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Quem é que de facto paga o seu jantar?

por Paulina Mata, em 15.10.16

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Incomoda-me profundamente o que ocorre muito frequentemente, e cada vez mais nos dias que correm, em que quem trabalha é tratado sem o menor respeito, as condições de trabalho são por vezes quase desumanas e o pagamento não permite sequer garantir o mais básico dos básicos. Situações que por vezes mais se assemelham a escravatura do que a uma relação digna.

 

Isso acontece em todas as áreas de actividade. Acontece também muito em restaurantes. Quanto aos salários e horas de trabalho (outras coisas não têm justificação) justificam-no por vezes com a impossibilidade de o fazer de outra forma pois o negócio não seria rentável. Acredito. Mas porque é que quem tem que "pagar" o meu jantar é a pessoa que está na cozinha, a trabalhar em condições duras, horas a fio, que muitas vezes nem nunca comeu o prato que faz*, e não eu? Porque seria caro demais? Azar o meu... quem de facto "paga" o meu jantar é que não tem nada com isso. Ás vezes, apesar do preço artificialmente tornado razoável, o que vou sabendo aqui e ali tira toda a magia da comida, torna tudo tão amargo e difícil de engolir...

 

Talvez por tudo isto achei tão importante, e gostei tanto de ler, o artigo da passada 5ª feira do Jay Rayner no The Guardian. Dá verdadeiramente que pensar...

When you moan about the cost of a meal, think about who’s slaving in the kitchens

 

A imagem de glamour, magia, prazer, sofisticação e até de preocupações ambientais  que nos dá a comunicação social (tantas vezes de forma exagerada) não é a única. Quantas vezes as preocupações ambientais e de práticas corretas são só com o ambiente e as práticas fora da cozinha? Quantas vezes todo esse glamour e magia têm muito sofrimento e falta de dignidade por detrás?

 

Acredito de facto que o negócio não seja rentável, e sinceramente admiro a coragem de quem se mete nele, mas há que pensar nas práticas e na sua justiça e ética.

 

Vale a pena ler o artigo, e dá muito que pensar... como bem ilustram os últimos parágrafos:

 

Earlier this year, revered New York chef David Chang wrote a piece for American GQ in which he said bluntly that the business was all but impossible. “The longer chefs look at restaurant math,” he wrote, “the less it adds up for them.”

He described the costs he faced and concluded, “Food needs to get more expensive ...” Ignore him if you wish. Dismiss the young woman who wrote to me as a spineless whinger. But if you do, unscrupulous restaurateurs will simply carry on breaking the law. And all to keep us fed.

 

 

 

* Lembro-me de uma vez uma pessoa que trabalhava na cozinha de um restaurante reconhecido me ter perguntado se a comida lá era boa. Não tinha a menor ideia do que era a experiência de comer ali, nunca tinha comido nenhum prato.

 

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