nossas experiências de vida. Mas há tanta coisas igualmente óbvia que nunca relacionámos, porque não fazem parte da nossa experiência de vida. Não será normal? 

 

 

O pequeno-almoço Español

por Paulina Mata, em 03.02.19

IMG_20190119_114709.jpg

 

 

beige.jpg

 

 

Gosto de longos pequenos almoços. Gosto da diferença de hábitos relativamente aos pequenos almoços. Fascinam-me a diferença de hábitos, mesmo quando a distância é curta. Há umas semanas fui com as minhas três irmãs a Badajoz. De tempos a tempos fazemos um fim se semana algures só nós quatro, sem famílias. Desta vez escolhemos Badajoz porque era lá que antes do Natal, ou quando precisávamos de roupa, ou quando precisávamos apenas de espairecer, os meus pais nos levavam em crianças. A "nossa" loja de brinquedos mágica era  Las Três Campanas, do supermercado Simago vinham os caramelos, os melocotones, os patés... Dos Preciados a roupa. Recordações que são certamente as de muitos portugueses, há quem as descreva de forma a que nos revemos completamente no relato.

 

Cerca de 50 anos depois dessas excitantes viagens a Badajoz, resolvemos voltar, na viagem fomos fazendo a lista de tudo o queríamos ver, como se o tempo não tivesse passado. Badajoz é outra agora, porque os tempos mudaram no quase meio século que passou e a cidade evoluiu, porque os portugueses deixaram de ir comprar caramelos e melocotones. Mas foi igualmente divertido.Estivemos à porta de Las Três Campanas, que já fechou, e o bonito edifício vai ser transformado num hotel. Fomos ao Simago, que já não é Simago, nem tem já os perritos calientes de que nos lembrávamos. Mas foi numa cafetaria lá que acabámos por tomar o nosso primeiro pequeno almoço. Tostadas com cachuela, tomate /hamón ibéricotomate/queso, aceite com miel.

 

IMG-20181201-WA0000.jpg

 

Gosto particularmente das de tomate com presunto que me fizeram lembrar outras (melhores) que tinha comido umas semanas antes em Sevilla.

 

IMG_20181127_100452.jpg

 

Há dias li que uma empresa espanhola tinha aberto na Baixa uma loja, que funcionava como charcutaria, mas também servia refeições ligeiras, incluíndo pequenos almoços. Vieram-me logo à memória estas lembranças e uma grande vontade de lá ir tomar o pequeno almoço. E assim foi...

 

IMG_20190119_114648.jpg

IMG_20190119_115356.jpg

 

Soube-me bem! Recordou-me também que está na altura de voltar a viajar à mesa em Lisboa. Enquanto comia pensei no que diria se alguém me perguntasse como era um pequeno almoço característico de Portugal. Não sei bem. Algumas sugestões?

 

 

Beher - Rua da Prata, 249 - Lisboa

 

 

 

 

 

O mundo mudou muito, mas ali nem tanto. Acho que fui eu que mudei mesmo...

por Paulina Mata, em 29.01.19

IMG_20190102_154841.jpg

 

cinzento.jpg

 

 

O balcão da carne era impressionante, sobretudo o canto onde estavam as peças de Wagyu dos EUA e Kobe do Japão.

 

IMG_20190102_161520.jpg

 

Os preços também eram impressionantes, 650 £ por 1 kg de carne Kobe do Japão.

 

IMG_20190102_161534.jpg

 

Se calhar justifica-se. Se calhar vale a pena! Não sei, não provei e não vou provar. 

 

A dois passos estavam as trufas, o foie e o caviar... e muito mais.

 

IMG_20190102_155806.jpg

IMG_20190102_154951.jpg

IMG_20190102_154915.jpg

 

Até os vegetais eram vendidos com estilo.

 

IMG_20190102_155309.jpg

 

O café era torrado ali, em frente dos nossos olhos, numa sala com as paredes envidraçadas. E o chá... não vamos por menos do que por uma mistura personalizada.

 

IMG_20190102_160318.jpg

IMG_20190102_160518.jpg

 

Estava no Food Hall do Harrods. Havia ali de tudo, era fácil gastar o ordenado inteiro e nem sequer comprava jantar para muita gente. E ainda tinha que o cozinhar... Não corri o risco. Não comprei absolutamente nada. Nem eu, nem as dezenas de pessoas que por ali andavam. Alguns saíram com um pacotito de chá ou uma compota.  Muito poucos vi a comprarem o que mostrei. Eu, se pudesse (é que não posso mesmo), não era ali que ia comprar, no meio da multidão de turistas que por ali andava a ver. Como eu. 

 

Lembro-me das primeiras vezes que ali fui, do impacto daquele espaço e daquele luxo. Da excitação de ver ao vivo e a cores muitas coisas que nunca tinha visto. Muitas vezes ali voltei. Agora há uns anos que já lá não ia.

 

Não sei se mudou, não sei se fui eu que mudei. Possivelmente fui eu. Mas fez-me lembrar um circo de comida. Não achei tão atraente como me lembrava de ter achado. Pronto, também já vi muita coisa e até as comi, sem ter que as cozinhar, e muito bem cozinhadas.

 

Nas várias salas há balcões, porque também ali se pode comer. Filas para muitos deles. Primeiro meia hora, pelo menos, em pé na fila, depois o desconforto dos bancos, e depois comer com a sensação de que há uma fila à espera que saiamos dali. E uma multidão de turistas a olhar. Uma experiência muito pouco atraente...

 

Pensando bem... 1 quilito da dita carne dava para um jantar com wine pairing no The Fat Duck. Isso eu sei que vale a pena, e é bem mais a meu gosto.

 

O mundo mudou muito, mas ali nem tanto, tudo é mais ou menos como me lembro de outras épocas. Acho que fui eu que mudei mesmo...

 

 

 

Um verdadeiro mimo!

por Paulina Mata, em 28.01.19

bolo.jpg

 

verde escuro.jpg

 

 

No início do mês fui com a minha filha a uma pequena e despretensiosa pastelaria que tinha aberto perto da casa dela, num bairro nos subúrbios de Birmingham. O que nos levou lá foi terem alguns bolos veganos. Saímos de lá com o bolo acima, com a sensação de que estávamos verdadeiramente a mimar-nos, e antecipando o momento de o comermos.

 

Um bolo com um aspeto e uma qualidade excelentes. Espetada no bolo vinha uma pequena pipeta com um xarope de sumo de limão, para o "temperarmos" a gosto. 

 

Criar e inovar, sobretudo no mercado de luxo, cada vez é mais difícil pois a concorrência de estabelecimentos menos pretensiosos e a rápida integração do que ontem era novidade é grande. Vejo com muito interesse e simpatia espaços como este, que têm por detrás gente com conhecimentos e paixão, que querem, sem comprometer a qualidade, abrir pequenos negócios mais sustentáveis. Acho fantástica esta democratização da cozinha!

 

Violeta, obrigada pela foto.

 

 

Os prémios e a fama e as suas consequências

por Paulina Mata, em 26.01.19

Imagem1n.png

 

cinzento.jpg

 

 

Este foi o primeiro cachorro que comi na cervejaria Gazela, foi em Fevereiro de 2010. Foi fácil encontrar a foto, pois é um exemplo que uso numa cadeira de desenvolvimento de produtos alimentares que dou. A salsicha, a linguiça, o queijo, tudo levemente picante e dentro de um pão crocante. Tudo bons motivos para fazer um cachorro apetitoso e com sucesso, mas não é nada disto que me faz usar este cachorro como um caso que mereça ser referido nas aulas. O mais interessante, do meu ponto de vista, é a forma como partem o cachorro, em pequenos troços. É isso que o distingue, pois altera completamente o paradigma do que é comer um cachorro. Não é mais uma sandes, passa a ser um petisco que se consome de uma forma diferente, permite um envolvimento diferente e convida ao convívio e à partilha. Já lá passei à porta algumas vezes à hora de almoço e sempre vi fila de clientes. Ouvi dizer que abriram do outro lado da rua um novo espaço. O anterior era pequeno, um balcão com cerca de uma dúzia de lugares e mais uns lugares em pé.

 

Posto isto, está claro que gosto muito e reconheço valor ao cachorro da Gazela e o seu sucesso. Contudo, há dias quando vi que estava nomeado para os novos prémios da gastronomia The World Restaurant Awards para a categoria House Special  fiquei incrédula. Os cachorros são um dos 5 pratos nomeados no mundo todo, não conheço os outros, mas não vejo justificação. Não é pela qualidade dos produtos usados (vulgar pão, salsicha, linguiça e queijo), nem pela criatividade ou técnica e, a não ser que tenha mudado no novo espaço, não é sequer um restaurante, é um snack bar.

 

Quando tomei conhecimento da nomeação, lembrei-me imediatamente de um artigo que tinha lido uns dias antes, I Found the Best Burger Place in America. And Then I Killed It, sobre um pequeno restaurante de hamburgueres, numa pequena cidade dos EUA, que foi considerado por um jornalista o melhor hamburguer da América depois de ter feito uma pesquisa que envolveu 330 restaurantes em 30 cidades. A procura foi tanta que não deram conta do recado e acabaram por fechar* menos de seis meses depois.

 

Hoje li outro artigo no The Guardian, The problem with food tourism: the chefs fighting to keep their restaurants special, sobre o impacto que prémios como as estrelas Michelin, ou até uma fama obtida por comentários nas redes sociais, podem ter nalguns restaurantes. Refere os problemas que põem e a dificuldade de lidar com eles nalguns casos. Voltei a lembrar-me, com alguma preocupação, do caso da Gazela.

 

Entretanto, li que a razão para a Cervejaria Gazela abrir o segundo espaço, foi terem aparecido no programa da CNN Parts Unknown do Anthony Bourdain. O público, que acredito que na maioria fosse local, aumentou muito e tornou-se mais diversificado. Foi impossível lidar com isso no primeiro espaço, abriram um segundo espaço que logo encheu também.

 

Assim, às dúvidas: "porque razão os cachorros da Gazela?", "qual o objetivo dos prémios e quais os critérios de escolha?", adicionei as dúvidas: "que impacto é que isto vai ter?" e "será que o impacto destes prémios e listas é suficientemente avaliado?". Porque vai ter impacto, quer ganhe, quer não ganhe. Espero que consigam lidar com isso... mas preocupa-me. Numa época em que tanto se fala de sustentabilidade, era bom que esse conceito também fosse tido em conta nestas situações e se avaliasse bem o impacto destas distinções.

 

*Aparentemente não foi só esta a razão, mas as razões adicionais surgiram já depois de ter lido o artigo.

 

 

Selfieccino, diz-lhe alguma coisa?

por Paulina Mata, em 18.01.19

selfieccino1.jpg

 

verde escuro.jpg

 

 

O fenómeno das selfies é uma coisa que me transcende. Até entendo em determinadas situações, em que se pretende registar um qualquer momento, onde com um grupo é a única forma de fazer uma foto em que fiquem todos. Mas são situações esporádicas. Agora o que por vezes vejo em esplanadas, por exemplo, de pessoas que arranjam o cabelo e a roupa, que treinam o sorriso e o ângulo e depois tiram fotos a elas próprias, uma, duas três... muitas... transcende-me. Assim com alguns instagrams que tenho visto onde só há fotos do próprio autor. Sem grandes considerações... não acho saudável, nem uma forma positiva de ocupar o tempo.  Mas há quem não viva sem elas...

 

Em Inglaterra a cultura das bebidas é bem diferente da nossa, e toda a gente anda de copo ou caneca na mão grande parte do tempo, são os chás, os cafés, os capuccinos... (De tal forma me habituei que me faz falta, cá é mais a bica e eu essa não bebo.)

 

Houve um casal, dono de um café em Londres que decidiu associar esta cultura das bebidas à das selfies e servem capuccinos em que uma foto de quem a bebe é impressa na espuma. Deve ser mais ou menos assim: chega-se ,faz-se uma selfie, pede-se a bebida e manda-se a selfie. Depois, o narcisismo pode ser levado ao extremo de se beber a nossa própria imagem.

 

selfieccino2.jpg

 

Quando vi pela primeira vez achei inacreditável, mas pensei que um dia destes ia lá para ver como era. Depois comecei a pensar que seria um pouco estranho beber-me... Mas confesso que gostava de ver como funciona, consigo ver que pode ser divertido. Será que os outros também lá vão pela mesma razão, e afinal não é o cúmulo do narcisismo? Ou será que no fundo, no fundo... bem acho que não...  Depois ainda pensei levar uma outra foto, mas é batota, é fugir às regras do jogo... Ainda não consegui decidir se vou experimentar. É estranho!

 

Decisões difíceis!

 

 

A moda do abacate e as suas repercussões... tão graves que alguns restaurantes já os tiraram do menu

por Paulina Mata, em 17.01.19

abacate.jpg

 

verde escuro.jpg

 

 

Hoje ao passar as páginas da Time Out vi, logo na primeira página, a rubrica "A Equipa Responde" em que a questão era: "Qual a tua posição sobre o abacate?". Uma das pessoas comia ao pequeno almoço, almoço, lanche e jantar, já a outra não era uma adepta tão entusiasmada, consumia ocasionalmente e preferia uma maçã pois, segundo dizia, não destruía tanto os solos.

 

Não sou consumidora obsessiva, mas gosto de abacate, seja um guacamole, seja apenas barrado numa fatia de pão sem qualquer tempero, numa salada... é bom. Acontece é que de repente o abacate entrou na moda, passou a ser visto como uma opção saudável,  e começou a ser usado para todas as ocasiões e mais algumas. 

 

Estas modas e obsessões têm consequências, e a moda do abacate não é exceção. A necessidade de produzir abacates para satisfazer a procura exigiu novas plantações, tal levou à desflorestação de algumas zonas, nomeadamente no Chile e no México. A sua produção também exige uma grande quantidade de água - quase 250 litros por cada quilo de abacate. Este facto, associado aos químicos agrícolas usados na sua produção e consequente contribuição para a contaminação e solos e lençóis de água, tem causado problemas ambientais graves em várias regiões produtoras e nomeadamente na Califórnia.

 

Por outro lado, no México, o maior produtor de abacate com 33% da produção mundial, os abacates estão na origem de muitas situações de violência. São até chamados de ouro verde, abacates de sangue ou diamantes de sangue. O enorme aumento da procura fez com surgisse o interesse por parte dos vários cartéis da droga no controle das plantações, sobretudo na região de Michoacán onde estas se concentram. Estes obrigam agricultores e proprietários de terras a pagar taxas sobre os seus lucros, o que leva a situações de grande violência, chegando até ao assassinato de quem se recusa a fazê-lo. Também na Nova Zelândia foi registado um aumento da criminalidade associado ao aumento do interesse na produção de abacate.

 

Por todas estas razões, alguns chefes estão a começar a banir os abacates dos seus menus, e até a tentar sensibilizar os consumidores para reduzirem o consumo deste fruto.

 

Tudo isto dá que pensar, quantas vezes estas opções e modas têm repercussões que nem imaginamos?  Comer é cada vez mais complicado...