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Simpósio Sangue na Guelra - Reflexões (4)

por Paulina Mata, em 10.06.17

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As apresentações conjuntas dos chefes e a divulgação de um manifesto foram introduzidos como os momentos que mais expectativas geravam relativamente simpósio.

 

Vários chefes (que referirei adiante) foram divididos em grupos, a cada grupo foi atribuído um tema sobre o qual deveriam trabalhar. Uma iniciativa interessante, pois a troca de ideias e experiências pode ser muito útil. Penso que deve ser um modelo a repetir, mas, tal como em todas as iniciativas, deve haver uma avaliação do resultado final e daí devem ser retiradas pistas para melhorar e evoluir no futuro. Os chefes envolvidos saberão quais as maiores dificuldades e benefícios que esse trabalho envolveu. As minhas considerações baseiam-se na visão de quem só assistiu à apresentação do resultado final. Primeiro que tudo, algumas considerações gerais.  

 

Não acho compreensível que entre os 17 chefes que foram escolhidos para integrar os quatro grupos de trabalho não houvesse nenhuma mulher. E quando ouvi a organização justificar-se por alguma regiões do País não estarem igualmente representadas, ainda achei mais grave. As mulheres na cozinha são invisíveis? Infelizmente são... e se tudo se mantiver como atualmente, vão continuar a ser. Estamos em 2017. Embora, infelizmente, o retrocesso seja grande em muitas áreas, em situações como estas em que se pretende estar na vanguarda, reflectir e procurar novos caminhos, isto não pode de todo acontecer. A responsabilidade de quem escreve sobre estes assuntos e organiza eventos como estes pode ser decisiva no processo de tornar a situação mais igualitária, e contribuir para a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens na profissão de cozinheiros. É um assunto que considero de extrema importância e que deve ser debatido e falado.

 

Quanto aos temas escolhidos, poderiam ser estes ou dezenas de outros. Eu possivelmente não escolheria estes, mas se juntássemos várias pessoas haveria muitas ideias diferentes. Portanto penso que foram a opção escolhida e que poderão ser tão bons como quaisquer outros. Já quanto à constituição das equipas que trabalharam cada tema acho que deverá que ser repensada no futuro. Há uma frase que não sei de quem é, nem se a forma é exactamente esta, mas que tenho repetido muito e que ao longo da vida tenho verificado reflectir uma enorme sabedoria : "A evolução faz-se mais pela cooperação entre diferentes do que pela competição entre iguais.". No que à alimentação e cozinha diz respeito, isto é particularmente verdade. São tão complexos e multidisciplinares que ninguém sabe tudo. Qualquer visão considerando apenas algumas áreas é sempre muito limitada e mais pobre. A possibilidade de análise das coisas de um número superior de perspectivas, torna sempre esta visão mais rica. 

 

Não sei exactamente qual foi o objectivo do trabalho destes grupos, mas se foi aprenderem mais sobre cada um dos temas, sendo todos os elementos cozinheiros esse processo de aprendizagem ficou limitado. Nalguns grupos foram buscar pessoas de outras áreas, e considero isso muito positivo. No entanto, se tivesse havido um compromisso inicial de um trabalho conjunto entre pessoas de várias áreas, este processo teria sido estendido a todos os grupos, e acredito que teria sido possível ir mais longe.

 

Se o objectivo foi promover a união entre chefes, acho muito louvável, mas do que vou observando acho que os chefes se não são mais unidos é porque não querem. Há reuniões, congressos, várias oportunidades de trabalharem juntos - jantares a 4,6, 8... mãos. Portanto muitas oportunidades de se reunirem, conhecerem e promoverem essa união. Ao falar disto, e para além do que referi, lembro-me de uma apresentação conjunta, a que se seguiu um jantar, em  San Sebastian no Congresso Lo Mejor de la Gastronomia em 2008. Ali a apresentação de sete chefes portugueses foi conjunta, e penso que coordenada pelo Luís Baena, e transmitiram uma imagem de unidade e dinamismo muito forte. Para além da apresentação comum, cada um teve oportunidade de mostrar o seu trabalho. Notava-se que tinha havido um grande trabalho conjunto na preparação da apresentação. Lembro-me que ouvi uns suíços comentarem que tinha sido uma apresentação muito forte, que criava grandes expectativas. Também ali ouvi, tal como no Sangue na Guelra, que tinha sido um momento de viragem, declarações emocionadas sobre a vantagem e a importância do trabalho em comum e de o prosseguirem. Nove anos depois continua-se a referir o mesmo problema e a estabelecer iniciativas para o ultrapassar, apesar de tantas oportunidades de trabalharem em conjunto?  Voltam-se a ouvir declarações emocionadas (por vezes demais num evento e palco com as características do de um Simpósio que se pretende aberto e de reflexão) sobre a vantagem e a importância do trabalho em comum e de o prosseguirem.

 

Não considero que haja falta de oportunidades para se encontrarem e conhecerem, nunca tanto quanto actualmente essas oportunidades existiram. Estes empurrões e iniciativas para que essa união se estabeleça, vindos de fora têm valor e são bem vindos, como já referi, achei o Simpósio Sangue na Guelra relevante e importante. Mas o trabalho para essa união, se é que ela pode ser mais forte e não constitui uma imagem romanceada, tem que partir dos próprios. E não resisto a referir algo que há muito venho constatando e até comentando, não conheço nenhuma classe profissional em que as pessoas apareçam abraçadas em tantas fotos como os cozinheiros. Nunca vi mesmo! Isso tem algum significado? 

 

É importante ultrapassar a lamentação constante da desunião e apresentar isso como justificação para muitas coisas. É importante que se a sentem tomem em mãos, internamente, o papel de a ultrapassar, que se deixe de falar disto e que se ande daí para a frente.

 

Isto não era para ser tão longo... mas aconteceu...

 

Continua...

 

 

 

Foto inicial DAQUI