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Neste Leopold pela última vez

por Paulina Mata, em 02.06.16

 

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Fazer qualquer coisa e saber que provavelmente é a última vez que se faz aquilo, daquela forma, produz sempre uma sensação estranha... às vezes quase prefiro não saber que aquela será a última vez. Neste caso sabia que era a última vez que estava a jantar naquele Leopold. Irei ao novo, quando abrir, mas ali era a última.

 

Lembrei-me da primeira vez que fui, durante muito tempo estivemos apenas nós no restaurante. Desta vez foi diferente, estava cheio, curiosamente de estrangeiros, e nós.

 

Lembrei-me também do impacto que teve em nós a primeira vez. A uma sensação de algum desconforto, possivelmente pelo carácter intimista forte do restaurante, seguiu-se uma grande excitação pela descoberta. Fui ver umas notas que escrevi na altura:

 

O espaço é muito, muito pequeno. Não dá para grande privacidade. E para algumas pessoas tal pode ser um pouco constrangedor.

Não sendo um aspecto negativo, apenas de estilo e que está adaptado ao local, os pratos eram para dividir e apenas nos traziam 2 garfos e punham o prato no meio da mesa. Portanto comemos do mesmo prato. Se com algumas pessoas isso funciona, com muitas poderá não funcionar.

A comida é excelente. Muito original e criativa. Os pratos são muito bonitos. Adorei o restaurante, a criatividade e a paixão que tudo revela. Fiquei surpreendida com a qualidade e originalidade.

 

Desta vez não foi surpresa, já conhecia bem o projecto, já tinha comido alguns pratos, já tinha ouvido a descrição de outros (aqui) Mas, tal como antes, adorei a originalidade, o modo como aquela cozinha expressa uma forma de estar na vida, e também a combinação de sabores, de texturas.

 

Talvez não seja um restaurante para toda a gente, talvez não seja uma cozinha fácil. Mas nem é suposto... No Leopold encontra-se uma linguagem própria, encontra-se paixão pelo projecto, pela cozinha.

 

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Nabo, espinafres, sementes

 

Um prato para partilhar, tal como na generalidade dos pratos com base em três produtos, três texturas, um conjunto de sabores. Aqui folhas cruas de espargos silvestres, um puré morno de nabo, sementes muito estaladiças, e a avivar o conjunto miso branco. Muita simplicidade aparente, mas uma grande complexidade e riqueza.

 

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 Espargos verdes, noz

 

Os espargos temperados com um pó de cogumelos shiitake e um creme de nozes.

 

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 Pão, manteiga de ovelha, mel

 

Dois bons pães, daqueles que reconhecemos como nossos, uma excelente manteiga de ovelha e um mel cremoso de flor de laranjeira, mas também erva-patinha (uma alga) picada, misturada com chalotas e alcaparras, por cima da mistura uma outra alga. Ao conforto do pão, manteiga e mel, bem familiares, juntou-se a descoberta de algo menos familiar - as algas.

 

Em alguns restaurantes, com determinados menus e tipos de cozinha, questiono-me sobre a pertinência do pão sobre a mesa. A servi-lo, e aqui fazia sentido, gosto mais dele com o seu momento próprio, no decorrer da refeição.

 

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 Novilho dos Açores, alga kombu, grelos de agrião

 

O novilho com um óptimo ponto de cozedura e muito saboroso, a alga kombu em pickles, o prato costuma ser com mizuna, mas no dia em que fomos o Tiago tinha recebido grelos de agrião. A este prato de carne, seguiu-se outro de puro conforto, um ovo cozinhado a baixa temperatura, a gema muito cremosa, cogumelos e depois o crocante do trigo sarraceno. Uma boa forma de terminar os pratos salgados.

 

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 Ovo, cogumelos shiitake, trigo sarraceno

 

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 Banana, queijo S. Jorge, areia de canela

 

A sobremesa já conhecia bem de outras visitas. O creme de banana, o pó dos biscoitos de canela, complementados e avivados pelo queijo de S.Jorge cortado em lascas finíssimas. O salgado e o umami do queijo mudam tudo...

 

Depois chegou a caixa, a recordar tempos antigos, a despertar memórias...

 

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 Caixa

 

Lá dentro as memórias tornaram-se mais concretas. Figos cristalizados, de Elvas disse a Ana. Eu via-os todos os verões em compridos tabuleiros de madeira, tapados com uma gaze, a secar ao sol. A figueira continua no quintal, no mesmo sítio. Agora sou eu que os faço. E gosto tanto... Cada pedaço de figo com uma folha de poejo, uma óptima combinação.

 

O fecho deste Leopold, significa a abertura de um novo Leopold. Desejo muito boa sorte ao Tiago e à Ana. E espero ansiosamente pela primeira vez no outro Leopold, será de novo um momento de descoberta. Descoberta do espaço e da cozinha, adaptada a diferentes condições e infra-estruturas.

 

 

 

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