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Isto não é de um homem de cultura…

por Paulina Mata, em 09.09.16

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Chamaram-me a atenção há dias para um texto publicado por Rui Vieira Nery no seu facebook no dia 8/8 sobre a cozinha que se praticava antigamente e a cozinha que se pratica agora.

 

O que senti quando o li?  Um estado de choque e uma enorme tristeza. Choque e tristeza não por constatar as preferências gastronómicas de Rui Vieira Nery, bem ilustradas pelo parágrafo com que termina o texto:

 

Que saudades das Donas Adozindas, das Donas Felisminas, das Donas Gertrudes, mais camponesas ainda do que citadinas, com a sua sabedoria, as suas receitas de família, a sua simplicidade, a sua fartura, o seu gosto de servir bem, o seu sentido de tradição e de comunidade!

 

já que eu também gosto deste tipo de cozinha. E cada um está no direito de gostar do que gosta e do que o faz feliz. No direito de comer apenas o que quer.

 

O choque e a tristeza resultavam da atitude expressa no texto, que considero profundamente primária, relativamente à gastronomia. Rui Vieira Nery é um professor universitário, um investigador, um homem de cultura. Foi inclusivamente Secretário de Estado da Cultura. Sendo assim, era de esperar que tivesse uma atitude mais séria e mais reflexiva, uma melhor compreensão das influências históricas, políticas e sociais na evolução do mundo em geral, de que a gastronomia faz parte.  O mundo tem mudado e cada vez menos é o mundo que descreve, de forma pedante, paternalista e sexista, no 1º parágrafo do texto, de que aqui fica um extrato:

 

Antigamente as cozinheiras dos bons restaurantes portugueses eram umas Senhoras rechonchudas e coradas, em geral já de idade respeitável, com nomes bem portugueses ainda a cheirar a aldeia – a D. Adozinda, a D. Felismina, a D. Gertrudes – e por vezes com uma sombra de buço que parecia fazer parte dos atributos da senioridade na profissão. Tinham começado por baixo e aprendido o ofício lentamente, espreitando por cima do ombro dos mais velhos.   […]

 

A evolução não vai parar e muito menos se vai voltar atrás. E, felizmente, atualmente as pessoas têm acesso a um sistema de educação diferente, e não começam já, em crianças, por baixo, a espreitar por cima do ombro de alguém.

 

Há um legado de gerações que é preciso manter, tendo em conta que ele também evolui, é um património dinâmico. Mas em paralelo há outras aproximações à cozinha igualmente válidas e importantes. Elas existem, quer se goste ou não. É perfeitamente lícito não gostar, mais do que isso, é lícito escolher ignorá-las, ficar apenas pelo legado de gerações. Já não é lícito ridicularizá-las, e muito menos de uma forma demagógica. Sempre houve chefes, mesmo antigamente, e continuam a existir muitas cozinheiras e cozinheiros que praticam uma cozinha tradicional e têm restaurantes cheios.  Porque necessita Rui Vieira Nery de criar esta dicotomia entre o “antigamente” e o “hoje em dia”, de um forma intelectualmente desonesta?

 

[…] Hoje em dia, ao que parece, nestes tempos de terminologias filtradas, já não há cozinheiros, há “chefes”, e a respectiva média etária ronda a dos demais jovens empresários de sucesso com que os vemos cruzarem-se indistintamente nas páginas da “Caras” e da “Olá”. Os nomes próprios seguem um abcedário previsivel – Afonso, Bernardo, Caetano, Diogo, Estêvao, Frederico, Gonçalo, … – e os apelidos parecem um anuário do Conselho de Nobreza, com uma profusão ostensiva de arcaismos ortográficos que funcionam como outros tantos marcadores de distinção – Vasconcellos, Athaydes, Souzas, Telles, Athouguias, Sylvas… […]

 

Curiosamente quando vi tantos nomes com “Y” lembrei-me do nome do autor do texto… será que sendo um homem da cultura tem direito a um destes marcadores de distinção?

 

Chocantes, demagógicos e muito primários são também os argumentos, mais que estafados, das “doses cuidadosamente homeopáticas” e da “absoluta ininteligibilidade [do menu] para o cidadão comum”. O que é que isso significa em termos de valor?

 

Quando cheguei ao fim do texto tive um choque redobrado com o número de partilhas (neste momento 1830), gosto e outras coisas do género (atualmente 425), assim como os comentários de apoio e, mais do que isso, aplauso (94), grande número deles de intelectuais e académicos.

 

É preocupante… isto não é cultura, isto não é uma análise séria.

 

 

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