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É importante e urgente reformular a forma como falamos dos alimentos

por Paulina Mata, em 14.05.17

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Há umas semanas, ao ler a revista Olive de Abril, encontrei um artigo muito interessante de Tony Naylor. Nele Tony Naylor reflecte sobre o movimento iniciado há cerca de uma década na Europa de valorização, por parte das pessoas mais interessadas na alimentação, de produtos de qualidade, em geral artesanais e frequentemente produzidos localmente. Produtos com uma cara e uma história. Movimento este que se iniciou muito antes nos EUA com Alice Waters, quando, em 1971, abriu o seu Chez Panisse em Berkeley e estabeleceu uma rede de fornecedores com artesãos, agricultores e produtores locais, tendo tido bastante influência na cozinha e postura dos chefes americanos.

 

Tony Naylor diz que tudo isto está em perigo, que actualmente isto começa visto como uma piada, uma conversa ridícula, muitas vezes até pelas pessoas mais bem informadas. Porque em muitas situações passou a estar associado a snobismo, porque se exagerou, devido também à dimensão moral associada, porque em muitas situações não há fundamentos sólidos e há uma abordagem muito superficial, e porque as grandes cadeias e indústria recuperaram toda esta filosofia e de certa forma ela deixou de ter significado. De facto, alimentos produzidos pela grande indústria são apresentados como artesanais, sustentáveis, éticos, naturais, muitas vezes provenientes de quintas com nomes muito bucólicos, sem que isto corresponda a alguma realidade. Tal fez com que estes termos se esvaziassem de significado (como antes já tinha acontecido com conceitos como gourmet, por exemplo).  

 

Como Tony Naylor refere, a maioria das pessoas não é tão militante que seja capaz de reger as suas vidas e o seu consumo seguindo inflexivelmente os melhores procedimentos. E todos consumimos, e temos que consumir, alimentos industrias e processados, e fazer as compras em grandes cadeias de supermercados. Fazemo-lo porque não há tempo disponível para procurar produtos de nicho, para ir a cada pequena loja fazer as compras, porque a disponibilidade económica o exige, e por muitas outras razões. Refere ainda que também não se pode deixar de reconhecer como os supermercados foram libertadores e nos facilitam a vida, e o valor e o trabalho de cientistas que trabalham em ciências de alimentos e desenvolvem produtos alimentares.

 

Discute como a situação atual é perigosa, pois o interesse e o conhecimento relativamente ao que comemos e à forma como é produzido é importante para tomarmos decisões informadas, que não passem essencialmente por valorizar os preços baixos.

 

Concluí, defendendo que é necessário um debate honesto e rigoroso acerca do que comemos, mas numa nova linguagem, mais conciliatória. Uma linguagem que seja capaz de expressar o romance relativamente ao trabalho apaixonado de produtores de nicho que procuram criar produtos excepcionais, mas que também reflicta, sem preconceitos sobre produtos industriais. Que não se baseie em assunções dicotómicas e simplistas do tipo "biscoitos artesanais são bons e biscoitos industriais são maus", ambos podem ser bons ou maus, e podemos consumir ambos. Uma abordagem que exponha más práticas quando elas ocorrem (sem generalizações), mas que seja também capaz de reconhecer a qualidade, o conhecimentos e as histórias por detrás de muitos alimentos industriais.

 

Termina dizendo: "Esqueçam a comida artesanal. Precisamos de um debate aberto e comprometido sobre todos os alimentos, se quisermos valorizá-los como deveríamos."

 

É de facto importante e urgente reformular a linguagem e as atitudes no que àquilo que comemos diz respeito. Cada vez é mais importante adquirir um conhecimento aprofundado, sem preconceitos. É essencial e importante que este trabalho comece sobretudo por parte de profissionais de cozinha e da comunicação. As palavras e conceitos já estão a ficar demasiado esvaziados de significado.

 

 

 

PS

Gosto muito destes artigos de opinião sobre temas relacionados com alimentação, tão comuns, por exemplo, em jornais e revistas ingleses e que praticamente não existem na imprensa portuguesa. Fazem falta artigos com informações bem fundamentadas. Não é importante se concordamos ou não, é importante pensar e ver as coisas de diferentes ângulos.