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A Festa de Babette no Eleven

por Paulina Mata, em 14.03.16

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Lembro-me muito bem da primeira vez que vi o filme a Festa de Babette (1987 - uma adaptação do conto de Karen Blixen por Gabriel Axel), achei fascinante o impacto que aquele jantar teve no grupo de pessoas que nele participaram.  A forma como alterou os estados de espírito e as relações entre elas.

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O Chef Joachim Koerper gosta muito do filme e periodicamente faz jantares temáticos com a ementa da Festa de Babette. Quando há dias recebi um convite para um destes jantares no Eleven, aceitei com alguma expectativa.


O contexto em que decorreu o jantar era bem diferente do do jantar original. Não estávamos numa aldeia remota da Dinamarca, num dia de rigoroso inverno do final do século XIX, mas numa Lisboa cosmopolita, num dia de Inverno que quase parecia primavera, no início do século XXI.

 

Chegou o primeiro prato

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Comme une Soupe à la Tortue
com
Sherry Sandeman Medium dry Amontillado

 

A sopa, ao contrário da original, não era de tartaruga, pois esta não pode ser consumida, mas era um saboroso consommé de vitela guarnecido com cubinhos de uma royale com uma textura extremamente suave, cogumelos, pequenas bolinhas de carne de vitela e ervas aromáticas. Um prato extremamente delicado e saboroso. Ao comê-lo não pude deixar de pensar no impacto que uma sopa como esta, servida com um Amontillado, teria tido naquelas pessoas habituadas a uma alimentação muito frugal, e para quem os faustos da mesa eram pecaminosos...

 

De seguida vieram 

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Blinis Demidoff au Caviar
com
Champagne Veuve Clicquot Brut


Joachim Koerper falou-nos de Anatole Demidoff, o aristocrata e gastrónomo russo que criou os blinis, confeccionados com trigo sarraceno, para acompanhar o caviar. E ali estavam eles com caviar, crème fraiche e limão.

 

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Caille en Sarcophage avec Sauce Perigourdine
com
Pommard 2010 Domaine Buisson Battault – Borgonha


As codornizes recheadas com foie-gras, sobre espinafres num mil folhas, com trufa preta e um molho preparado com um caldo, vinho Madeira e trufa. Tantos ingredientes de luxo...

 

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 Salade

 

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Selection de Fromages
Brin d’Amour (Corse)  Reblochon (Savoie)   Munster (Alsace)

 

Os queijos eram acompanhados  com um pão de figos e um de nozes. E para terminar em beleza:

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Baba au Rhum
com
Porto Vintage Rozès, 1997

O baba au rhum muito bem complementado com o figo e as natas batidas com baunilha. Mas mais uma vez não pude deixar de pensar em Martine e Phillipa, as filhas do deão fundador de uma seita religiosa cujo 100º aniversário o jantar no filme comemorava, e nos seguidores do deão, habituados a poucos luxos e a uma alimentação frugal. O que teriam sentido quando a sobremesa lhes foi apresentada?


No andar de cima do Eleven, sentada à mesa e tendo à minha frente uma lindíssima Lisboa, pensei no contraste de situações e expetativas. Em como numa refeição não é só o que se come que conta, mas o contexto em que ela decorre, e ainda as expectativas e experiências dos comensais. Estas são mesmo determinantes. O grupo à mesa era bem diferente do dos seguidores do deão…  o impacto não foi o mesmo, não podia ser… Será que lá no fundo esperava que fosse?

 

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Babette, a reputada ex-chef do Café Anglais em Paris, refugiada em Berlevaag na Dinamarca, que durante doze anos cozinhou para as filhas do deão bacalhau seco e sopa de cerveja com pão, e panelões de sopa para os pobre, ofereceu-lhes este jantar com o dinheiro que ganhou na lotaria. Quando Phillipa diz a Babette que não devia ter gasto tudo por causa deles, Babette responde “Por vossa causa? Não! Foi por minha causa!”. Questionei-me se o Joachim Koerper repete estes jantares por causa do seus clientes, ou por sua causa…

 

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À saída do restaurante ofereceram-nos uns macarrons. Tão simpático! É bom trazer um pouquinho do restaurante para casa, trazer algo que nos recorde os momentos ali passados. Os meus... comi-os com um chá enquanto lia o conto "A Festa de Babette" de Karen Blixen.

 

Eleven - Rua Marquês de Fronteira, Lisboa