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A Matabala e as Coincidências

por Paulina Mata, em 10.12.16

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Adoro coincidências! Há dias conheci uma pessoa que em conversa me disse que tinha estado em São Tomé e me falou de um tubérculo que tinha comido lá - a matabala - um tubérculo na altura muito desdenhado. Desconhecia-o, que me lembre, foi a primeira vez que ouvi falar dele.

 

Menos de uma semana depois, entrei na Vida Portuguesa no Chiado e dei uma vista de olhos aos livros. Um deles era sobre cozinha de São Tomé e Princípe: Sabores da Nossa Terra de Inês Gonçalves, Conceição de Deus Lima e Patrícia Brito. A capa atraente fez com que reparasse nele e o folheasse.

 

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A certa altura lá estava ela, a matabala, e uma série de receitas usando-a. Claro que trouxe um livro comigo. Impossível resistir. Ao lê-lo confirmei que a matabala, particularmente em São Tomé (pois no Príncipe onde é conhecida por kôkô foi sempre usada), até à independência era desprezada por todos os estratos sociais, sendo classificada como alimento para suínos, e o seu consumo, em situações de aperto, podia provocar algum embaraço e exigir discrição. Fiquei também a saber muito mais sobre este tubérculo originário da América tropical e introduzido em São Tomé e Príncipe a partir do século XVI, quando este arquipélago se tornou um importante ponto de passagem, e entreposto comercial, na rota marítima transatlântica entre África e as Américas

 

Depois da independência, e em particular nos anos 80, quando a situação económica levou a descontinuidades na importação de batata, a matabala passou a ser cada vez mais consumida e foi introduzida em alguns pratos para substituir a batata. Mas a responsabilidade principal no seu estatuto actual na gastronomia de São Tomé deve-se aos pediatras e nutricionistas cubanos que  convenceram as mães são-tomenses do alto valor nutritivo deste tubérculo e as incentivaram a dar papas de matabala às crianças.

 

Chamou-me a atenção a receita de Matabala Frita em Molho de Amendoim, para acompanhar chocos. Nela a matabala é cozida, depois cortada em palitos e estes são salteados numa mistura de pasta de amendoim com azeite. Talvez experimente um dia destes com batata, pois encontrar matabala por cá é uma missão impossível... Se em São Tomé ela foi introduzida em muitos pratos para substituir a batata, eu substitui-la-ei pela batata.

 

Muito bonito  e interessante este livro, com capítulos dedicados a ingredientes marcantes da cozinha são-tomense (Banana, Fruta-pão, Matabala, Folhas e Cacau) e que, a par com receitas tradicionais, incluí outras mais modernas. 

 

Foto inicial retirada do livro.