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Não estará a Universidade de Coimbra a desempenhar o seu papel?

por Paulina Mata, em 12.10.19

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Lembro-me de ter lido há alguns anos que os descendentes de emigrantes perdiam mais rapidamente a língua do país de origem do que o tipo de alimentação. De facto o que comemos está profundamente relacionado com a nossa cultura, experiências e meio social. No entanto, em última análise, o que comemos e a forma como comemos é profundamente pessoal. De tão enraizados que estão os nossos gostos e hábitos, eles servem de conforto quando estamos fora do nosso ambiente, e em épocas de mudança ou de crise. Se sentirmos que são ameaçados, tal é sentido como uma ameaça muito mais profunda do que a relacionada apenas com aquilo que comemos.

 

Sempre achei curioso observar as reações das pessoas relativamente ao que surge de novo, relativamente ao que quase vêem como uma ameaça. Não quer isto dizer que os hábitos não mudem, a reação é relativamente ao que vem de fora, àquilo que as pessoas receiam que lhes vá ser imposto. Lembro-me de em conversas sobre novas técnicas de cozinha, aqui há uns 10 anos, me terem perguntado  "Mas vamos continuar a comer ensopado de borrego?". Acho que as reações fortes a veganos e ao que comem também são de certa forma justificadas por isto (embora possam existir outras componentes). Mas a ameaça que refiro hoje é outra...

 

Recentemente o Reitor da Universidade de Coimbra proibiu o consumo de carne de vaca nas cantinas e bares da Universidade. Tem sido curioso ver as reações e argumentações, em que nunca vi uma discussão séria e profunda do assunto, baseada numa fundamentação sólida, mas que consistem sobretudo em desacreditar,  chegando por vezes até ao insulto. Também nelas se sente a reação a uma ameaça. Uma ameaça bem mais profunda do que a justificada pelo facto de não ser servida carne de vaca nas cantinas da Universidade de Coimbra. Um local onde, curiosamente, as pessoas que reagem desta forma nunca irão comer, e a maioria nunca comeu. Contudo, aqueles que lá comem, os estudantes, compreendem e apoiam a medida.

 

Não sou adepta de proibições, mas mais de informar e educar. Nunca tinha pensado numa medida como esta, e só depois de se ter começado a falar dela me apercebi que já tinha sido tomada noutras Universidades, por exemplo Cambridge e Goldsmiths - University of London. Tenho pensado sobre ela e, neste momento, mais do que uma proibição, vejo-a como uma forma de alertar, sensibilizar e contribuir para alterar hábitos.

 

Nas cantinas das Universidades a presença da carne de vaca não é a mais comum, não vai mudar muito o estilo de alimentação, apenas alguns pratos. Nas cantinas das Universidades, o objetivo é mais manter um preço baixo do que a qualidade. Assim duvido que a carne servida seja de grande qualidade, possivelmente até é carne de produção intensiva, importada de um qualquer outro país (segundo a Balança Alimentar Portuguesa 2012 - 2016 do INE  nesse período importámos 52,7% da carne de bovino consumida). Assim, à pegada da carne de vaca (muito maior do que das outras carnes), junta-se a do transporte e da necessária refrigeração. Não vou discutir se se justifica ou não, não vou discutir se o impacto tem algum efeito para combater as alterações climáticas (os atos de cada um individualmente possivelmente não terão, mas somos muitos milhões neste planeta e os de todos terão...). Mas também não acho que esse seja o aspeto mais importante.

 

Note-se que mesmo antes dessa proibição ter sido implementada, o efeito já foi marcante. Toda a gente falou do assunto. E, seja qual for a forma como se falou, as pessoas ficaram despertas para o problema. Umas tentarão resistir comendo ainda mais carne, fazendo churrascos à porta da Universidade (li algures que tal estava planeado). Outros ficarão sensibilizados para o assunto e começarão a pensar nos seus hábitos alimentares, e procurarão informação para os alterar. E é necessário alterá-los. Pelo clima, pelo planeta, pela nossa saúde. Um artigo recente do jornal Público referia um estudo que concluiu que as crianças portuguesas comem quatro vezes mais proteínas  do que necessitam, e que estas são provenientes em grande parte de carne e de laticínios.

 

Há dias, ao falar deste assunto, alguém me perguntava, interpretando a proibição como uma restrição à liberdade individual, "Então e se algum estudante quiser comer carne de vaca, não pode?". Claro que pode, atravessa a rua e vai à tasca em frente. O mesmo que faz se quiser comer inúmeras outras coisas que não são servidas nas cantinas. Pode também comer outras carnes na cantina, as características nutricionais da sua alimentação não ficam muito alteradas por não comer carne de vaca. A maioria dos portugueses nem a consome muito (segundo a Balança Alimentar Portuguesa o consumo de carne de bovino corresponde a 21,5% da carne consumida, enquanto o porco corresponde a 31,5% e as aves 36,7%).

 

O papel das escolas é sensibilizar e educar, e neste aspeto acho que a Universidade de Coimbra está a desempenhar o seu papel. Esta medida terá certamente um efeito muito maior do que o estritamente relacionado com a carne de vaca consumida nas cantinas. Um efeito ampliado que é fundamental, pelo ambiente e pela nossa saúde, e até pode servir de incentivo a alterações importantes que promovam uma alimentação mais equilibrada, já que cada vez nos desviamos mais do ideal. 

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NOAH - uma óptima descoberta!

por Paulina Mata, em 11.10.19

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Há dias vinha a descer a Av. Guerra Junqueiro e entrei na Mercearia Criativa. A ideia era comprar qualquer coisa para lanchar. Olhei para o frigorífico logo à entrada e vi umas embalagens bem atraentes. Parecia queijo, e quando olhei melhor vi que era um "queijo" vegano. Foi isso que comprei.

 

Ao desembrulhar, o aspeto de um queijo seco deixou-me curiosa.

 

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Cortei e a textura era também muito parecida à de um queijo seco. O sabor, muito agradável. Comi logo ao lanche a parte que cortei.

 

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Com o número cada vez maior de pessoas veganas ou intolerantes à lactose, este mercado tem crescido. Qualquer supermercado tem agora "queijos" de origem vegetal. Alguns desempenham o seu papel, e até de forma tão boa como outros queijos industriais. Mas aqueles que são bons, que valem por si e dão vontade de comprar de novo não são muitos. Tinha encontrado um!

 

É um queijo artesanal, feito pelo Projeto Romã numa quinta em Palmela, e com muita qualidade. Um produto que não tem necessariamente que ser visto como um substituto do queijo, pois vale por si. A base é caju e a mistura é fermentada.

 

Passei na Mercearia Criativa mais tarde e comprei mais dois, o LEIA com ervas aromáticas, e o NOEMI umas bolas de "mozzarella" vegana. Também bons, mas o NOAH continua o meu preferido.

 

É bom ver esta criatividade e estes novos produtos, ainda desconhecidos de muitos, que têm o seu lugar nas nossas mesas e acredito que cada vez mais o vão ter. Muito bom!

 

 

In Between - Um almoço feito a quatro mãos, mas como grande coerência estética

por Paulina Mata, em 07.10.19

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Há pouco mais de uma semana estive no almoço / performance In Between integrado na Lisbon Food Week com o Tiago Feio e a Ana Raminhos.

 

Descrito no programa do evento da seguinte forma:

Um almoço/performance onde exploramos a dicotomia Lisboa/natureza. Começamos com uma série de oposições binárias muito simples: natureza versus gastronomia, interior versus exterior, complexidade versus simplicidade. Ao estabelecermos oposições binárias simples como ponto de partida para este projeto, permitimos que o campo de testes seja o espaço intermédio, o lugar de complexidade, um lugar mais rico. Para este projeto reconhecemos o contraste aparente entre a cidade artificial e o natural, mas também entendemos a cidade como viva e orgânica. Como uma floresta, Lisboa é uma estrutura de vida: sólida, mas também nebulosa, bonita em qualquer momento, mas em constante mudança.

 

O almoço decorreu no último andar das Carpintarias de São Lázaro, um espaço cultural multidisciplinar (artes visuais, música, teatro, dança, cinema... e até gastronomia) e contemporâneo. Desta vez  papel central era o da gastronomia. O espaço enorme e completamente nu, ainda a destacava mais. A única distração possível era a vista da cidade através das enormes janelas. Porém, a cidade era um elemento inspirador, e também integrante, do projeto. Haveria melhor zona da cidade para o almoço decorrer do que aquela onde estávamos, com a sua grande complexidade e diversidade e a consequente riqueza? 

 

Chegámos e não havia mesa, nem cadeiras... nada, apenas algumas ripas de madeira em dois montes. Formavam dois paralelepípedos idênticos. Estávamos numa antiga carpintaria... fazia sentido. De copo na mão andávamos por ali, vendo a cidade e trocando algumas palavras com o Tiago Feio e a Ana Raminhos, que ultimavam os preparativos num espaço minimalista ao fundo - quase sem equipamento e sem água. Apenas duas mesas pequenas.

 

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A certa altura a Ana e o Tiago construíram a mesa. E nós íamo-nos interrogando - o que era? como funcionaria?

 

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Surgiram também umas almofadas brancas que puseram à volta. Era a nossa mesa e íamos comer sentados no chão. Assustou-me... acreditem que sim! Estar ali algumas horas sentada no chão... não ia ser fácil.

 

Ocupámos os nossos lugares vieram os talheres...

 

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Logo a seguir começou a refeição, que se desenrolou em 8 momentos.

 

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Cuscos de Trás-os-Montes cozinhados como se fosse um arroz cremoso, Romã

 

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Emulsão de azedas com limão e mel, Uvas, Bolo esponja com matcha e uma variedade de ervas aromáticas

 

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Nas mesas do fundo o trabalho continuava para que a comida chegasse à nossa mesa, trazida pelos chefes e pela Ana Cachaço.

 

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Gema curada, Caldo de cebola caramelizada, Trigo sarraceno, Halófitas e Beldroegas

 

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Puré de shiitake, Espinafre selvagem e Crocantes de sementes

 

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Novilho dos Açores, Iogurte de alho fermentado e Pickles de alga kombu

 

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Toffee de molho de soja, Gelado de sésamo negro, Carvão ativado e pó de sésamo negro

 

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Canudo de massa folhada com Ganache de azeite e sal

 

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Choux à la crème, Creme de vinho Madeira, Noz moscada

 

Um almoço feito a quatro mãos, mas como grande coerência estética. Uma estética própria, não só visual como de sabores.  Sabores bem definidos, fortes, e alguns pouco habituais. E Lisboa sempre ali em frente, a "temperar" cada momento. Muito bom . Aqui e ali discutia-se o preferido. Eu gostei de todos.

 

A sequência dos pratos, a sua diversidade, a expetativa, a curiosidade, e quase me esqueci que estava sentada no chão. Está bem que me fui levantando de vez em quando. A mesa também era muito orgânica, quase viva, reagia a estímulos, permitia mudanças. E do meu lado foi mudando ao longo do tempo... e acabei encostada à parede. Tudo sabia ainda melhora assim.

 

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A comida é muito mais do que o que está no prato, e todas estas componentes adicionais a tornam ainda mais interessante.

 

 

 

Arkhe - Sem carne, sem peixe, mas com muito sabor

por Paulina Mata, em 29.09.19

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Gosto  muito de melancia. Não foi a primeira vez que a comi como um elemento central de um prato salgado, mas os dedos das duas mãos são demais para contar as vezes que isso aconteceu. Este mês aconteceu duas vezes.

 

Fiquei curiosa quando li vi no menu a entrada de Crocantes de Tapioca e Beterraba com Melancia, Mostarda de Dijon e Alcaparras. Ela chegou, e a melancia era de facto o elemento central. Fatias finas de melancia, bem temperadas e com uma textura que fazia lembrar a carne. Não tenho a certeza se o efeito da cor não se perde no crocante, e até se este é o acompanhamento ideal. Mas gostei do conjunto e adorei a melancia.

 

Esta foi uma entrada de uma boa refeição. Aqui e ali, como em qualquer refeição deste tipo, algo a precisar de ser mais trabalhado, mas pratos muito bons e com características bem diferentes.

 

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Flatbread de Batata, Courgette Grelhada, Mousse de Queijo de Cabra, Pickles de Shimeji e Avelãs

 

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Shiitake, Couve Flor Assada, Demiglace de Umeboshi, Ameixas e Nozes

 

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(Excelente) Tortellini de Kimchi, Creme de Cenoura e Miso, Espuma de Parmesão 

 

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Granita de Abacaxi e Gengibre, Creme de Coco, Abacaxi Assado e Praliné de Amêndoas

 

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Morangos , Bolo de Amêndoa, Creme de Maracujá, Sorvete de Frutos Vermelhos

 

Refeições deste tipo, sem carne e sem peixe, são ainda pouco comuns. Já comi algumas, mas os dedos das duas mãos são demais para contar as vezes que isso aconteceu.  

 

O que acho mais interessante na cozinha nos últimos anos é a criatividade que origina pratos excelentes, sem recurso a produtos de origem animal.  Não vou deixar de comer carne e peixe. Não quero fazê-lo. Mas tem sido a descoberta de "outro mundo", em que se tem que pensar e cozinhar muito fora dos padrões habituais, novas ideias, novas técnicas, novos sabores.

 

PS

Este post é idêntico ao anterior. Duas experiências diferentes em dois países diferentes. Duas experiências com muita coisa em comum, que achei que ficavam bem contadas em paralelo. 

Não foi a primeira fez que fui ao Arkhe e as experiências foram idênticas. Os pratos são mais bonitos do que as fotos deixam ver, mas a luz do restaurante não me permitiu conseguir melhor...

 

Arke - Boqueirão do Duro, 46, Santos, Lisboa

 

Land - Sem carne, sem peixe, mas com muito sabor

por Paulina Mata, em 27.09.19

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Gosto  muito de melancia. Não foi a primeira vez que a comi como um elemento central de um prato salgado, mas os dedos das duas mãos são demais para contar as vezes que isso aconteceu. 

 

Fiquei curiosa quando li no menu de degustação que me iam servir "Watermelon - Chilli - Coriander - Polenta". Ela chegou, e era de facto o elemento central do prato. Um bom naco de melancia, impregnado com alguns temperos e grelhada. Uma textura que fazia lembrar a carne, um sabor delicioso. A acompanhar, além de uns crocantes de milho, sobretudo melancia em pickle, picante, uma textura bem firme. Melancia com melancia, mas sabores e texturas muito diferentes, e que se complementavam. Adorei!

 

Este foi o terceiro prato de um menu muito bom. Aqui e ali, como em qualquer menu deste tipo, algo a precisar de ser mais trabalhado, neste caso sobretudo as sobremesas, de resto um menu com pratos muito bons e com características bem diferentes.

 

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Tofu - Aubergine - Choi Sum - Shimeji

 

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Oyster Mushroom - Courgette - Cashew

 

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Carrot Terrine - Barley - Miso - Avocado

 

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Apple - Caramel - Bay Leaf - Hazelnut 

 

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Strawberry - Coconut - Elderflower - Shortbread

 

Menus de degustação deste tipo, sem carne e sem peixe, e no caso sem nenhum produto de origem animal, são ainda pouco comuns. Já comi alguns, mas os dedos de uma mão são demais para contar as vezes que isso aconteceu.  

 

O que acho mais interessante na cozinha nos últimos anos é a criatividade que origina pratos excelentes, sem recurso a produtos de origem animal.  Não vou deixar de comer carne e peixe. Não quero fazê-lo. Mas tem sido a descoberta de "outro mundo", em que se tem que pensar e cozinhar muito fora dos padrões habituais, novas ideias, novas técnicas, novos sabores.

 

 

Land Restaurant  -  26 Great Western Arcade, Birmingham 

 

 

 

O pão, no chocolate... e no gelado.

por Paulina Mata, em 17.09.19

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Enquanto estava aqui a conversar (ou seja, responder aos comentários) no último post, fui buscar um chocolate para comer uns quadradinhos enquanto bebia chá... O chocolate é muito bom!

 

Há pouco mais de um ano e meio descobri os Cocoa Runners, e de repente percebi que tinha que repensar todas as minhas experiências com chocolate... 20 meses (e 80 chocolates diferentes - nunca repetem - depois) o padrão mudou muito. A diversidade é fascinante.

 

Um dia descobri que um dos produtores, Pump Street Chocolate,  também enviava caixas com 4 chocolates surpresa de 2 em 2 meses, também subscrevi. Neste caso repetem. Este mês aconteceu com um dos chocolates deles de que mais gostei, o Sourdough & Sea Salt 66%  Hacienda Limon no Ecuador - colheita de 2018. O chocolate é delicioso. Complexo, com um leve sabor a caramelo, mas suave (pouco ácido ou amargo). A tablete tem uma textura muito lisa, mas quando se mete na boca tudo muda, o pão foi torrado e foi moído, juntamente com os grãos de cacau, portanto de forma muito fina. Apesar disso, quando se mastiga sente-se, é extremamente crocante, sabe a pão... e a chocolate... o sal realça os sabores todos.  Adoro!

 

Ao comê-lo lembrei-me de uma das minha maiores vergonhas gastronómicas... A minha irmã mais nova viveu uns anos em Londres, eu ia lá muitas, muitas vezes. Ela vivia num quarto pequeno, numa casa com uma grande cozinha com uma mesa grande e um sofá, e passávamos lá muito tempo. Lá em casa vivia também um inglês que cozinhava bastante. Um dia disse que estava a fazer um gelado de pão torrado. Eu comentei que era estranho e a expressão facial deve ter demonstrado pouco interesse em provar. Nem sei porque reagi assim... como tudo e gosto de experimentar tudo. Mais tarde ele deu a provar às outras pessoas da casa, mas não me deu (culpa minha... quem me mandou ser parva?). Não tive coragem de pedir, mas o gelado, e a experiência que não tinha tido, não me saíam da cabeça. Mal cheguei a casa procurei uma receita de gelado de pão torrado. Fiz e comi, e constatei que era excelente e também jurei nunca mais fazer figuras daquelas.

 

Um dia destes acho que vou fazer um gelado de pão torrado e chocolate. É capaz de ser bom... Para já vou comer mais um quadradinho (já não há muitos, a tablete só tem 70 g).

 

Foto DAQUI

 

 

 

As férias e a angústia da página em branco...

por Paulina Mata, em 14.09.19

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Estas férias tiveram uma característica especial, estive quase um mês sem sequer ligar o computador.  Soube bem. Mas as férias não foram tão longas quanto as 8 semanas de ausência do blog poderiam levar a concluir. A culpa para as primeiras duas semanas foi o trabalho, que não me deixou tempo livre. As quatro seguintes, foram aquelas em que não liguei o computador. Para as duas últimas podia arranjar n desculpas mas, basicamente, foi a angústia da página em branco. Aconteceu-me quando comecei o blog. Escrevi o primeiro post a 4 de Janeiro de 2016 depois, durante 3 semanas, não me ocorreu nada para escrever e só o pus visível mais tarde, depois de escrever o segundo post a 25 de Janeiro.

 

Hoje não tenho a menor ideia sobre o que vou escrever, mas é altura de vencer a angústia da página em branco... De facto, no primeiro post dizia que cada vez tenho menos certezas e posições bem definidas sobre gastronomia (e sobre quase tudo). Que precisava de pensar, de reflectir, de descobrir o que sentia. De repensar tudo. Basicamente acho que continuo no ponto zero... tudo muda muito rapidamente.

 

Quando comecei o blog mal se falava da necessidade de alterar a nossa forma de comer. Hoje ouvimo-lo todos os dias. Em Londres vi alguns milhares de pessoas, mais de uma dezena de milhar, manifestando-se pelos direitos dos animais. Gente de todas as idades, seguramente dos 8 meses aos 88 anos...

 

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Continuo a comer tudo, mas de forma diferente. Há dias ao ver um anúncio de um supermercado pensei - isto começa a ser muito controverso.  Está tudo a mudar depressa... e todos vamos ter que nos adaptar.

 

Nas férias comi coisas simples, mas algumas muito boas. Gosto muito de ir às lojas e restaurantes que muitas quintas  produtoras de alimentos, ou mesmo garden centres, têm no UK. Sempre muito concorridos e com uma excelente oferta.

 

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Constatei mais uma vez a óptima oferta de pratos veganos, mesmo num restaurante de bairro de pizzas.

 

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Descobri filhoses quase iguais às que a minha Avó fazia a milhares de quilómetros de distância. E ninguém copiou ninguém...

 

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Mas foi bom também fazer coisa simples, como procurar pedras pintadas no parque. Uma atividade que os elementos mais novos da família muito apreciam, sobem até às árvores para as procurar. Eu adoro a ideia das pessoas pintarem pedras e as esconderem nos parques para as crianças procurarem e as esconderem noutro local.

 

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Ou jogar escape games de tabuleiro ao serão, ou mesmo em escape rooms, esta uma atividade muito popular entre os membros mais velhos da família.

 

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Agora é hora de voltar à vida real, espero que escrever ajude. Mas decidir sobre o que escrevo está a ser um desafio... 

 

Uma inesperada visita ao Marrakesh

por Paulina Mata, em 20.07.19

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20 horas e 30 minutos. Estávamos numa aula. Passava um filme em que se viam imagens do Iftar (a quebra do jejum dos muçulmanos durante o Ramadão), uma família Marroquina preparava uma Bastilla.

 

O meu vizinho do lado disse baixinho:

Gosto tanto daquilo! Há tanto tempo que não como...

Respondi também baixinho:

Eu também. Sei de um restaurante onde há, a 5 minutos daqui. Vamos?

 

E foi assim que, de uma forma que não tinha sido planeada, pouco mais de meia hora depois estávamos sentados à mesa do Marrakesh. Pela decoração, e também pelas pessoas sentadas nas outras mesas, quase parecia que estávamos em Marrocos. A sala de aula, apesar de estar apenas a algumas dezenas de metros dali, parecia longe, longe...

 

O que pedimos? Obviamente uma Bastilla de Frango com Amêndoas, como a que tínhamos visto no filme:

 

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A massa exterior fina e estaladiça, o recheio de frango saboroso, por cima algumas amêndoas, mas também açúcar fino e canela. Soube tão bem! O meu companheiro de mesa chegou a dizer que era a melhor que tinha comido. 

 

Seguiu-se uma Tagine de Vitela com Ameixas e Amêndoas acompanhada com Couscous. Pena não ter chegado no tipo de recipiente que lhe dá o nome. Imaginámo-la vinda de um tacho... estava saborosa, mas faltava o recipiente...

 

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Para sobremesa partilhámos uma Laranja com Água de Flor de Laranjeira e Canela.

 

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O Marrakesh tem comida marroquina e indiana, o ambiente parece mais marroquino e nós estávamos ali pela comida marroquina. Valeu a pena a inesperada viagem à mesa até Marrocos.

 

 

Marrakesh - Avenida Conde de Valbom, 53, Lisboa

 

 

Se ali trabalhasse, almoçava no Panorâmico todos os dias!

por Paulina Mata, em 17.07.19

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Quando viu chegar a  Bruschetta de Sardinha Braseada, Tomate e Pimentos, uma das pessoas que estava à mesa comentou que não gostava de sardinhas. A Marlene Vieira sugeriu que provasse. Assim foi, e... gostou mesmo!

 

Fomos almoçar ao Panorâmico da Marlene Vieira. Tal como o nome indica a vista é belíssima. Dizem que dá para ver Sintra, Cascais, Oeiras e Lisboa. Uma sala espaçosa, confortável e com muita luz. No terraço uma horta. De vez em quando a Marlene saía de tesoura na mão e ia apanhar uma ervas aromáticas para o nossos pratos. Éramos um grupo de 6 e, perante a indecisão, a Marlene ofereceu-se para fazer um pequeno menu de degustação com os pratos da carta, para que todos pudéssemos provar mais coisas.

 

Foi assim que a Bruschetta de Sardinha chegou à mesa. Estava de facto maravilhosa, a pele corada, o peixe suculento, o sabor da sardinha assada numa textura bem mais agradável. A seguir à sardinha chegou uma sopa de tomate. Disse a Marlene que os tomates já estavam muito bons. O Creme de Tomate, Ovo Escalfado e Hortelã estava de facto muito saboroso.

 

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De seguida vieram os Rolinhos de Robalinho Escalfados, Legumes da Época e Velouté. No final alguém dizia que tinha sido o prato de que tinha gostado mais.

 

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Eu estava indecisa, pois o Rosbife de Vitela com Molho Mirandês também estava muitíssimo bom.

 

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Para sobremesa veio para todos o Fudge de Chocolate e Caramelo e Flor de Sal

 

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Houve alguém que falou do Pudim Abade de Priscos da Marlene. Como que por magia, momentos depois cada um de nós tinha um cubinho do famoso pudim.

 

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No final só me ocorreu dizer uma coisa: "Que inveja de quem trabalha no Tagus Park! ".  Percebi também que já tinha saudades da comida da Marlene!

 

O Menu Executivo com couvert, entrada, prato principal e sobremesa, custa 18,5 euros. Com comida com esta qualidade é excelente! Se ali trabalhasse, almoçava no Panorâmico todos os dias!

 

 

Panorâmico - Avenida Dr Jacques Delors, Nucleo central, nº 1, 401, Tagus Park, Oeiras

 

 

 

 

O mundo muda... e há muitas coincidências

por Paulina Mata, em 14.07.19

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Foi há muitos anos que fui pela primeira vez ao Tapas Room do The Providores, não sei quantos, talvez uns 12 anos. Gostei muito. Voltei algumas vezes, até que um dia decidi ir ao The Providores, no 1º andar. Esperava gostar mais, mas não aconteceu... Nunca mais fui ao 1º andar, mas voltei muito mais vezes ao Tapas Room.

 

Os restaurantes são em Marylebone, uma área simpática, com um farmers' market ao domingo que dizem ser um dos melhores de Londres, o talho Ginger Pig, a La Fromagerie, as lojas de chocolates Rococo e Pierre Marcolini. Havia ainda por lá uma loja de equipamento de cozinha, a Divertimenti, que já mudou de local. Cheguei a ir lá a um curso de cozinha em que andámos pelo bairro a fazer as compras e depois as fomos cozinhar e almoçar. Enfim, uma zona com muita coisa interessante e onde vou frequentemente passear quando vou a Londres. Muitas dessas vezes comia qualquer coisa no Tapas Room.

 

Hoje descobri que o restaurante, com 18 anos, vai fechar no final deste mês. Diz-se que  Peter Gordon, com este seus restaurantes, foi um pioneiro em Londres em várias coisas que tomamos hoje como comuns: doses pequenas, não aceitar reservas e a cozinha de fusão. O restaurante é assim um marco importante, mas tudo tem um tempo de vida, e 18 anos num restaurante é um tempo considerável. Peter Gordon diz que quer descansar e dedicar-se a outros projetos.

 

Não pude deixar de me lembrar de um prato que comi no Tapas Room em agosto passado, a última vez que lá estive, a salada de melancia cuja foto está no início do post. Gostei muito! Fui para uma refeição leve. A seguir à salada de melancia comi este prato, mas não me lembro o que era:

 

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Nesse dia, como hoje, lembrei-me de uma outra refeição que lá tive há quase 10 anos. Um almoço com um jovem cozinheiro inglês. Uma história engraçada e com algumas coincidências pelo meio. Um dia, casualmente, encontrei o blog dele, era um miúdo ainda e o blog tinha uma bandeira do UK e outra nossa, pois tinham estado cá de férias e estabeleceram alguns laços com uma família no norte. Li uns posts e achei graça. Soube uns anos depois que ele estava em Barcelona no Comerç 24. Fui a Barcelona e resolvi lá ir, escrevi-lhe a dizer, passado uns dias recebi um email do Pai dele com algumas informações. No Comerç 24 disse-lhe "Olá!" ele mal respondeu, soube depois que não podia falar com os clientes. O Pai de vez em quando dava notícias do percurso do filho.

 

Um dia estava em Londres e recebi um email do Pai, disse-me que o filho me tinha visto naquele mesmo dia em Marylebone e gostava de se encontrar comigo. Respondi que não podia, ia no dia seguinte para Leeds. Recebi um email de volta a dizer que ele vivia em Leeds, então que nos podíamos encontrar nós. Não tive como dizer que não, e dois dias depois fomos almoçar ao Salvo's, um bom restaurante italiano nos arredores de Leeds. Disse-me que o filho estava a trabalhar na La Fromagerie em Marylebone, perguntou-me se não voltava a Londres. Sim, ainda passava por Londres... e 2 dias depois estava a almoçar no Tapas Room do The Providores com o filho. Não me lembro do que comi, mas lembro-me que ele comeu um Laksa (uma sopa da Malásia). Há muito que não sabia nada deles, já nem me lembrava dos nomes.

 

Hoje, ao escrever este post lembrei-me do nome do Pai, encontrei um email dele, nele estava o nome do filho. Com o Google ficamos a saber tudo... Fiquei a saber do percurso dele nos últimos anos e que, por coincidência, ele foi durante algum tempo o Chefe do Vanilla Black, um restaurante sobre o qual escrevi um post há algumas semanas.  Ao que o fecho do Tapas Room deu origem...!!!!

 

O mundo muda... e não vou voltar ao Tapas Room, tenho que procurar alternativas para quando for a Marylebone...