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Cabazes de Legumes - recuperação de um processo alternativo de distribuição

por Paulina Mata, em 15.05.17

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Há uns anos surgiram os cabazes de legumes. Geralmente pequenos produtores, ou grupos de pequenos produtores, que não tendo possibilidade de escoar os seus produtos pelos grandes canais de distribuição alimentar, encontravam uma forma alternativa e mais personalizada de chegar aos seus clientes. Esta forma de comprar legumes e fruta diretamente aos produtores, sem passar por intermediários comerciais, permitia uma ligação mais estreita entre consumidores e produtores e um incentivo e apoio à produção local.

 

Embora não fosse consumidora destes cabazes, via com muito bons olhos esta forma alternativa de distribuição e este contacto mais estreito entre produtores e clientes. Para os clientes era também uma forma de, sem grande esforço, obterem os produtos sazonais, de facto aqueles que estavam na força da sua produção em cada semana, e também um desafio a que consumissem vegetais diferentes, que normalmente não comprariam, mas que vinham no capaz e acabavam por experimentar.

 

No entanto a grande distribuição recupera tudo. Até isto! Não gostei de ver há umas semanas que agora o Continente disponibiliza aos seus clientes cabazes, entregues em casa. De legumes, mas também de fruta, carne, de peixe e de mariscos. Tudo o que levou à criação desta forma de distribuição, e que era interessante nela, se perdeu, e eles usam essa imagem e conceito para venderem mais e aumentarem os seus lucros. Retiram significado ao conceito, ocupam um espaço que era de outros e, eventualmente, acabam com o negócio e forma de vida de pequenos agricultores. 

 

É tão triste ver estas coisas a serem recuperadas pelas grandes cadeias! É também mau sinal, como ontem referia.

 

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Não como nada com químicos!

por Paulina Mata, em 27.02.17

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"Não como nada com químicos!"

 

Quando oiço isto, por vezes digo:

"Ai come, come!"

 

Outras vezes limito-me a sorrir para dentro e a pensar

"Acredite no que quiser."

 

Depende da disposição.

 

Toda a matéria é formada por compostos químicos. Todos os processos culinários envolvem técnicas para promover reações químicas entre esses compostos, ou então para evitar algumas destas reações. E os produtos resultantes, uns são simpáticos, outros menos. Mesmo quando tudo é feito de forma natural. Será que uns grelhados na brasa passariam no crivo de um processo de avaliação como os que são exigidos actualmente? Talvez não...

 

A indústria alimentar também não contribui para informar de forma correta, antes explora ambiguidades, crendices e ideias difundidas, aparentemente intuitivas, e não fundamentadas. Se isso vende...

 

Os alimentos são sistemas muito complexos, não há linhas divisórias claras entre bom e mau. Sobretudo critérios como natural vs sintético, ingrediente tradicional vs aditivo, processo tradicional vs processo inovador, não são minimamente úteis para avaliar o efeito dos compostos químicos presentes em qualquer alimento. O que parece intuitivo, raramente funciona como distinção. Tudo depende do contexto, da forma como se consome, tudo depende de um conhecimento mais profundo. 

 

Por mais que alguém tente, uma vida "livre de químicos" não é exequível. Compreender um pouco sobre os compostos químicos nos alimentos e como se comportam, pode ser útil e interessante.  Nos próximos dias há mais...

 

 

 

Incoerências (1)...

por Paulina Mata, em 25.02.17

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Quando me dizem: "Este vinho é bom para mulheres" ou este prato, ou esta sobremesa... Fico mesmo irritada! Digo logo: "O que é isso de vinhos ou comida para mulheres? Há comida para pessoas, há gostos diferentes."

 

Mas quando há dias vi à venda esta couve-flor cor de rosa, não resisti a comprar. E pensei: "É mesmo uma couve-flor para mulheres."

 

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Assim como não resisto de cada vez que vou  Inglaterra a comprar uma Rose Lemonade.  Da última vez não a bebi, e acabei por metê-la na mala. Há dias a bebê-la pensei "É mesmo uma bebida para mulheres."

 

Mas, pensando bem, já vi muitos homens com um copo de vinho rosé na mão...

 

Incoerências? Preconceitos?

 

 

Detox - será que vale a pena?

por Paulina Mata, em 20.02.17

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De todos os aspectos relacionados com a alimentação, aqueles que menos me atraem são os relacionados com a saúde. Porque de facto me interessam menos, porque não acredito na generalidade da informação com que somos diariamente bombardeados e que não tem qualquer fundamento, porque os meus dias só têm 24 horas e são bem ocupados e prefiro gastar essas horas a fazer coisas que me agradem mais, do que a fundamentar-me para poder compreender melhor e eventualmente refutar algumas coisas. Mas também não sei se valeria a pena fazê-lo, é que relativamente à comida, como a quase tudo, o mais importante é o que se passa na cabeça. Vivemos numa época em que comer adquiriu uma forte componente moral e política, por outro lado é também uma época de grande insegurança e mudança em que pouco controlamos, e o controlo daquilo que metemos na boca e acreditamos que nos faz bem pode ser quase a única coisa que podemos controlar. Tudo é mesmo muito complicado!  Há muito tempo que concluí que  "Se faz bem à cabeça, então faz mesmo bem", e a cada um de decidir o que lhe faz bem à cabeça.

 

Já me custa mais o aproveitamento, umas vezes desonesto, outras até posso acreditar que não o seja, de tudo isto. Penso que as coisas deviam ser mais fiscalizadas e reguladas. O que se vende, e a forma como é apresentado, mas também o que a comunicação social transmite, sem rigor e sem ética.

 

O uso da palavra "saudável" aplicado a tudo o que convém deixa-me perplexa e causa-me alguma irritação. Uma palavra em vias de perder qualquer significado, como já aconteceu com o "gourmet"...  O mesmo acontece com os tratamentos "detox", seja lá o que isso significa, e o seu sucesso. Há muitos anos que dou aos meus alunos para ler uma publicação da organização Sense About Science (não sei se leem, mas deviam...). Nesta - Making Sense of Chemical Stories - na página cinco há uma secção com o sugestivo título Drop “detox” have a glass of tap water and get an early night! cuja leitura aconselho. Assim como, também sobre este assunto, aconselho a leitura do artigo de Jay Rayner Dishing the Dirt on Detox.

 

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Parecem boas e virtuosas, mas nem sempre o são...

por Paulina Mata, em 08.11.16

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Há dias li uma notícia que me chamou a atenção: Médicos e nutricionistas alertam para o risco de consumo excessivo de sementes. Vivemos uma época complicada, em que acredito que temos necessidade de arranjar âncoras, espaços e práticas que nos dêem segurança, que nos façam sentir que assumimos algum controle que nos permite ser mais felizes e ter mais saúde. Por outro lado, temos fácil acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação, fundamentada alguma, mas uma percentagem elevada sem qualquer fundamento. Tudo isto leva a que práticas que intuitivamente parecem boas e virtuosas, apesar de não o serem, sejam adoptadas. A imprensa e os blogs fazem eco delas, transformando-as em verdades, e até em dietas milagrosas. Depois, muitas vezes, dá mau resultado... O problema descrito nesta notícia é um bom exemplo.

 

As palavras natural, saudável, sem químicos, detox, super-alimentos, light, e outras idênticas, que servem para tudo quando convém, assustam-me, e irritam-me também... pela forma como conceitos sem fundamentos se propagam. Mas há uma outro aspeto que as dietas assumiram nos últimos anos, uma dimensão moral. E isto pode ser ainda mais assustador, pois comer com prazer é quase visto como um pecado, e quem o faz sem seguir as regras (definidas sabe-se lá com que critério)  é considerado uma pessoa de carácter duvidoso. Come-se com um sentimento de culpa, diabolizam-se alimentos, endeusam-se outros, e tudo isto pode ter consequências importantes. Como dito na notícia que referi: "A alimentação saudável é aquela que se pauta pelo equilíbrio, pela variação e pela variedade de alimentos".

 

Recentemente, através do artigo The prophets of modern dieting want you to feel guilty about food de Jay Rayner, um artigo bem provocador, como é característico do seu autor, descobri um site muito interessante, que aos poucos, e devagar, devagarinho, tenho vindo a ler:  The Angry Chef - exposing lies, pretensions and stupidity in the world of food. É importante que se chame a atenção para estes assuntos,  e seria importante que os meios de comunicação tivessem mais cuidado com aquilo que divulgam, e antes de o fazer procurassem saber de fontes credíveis se há fundamentação para aquilo que pretendem divulgar.

 

Foto DAQUI

Afinal têm sal ou não? (ou o caso de um exemplo mal escolhido...)

por Paulina Mata, em 12.09.16

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Mas afinal têm sal ou não? Em letras grandes diz que não, nas pequenas diz que sim. Quando é preciso... E quando é que é preciso? Sempre? Quase sempre? Quase nunca?

 

Ao ler coisas destas sinto que nos estão a tentar enganar, e perco a vontade de comprar. Esta publicidade enganosa, e notícias na impresa, livros, blogs e sites sobre dietas e alimentos com poderes milagrosos e que não têm o mínimo fundamento, ou a alegação da sua inocuidade simplesmente por serem naturais, não deveriam ser permitidas. Contudo, continuam a ser transmitidas diariamente, com a maior leveza, por quem não tem competência para o fazer.

 

PS

Depois de uma chamada de atenção na caixa de comentários, tomei consciência de que não fiz a interpretação correta do texto. Meti o pé na argola e fui injusta... Acontece...mas lamento.

O que referi ocorre muito frequentemente, mas não será o caso neste anúncio.

Contudo decidi deixar o post com esta ressalva e uma alteração no título.

 

 

Os bules de inox irritam-me!

por Paulina Mata, em 22.05.16

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Por vezes apetece-me sentar com um chá e um Hanjie (um hábito antigo - nunca os faço em casa, mas nunca saio de casa sem um caderno de hanjies na carteira - ajudam a passar o tempo quando é preciso e ajudam a pensar, ou não, depende... já me salvaram a vida em muitas situações). Muitas vezes a escolha é uma conhecida cadeia de fast-food. A razão?  Os bules de inox em que servem o chá na maior parte dos cafés irritam-me profundamente. Pior... só quando põem o saquinho do chá diretamente numa chávena.

 

Com a maior parte dos bules de inox o chá vem todo por fora. Arranjei uma técnica - tiro a chávena do pires e ponho-os lado a lado. Deito o chá na chávena e metade escorre para o pires. Enfim! Um péssimo design. Ainda não entendi porque insistem neles. Se o facto de se molhar tudo à volta ao deitar o chá não fosse suficiente, ficam muito quentes, queimam se lhes tocamos e o chá arrefece mais rapidamente. Mas ainda há mais, são feios. Muito feios.

 

Gosto de bules pesados, gosto de bules de cerâmica. Curiosamente é onde o chá é servido nesta cadeia de fast-food. Há uns anos até me davam uma caixa com uma variedade de chás para escolher. Agora, infelizmente, já não. Continua a haver uma variedade de opções, mas não é o mesmo.

 

É por causa do bule que lá vou... mas aquele mini-quindim também ajuda na decisão.

 

 

 

Bons argumentos promovem melhor

por Paulina Mata, em 14.05.16

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Não é nada bom quando se promove um trabalho comparando-o com o dos outros, e deitando-os abaixo! Acontece em muitas situações e mais vezes do que o desejável. Pergunto-me sempre se o trabalho não vale o suficiente para ser promovido com argumentos positivos próprios. 

 

Pior ainda quando se usam argumentos que não têm ponta por onde se lhes pegue. Esta semana, por exemplo, dei com isto na Time Out a propósito de um espaço especializado em pastéis de bacalhau:

 

"Há desde os pastéis que seguem a receita mais clássica a outros que são uma reinvenção. Mas não se assuste que aqui não há ingredientes como o queijo da Serra. Houve um respeito pela receita tradicional, mas inovou-se com ingredientes como as azeitonas e os pimentos."

 

Porque é que são mais válidas as azeitonas e os pimentos do que o queijo da Serra?

 

 

 Ilustração DAQUI

 

Mais um atentado...

por Paulina Mata, em 19.03.16

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Esta foto tirei-a na İstiklâl Caddesi, a avenida onde houve um atentado hoje. Que época triste em que vivemos... Que coisa terrível aconteceu mais uma vez.

 

Fez-me, contudo, recordar uma cidade fantástica, onde fiquei como muita vontade de voltar. Fez-me lembrar este restaurante, também na İstiklâl Caddesi, onde numa montra mulheres faziam o pão que era servido. Na outra janela vendiam-se os famosos gelados turcos.

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O pão vendido na rua ... uma das boas memórias que tenho de Istambul...

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Recordei sobretudo uma das coisas mais impressionantes que já presenciei, um jardim repleto de famílias com as suas merendas para no Ramadão, ao fim da tarde, comerem a sua primeira refeição em conjunto. Algo que nunca esquecerei.

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E a seguir era a festa até de madrugada...

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Uma viagem que fiz com a melhor companhia do mundo.

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Eu não trabalho para eles... mas até parece!

por Paulina Mata, em 25.02.16

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 Há coisas que me irritam muito!

 

Vou ao supermercado e cada vez há menos caixas, e são maiores as zonas onde somos nós que fazemos tudo!

Vou comprar o passe e dizem-me que agora já não vendem na bilheteira, tenho que ir à máquina!

Vou a uma cadeia de fast food e dizem-me que tenho que ir fazer a encomenda à entrada, nuns enormes ecrãs.

Para as minhas despesas serem consideradas pelas finanças tenho que ir validar os recibos todos.

 

Não gosto!

Gosto de dizer bom dia e boa tarde, e dar dois dedos de conversa a quem me atende.

Estou cansada, trabalho o dia inteiro, mais horas do que aquilo que é suposto, não me apetece continuar a trabalhar no supermercado, para comprar o passe, para comer, para ter os descontos a que tenho direito! Não preciso de mais trabalho, nem de mais stress.

 

Depois constatamos que há cada vez mais desemprego! Pois se nós, alegremente, trabalhamos para os nossos empregadores e para aqueles que não o são! Não quero trabalhar para quem não me paga para isso, sobretudo quando estou a contribuir para que esses senhores deixem de pagar a outras pessoas.  Se querem que trabalhe para eles que paguem, que as compras feitas assim tenham um desconto, por exemplo. Mas não...

 

Evito estas opções que, aparentemente, nos facilitam a vida, que são modernas... E quando eventualmente as uso, faço-o com um enorme peso na consciência.  É importante que tomemos consciência das consequências destas coisas. Daquilo para que estamos a contribuir. Da forma como nos estão a usar. E que pensemos bem se estamos dispostos a isso.

 

 

Foto DAQUI