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Eu só queria um bife, mas aquele almoço deu-me muito em que pensar...

por Paulina Mata, em 19.04.16

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Há umas semanas tive que, entre dois compromissos, almoçar num restaurante. Apetecia-me comer carne. Fui a um restaurante em que a carne é produto forte, ou seja único.  Entrei, sentei-me, escolhi, e olhei à volta.

 

Uma observação rápida e reparei que no restaurante havia 2 mulheres – eu e a de um casal numa outra mesa. Todas as outras mesas estavam ocupadas, todas com homens, quer sozinhos quer em grupo. Homens de fato e gravata, com um ar de profissionais bem sucedidos.

 

O almoço satisfez a minha vontade de comer carne, mas isso não foi o mais importante. A frequência do restaurante fez-me olhar com mais atenção para a decoração e para a cozinha. E isso acabou por me dar que pensar, e até algum trabalho.

 

Uma decoração com cores escuras, muita pedra, cabedal, metais, em particular cobre, uma garrafeira bem visível, muitas garrafas de vinho e também presuntos e enchidos bem à vista. Diria que era uma decoração muito direccionada a uma clientela masculina e próspera.

 

Da cozinha saíam basicamente carnes grelhadas, em que se usava o carvão e se viam de tempos a tempos algumas chamas a crepitar. Bons nacos de carne, mal passados e, em geral, sobre uma tábua.

 

Steak-Meat-Beef.jpg

 

Enquanto comia fui pensando na relação entre a carne, em particular a carne servida grelhada e mal passada, e a masculinidade. Em como seria de esperar que aquele fosse o tipo de público daquele restaurante. E ainda em como toda a envolvente apelava àquele tipo de público.

 

Mais, reflecti também sobre o facto de estarmos numa época em que é amplamente reconhecida a necessidade, e inevitabilidade, de reduzirmos o consumo de carne por razões de sustentabilidade ambiental, e até de saúde. De facto, a carne é crítica no que diz respeito à sustentabilidade, pois está entre os alimentos que envolvem um consumo mais intensivo de energia e de água, sendo ecologicamente extremamente onerosa. Mas, curiosamente, estarmos também numa época em que cada vez se fala mais de comer carne e de carne maturada, e em que cada vez abrem mais restaurantes com a carne como único produto.

 

Pensei que certamente haveria artigos resultantes de trabalhos de investigação sobre estes assuntos. Quando cheguei a casa à noite fiz uma pequena busca, não foi difícil encontrar vários, e estive a ler alguns*. Em que se refere a genderização de todos os aspectos da nossa vida, e necessariamente em aspectos relacionados com a alimentação. Esta genderização  da nossa vida alimentar é basicamente cultural e não tem qualquer base biológica.

 

Em vários era referido que a relação entre masculinidade e consumo de carne, e em particular carne vermelha, é um arquétipo da genderização alimentar. Curiosamente são ainda referidas as características para a forma de cozinhar esta carne que a torna ainda mais masculinizada – mal passada e com poucos molhos, para evitar “civilizar” e “feminilizar” este produto.

 

Mais do que associado à masculinidade, o consumo de carne está também intimamente associado a prosperidade e status. Assim sendo, a ingestão de carne pode ser uma forma de exibir o estatuto social.

 

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 Impacto das diversas contribuições para o efeito de estufa

 

Também não foi difícil encontrar na literatura publicações sobre a relação entre o consumo de carne e a sustentabilidade. Neles é referido que dieta e sustentabilidade estão intimamente ligadas. Por exemplo, as nossas escolhas e hábitos alimentares afectam as alterações climáticas, a biodiversidade, e o uso da água e da terra. Afirma-se mesmo que as práticas alimentares, em particular o consumo de carne, produtos lácteos, ovos e peixe, contribuem  de forma alarmante para a actual pegada ecológica.

 

Portanto, reduzir o consumo de carne é crucial para tornar a nossa dieta mais sustentável e reduzir o impacto ambiental dos sistemas alimentares. Contudo, simbolizando a carne a masculinidade, o domínio humano da natureza, o luxo, a festividade, e o progresso económico e social esta é uma tarefa difícil. Se mudar uma dieta já é um enorme desafio, transformá-la desta forma implica mexer numa componente com um profundo e estabelecido significado, que é um elemento crucial da identidade de muitos homens e da forma como expressam não só essa identidade, mas também o seu poder e estatuto. Uma tarefa urgente e inevitável, mas uma tarefa difícil.

 

Voltando ao restaurante, aquela refeição deu origem a muita reflexão e leitura posterior. Que só confirmaram o excelente trabalho, altamente profissional, no processo de desenvolvimento daquele restaurante. Está perfeito, tendo em conta o público alvo que penso que  pretendem atingir, e esse público alvo enchia o restaurante. Contudo, também me fizeram pensar na necessidade de reduzirmos o consumo de carne, da forma como isso tem que ser levado a sério, e do difícil trabalho que implicará. Não menos importante, também me fez pensar na necessidade  e importância de se estudarem e debaterem as relações entre comida, identidade e estatuto.

 

 

1ª foto DAQUI

2ª foto DAQUI

3ª imagem DAQUI

 

* Por exemplo:

Men, meat, and marriage: models of masculinity

Sustainability and meat consumption: is reduction realistic?

 

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