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Espaço Espelho d'Água - um projecto para descobrir e viver

por Paulina Mata, em 06.04.16

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Há de facto coincidências... recentemente conversava com uma pessoa que me dizia que não compreendia que os chefes portugueses não se inspirassem mais na nossa riquíssima história e em particular na influência que as navegações tiveram na nossa e noutras cozinhas. De facto, tivemos um  papel determinante na disseminação de muitos produtos pelo mundo (batata doce, arroz, quiabos, mandioca, especiarias...). Influenciámos também técnicas culinárias e pratos de culturas longínquas, e fomos influenciados por essas mesmas culturas. Uma base de trabalho riquíssima, que não tem sido devidamente explorada. Uns dias depois recebi um convite para um almoço no restaurante do Espaço Espelho d'Água  com um menu baseado nos sabores dos países por onde os portugueses viajaram entre os séculos XV e XVI.

 

O belíssimo edifício do Espaço Espelho d’Água, está localizado no local de onde há 5 séculos os portugueses partiram para o mundo. Tem uma área de 1200 m2 e foi inaugurado em 1940 para a Exposição do Mundo Português. O restaurante nele existente foi desenhado inicialmente pelo arquitecto António Lino, e redesenhado e ampliado por Cottinelli em 1943. Este interessante edifício teve diversas utilizações, mas em setembro de 2014 reabriu com um novo conceito e oferta.

 

O projecto actual, que é da responsabilidade de Mário Almeida e de Mona Camargo, associa gastronomia, arte e design, música, audiovisuais e a interculturalidade e, inspirando-se na história do edifício e na sua localização, pretende criar um ambiente artístico e cultural baseado na relação dos portugueses com o mundo e do mundo com os portugueses.

 

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O espaço tem uma estreita relação com o Tejo, e o núcleo central é dedicado à alimentação - cafetaria, bar e um restaurante. Associado a este há outros espaços que funcionam como sala de exposições ou de concertos e acolhem diversas residências artísticas. 

 

Na parede principal do restaurante existe uma pintura mural do artista americano Sol Lewitt (de 1990). O painel foi encontrado durante as obras e foi restaurado. A parede por detrás do bar, que o separa da cozinha, está coberta por um jardim vertical - com  cerca de 100 m2 e 60 espécies de plantas tropicais - e foi projetado pelo designer Michael Hellgreen. Sendo este um projecto em que as artes têm um papel importante, existem no espaço diversas outras intervenções artísticas, nomeadamente uma calçada portuguesa na entrada principal do edifício (1ª foto), criada a partir de um desenho do artista angolano Yonamine, e os seis carrinhos de apoio pintados também por um artista angolano.

 

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As ementas reflectem os  vários sabores dos países por onde os portugueses viajaram entre os séculos XV e XVI. Para as elaborar foi desafiada a chef brasileira, Ana Soares, do Mesa III Consultoria, em São Paulo. Que se inspirou em ingredientes e receitas portuguesas, e dos países que se relacionam historicamente com Portugal (Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé Príncipe, Índia, China e Timor). E em particular numa pesquisa da investigadora Guta Chaves, jornalista gastronómica brasileira especializada em história, sobre os intercâmbios durante as navegações. Actualmente o chef Luís Calixto, a par com a responsabilidade  pela cozinha, também participa no desenvolvimento das ofertas gastronómicas.

 

O almoço que nos foi servido, constituído por pratos oferecidos na cafetaria e no restaurante, era inspirado nas navegações que daquele local tinham partido e ali tinham chegado, influenciando cozinhas e culturas longínquas e também as nossas.

 

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 Pastéis de vento com carne picante e Rissóis de camarão, caril e coco em massa de milho

 

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 Bacalhau em tempura com tomatada e folhas de agrião

 

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 Tagine de garoupa e camarão com hortelã e limão, cuscuz de especiarias e legumes

 

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 Cupim de boi gaúcho com arroz de feijão e batatas

 

No final provámos várias das sobremesas da carta:

 

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 Bebinca de amêndoa com gelado de ameixa d'Elvas

 

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 Romeo e Julieta à Espelho d'Água (creme de queijo e nata com compota de goiaba)

 

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 Bolo de rolo ao cacau com creme de leite, creme inglês de cardamomo

 

Pratos que associavam sabores exóticos e ingredientes de outras paragens a outros que nos são mais familiares. Pratos muito bem confeccionados, apetitosos, plenos de sabores, mas bastante leves. A parede envidraçada para o lado do rio proporciona um ambiente muito luminoso, agradável, bonito e sempre diferente.  Gostei muito e fiquei com vontade de voltar.

 

É tão interessante, e importante viver a nossa história, descobrir a nossa influência noutras culturas, e sobretudo conhecer as culturas contemporâneas das diferentes regiões por onde os portugueses andaram na grande aventura das navegações, experiências que o Espaço Espelho de Água promete proporcionar-nos.

 

Um espaço e um projecto que merecem ser descobertos e vividos. E podemos fazê-lo 7 dias por semana entre as 11 e as 24 h.

 

 

 1ª foto DAQUI